AGOSTINHO DA SILVA EM SESIMBRA, 4

Agostinho da Silva2.(voltar à página principal)

Agostinho da Silva*

Por mercê do meu amigo António Telmo, tive o privilégio de conhecer o Professor Agostinho da Silva, e depois com ele conviver durante muitos anos.

Muitas vezes lhe ouvi dizer que gostava de contactar com as pessoas simples, com as quais, como também dizia, sempre aprendera muito.

A esse propósito todos nós conhecemos a referência que faz aos faroleiros do Cabo Espichel, no seu livro “Reflexão”.

Eu sou um dos muitos homens simples que ele conheceu mas, no meu caso, obviamente que fui eu que aprendi com ele, e disso vos quero transmitir alguns, também simples, testemunhos e pequenas notas de recordações que traduzem, para além da alma límpida e da inteligência cristalina, a grandeza humana desse saudoso amigo.

 * * *

Uma vez manifestou-me o desejo de visitar uma loja de companha, para os que não sabem uma espécie de armazém onde se guardam os apetrechos de pesca, visto querer conhecer de perto o trabalho dos pescadores.

Acompanhei-o então a uma dessas lojas, infelizmente já desaparecidas, dada a decadência que se tem verificado na vida piscatória.

Um grupo de pescadores, bem como o respectivo mestre, entretanto prevenido da visita, dispuseram-se a explicar, na sua linguagem característica, que por vezes tive de “traduzir”, as várias tarefas em que estavam ocupados para a pesca com aparelhos de anzol.

Sempre atento e interessado por tudo, a certa altura surpreende-nos quando, pedindo para ser ele a fixar o anzol na respectiva linha, o fez com a rapidez e a destreza de um pescador experiente.

Haveria de segredar-me depois que, talvez por ter pensado em ser marinheiro, aprendera a arte de fazer nós, e por isso tinha exposto numa parede da sala da sua casa um quadro com alguns dos nós mais usuais.

Na conversa que manteve com os pescadores, deixou-os admirados com o à-vontade com que falava de pesca, dos peixes e de navegação, emocionando-os até quando lhes disse:

“Vocês são os descendentes desse sesimbrenses que correram mundo nas naus e caravelas dos Descobrimentos.

“Foi com pescadores como vocês que os nossos mareantes aperfeiçoaram a arte de navegar, e foi também com eles que, velas desfraldadas, conseguiram um dos maiores feitos das navegações portuguesas: aprender a navegar à bolina, ou seja, navegar contra o vento”.

 * * *

Como todos sabemos, o Prof. Agostinho gostava muito de gatos. E até é bem conhecida uma fotografia sua com um gato ao colo.

Poucos saberão porém que ele se deslocava muitas vezes a Sesimbra, propositadamente, para distribuir comida pelos gatos vadios que existiam perto do seu apartamento na falésia.

Numa dessas vezes convidou-me para conversarmos.

Era um dia de Verão e a praia estava cheia de gente que, à medida que o sol declinava, se ia retirando.

Sentámo-nos na sua varanda, donde se avistava em toda a extensão a praia e a baía, e começou por me dizer: “Veja só! O areal está cheio de gente, que não sei porquê chamam de banhistas, visto que passam horas só a apanhar sol, com o objectivo de se bronzearem, que é hoje uma moda com muitos seguidores.

“Agora que se aproxima aquela hora mágica do entardecer, é que todos se vão embora, quando podiam pelo menos contemplar um daqueles poentes que todos os dias lhes são oferecidos. E que tão belos são, ali para as bandas da serra que leva ao Cabo Espichel.”

“Leonardo Coimbra tem um magnífico texto sobre isso”, acrescentei eu. “É verdade”, respondeu-me, “mas quantos são hoje os que o lêem?”

A conversa prolongou-se noite dentro, com muito gosto e proveito para mim. Os gatos, coitados, é que ficaram prejudicados, pois dessa vez só comeram no dia seguinte.

 * * *

Num período difícil e doloroso da minha vida, motivado pela doença incurável dum filho de vinte anos, tive mais uma vez ocasião de verificar a extraordinária dimensão do homem bom, generoso e amigo que ele era.

Por ter deixado de o visitar com a regularidade habitual, e não tendo conseguido contactar-me telefonicamente, procurou saber junto de amigos comuns o motivo da minha ausência.

Logo que o soube, tratou imediatamente de averiguar junto de alguns dos melhores médicos que então havia, quais as possibilidades de tratamento.

Inclusivamente, telefonava para a América, onde então se encontrava uma sua amiga, a cientista portuguesa Maria de Sousa, com quem se aconselhava sobre o problema.

Para além disso, chamou-me a sua casa e disse-me: “Embora eu o conheça, nestas circunstâncias, por mais fortes que sejamos, nunca o somos o suficiente.

“Quero portanto prepará-lo para enfrentar a situação, tanto mais que é casado e tem um outro filho menor, o que torna tudo mais complicado.”

A partir daí, todos os dias passava por sua casa e, com ele, consegui de facto fortalecer o meu ânimo para melhor suportar a fatalidade que se deu.

Nessa altura, falando-me das contingências e fragilidades da vida, ouvi-lhe aquilo que considero um dos seus mais lúcidos aforismos: “Nós fazemos planos para a vida, mas nunca sabemos que planos a vida tem para nós!”

 * * *

Certo dia telefonou-me de Lisboa, informando-me de que vinha a Sesimbra no dia seguinte e, se estivesse em casa, aproveitaria para me visitar.

Assim aconteceu e, para minha surpresa e satisfação, presenteou-me com uma miniatura de um veleiro, visto saber do meu gosto pelos barcos.

Perante a honra da visita, e da oferta, manifestei-lhe, naturalmente, o meu agradecimento, e disse-lhe que tinha pena de não saber retribuir-lhe tanta gentileza.

De imediato, me retorquiu: “Uma coisa que nunca deve haver é conta corrente entre os amigos”.

Logo dois dias depois dessa visita, chegava nova surpresa para mim. O correio trouxe-me uma carta dele, acompanhada de uma poesia que me dedicara, e passo a ler, sendo a primeira vez que a divulgo.

Vou pelo justo que houver
No que seja atribuir,
Pelo generoso impulso
Da acção de distribuir,
Ou pela fraternidade
Que vem no contribuir,
Mas por amor do gratuito
Que tem de haver no sentir,
Nem gosto de ouvir falar
No verbo retribuir.

 * * *

A última vez que o visitei em Lisboa, já ele não estava bem de saúde.

Toquei à campainha e a porta abriu-se, pensando por isso que teria sido por ele.

Qual não é o meu espanto quando o vejo, sozinho, encostado à parede do patamar do segundo piso. Ele morava no terceiro.

Não respondendo ao meu bom dia, reparei então que estava de olhos fechados e, pouco depois, fez-me sinal para esperar.

Durante alguns momentos, daqueles que em certas circunstâncias nos parecem uma eternidade, entre surpreso e preocupado, esperei que me dissesse alguma coisa.

De repente, abre os olhos, cumprimenta-me e diz-me:

“Sabe, fui aqui surpreendido por uma dor, que me obrigou a parar. Quando você chegou, estava já na fase de conseguir que eu estivesse aqui e a dor ali, lá consegui afastar-me da dor.”

Por alguma coisa que me ensinou, julgo saber o que ele fez.

Como o fez, julgo também saber que isso será apenas do domínio de quem tenha uma preparação especial, melhor dizendo, uma iniciação de grau elevado, a que só podem aceder alguns homens superiores como ele de facto era.

 António Reis Marques

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 * Comunicação apresentada ao colóquio “Uma conversa com Agostinho”, realizado em 23 de Novembro de 2002, no Auditório Municipal Conde de Ferreira, em Sesimbra.

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AGOSTINHO DA SILVA EM SESIMBRA, 1

horósocopo Agostinho

 

 

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O Horóscopo de Agostinho da Silva

No filme que fizeram sobre a vida de Agostinho da Silva, há, logo de início, um momento em que ele aparece a dizer mais ou menos isto:

“Nasci no Porto, mas onde eu queria nascer era em Barca de Alva, pois antes de nascer foi a ela que escolhi. Os deuses que movem os astros quiseram fazer a minha vontade, mas como se trata de relações de grandes movimentos não conseguiram ser exactos e daí o Porto em vez de Barca de Alva.”

O que Agostinho continuaria a dizer, se aquilo não fosse um filme, ou que terá continuado a dizer e que o filme não registou é que, tendo nascido no Porto e, logo, muito pequenino, tenha ido com os pais para Barca de Alva, não fez mais do que lançar-se ao mar, afastando-se do porto numa barca capitaneada pela deusa do nascer do dia.

Para quem lê Platão e, para o que vem ao caso, a República ou como quer o seu melhor tradutor, o Elísio Gala, a Politeia, é-lhe fácil calcular que, ao dizer aquilo de ter escolhido Barca de Alva, Agostinho da Silva tinha presente o mito de Er, mediante o qual Platão ensina que as almas, preexistentes à vida na terra, escolhem, cada uma delas, o que gostariam de ter nesta vida, não só o lugar, mas o que daí se segue até morrer.

Assiste-me então o direito, nesta conversa convosco, de pegar na carta astral de Agostinho da Silva para nela procurar ver aquilo que de essencial ele escolheu para que a sua vida na terra seguisse de acordo com o seu mais fundo desejo que foi, como se verá, o de moldá-la pelo arquétipo da alva.

Da alva ou da navegação? Sem dúvida de ambas, como se significa no nome da terra em que nasceu, iluminado do nome da terra para onde foi viver. O que será confirmado pelo horóscopo.

Vou tentar interpretá-lo seguindo dois caminhos combinados um com o outro: o caminho dos astrólogos que tomarei consultando um bom livro da especialidade e o caminho da razão poética ou da mitologia, porquanto é à mitologia que os astrólogos vão buscar os nomes dos astros e dos signos.

Comece-se, pois, pelo tal livro de Astrologia. O leitor que conviveu com Agostinho da Silva pessoalmente ou através do que ele fez, disse e escreveu ficará de certo impressionado por ver que tudo condiz entre horóscopo e horoscopado. Referirei apenas o essencial:

zodiac planetssignos zodiaco

1. Sol em Aquário:

Aberto às ideias de vanguarda, vê as relações humanas de uma forma despreconceituosa e informal.

2. Mercúrio em Aquário:

Intuição, rapidez e inteligência fulgurante.

Inventivo e aberto às ideias novas.

3. Lua em Balança:

Atracção pela música e pela poesia.

4. Marte em Carneiro:

Enérgico e resistente. Iniciativa, impetuosidade, audácia.

5. Vénus em Aquário:

Comportamento amoroso desprendido. Amor amizade. União livre e independente das convenções sociais.

6. Júpiter na Casa IX:

Grandes viagens; actividade filosófica de grande envergadura.

7. Neptuno (– significação do planeta reforçada por se encontra na casa X, a casa da relação com o mundo político e social):

No plano social, produz o anarquista ou o seu oposto, o comunista.

A renúncia a tudo o que é fácil, lutando pela felicidade do futuro, os contrastes profundos, a oratória, a política, as experiências científicas e sociais audaciosas, o misticismo religioso ou ateu, tudo isso está fortemente impregnado da influência de Neptuno.

Até aqui, pôde o leitor ver, conforme já assinalámos, que o acordo do perfil astrológico de Agostinho da Silva com a sua personalidade e o modo de a viver é bem evidente.

Procurarei, no seguimento, abraçar mais profundas considerações.

Considerar é uma das muitas palavras da língua portuguesa que hoje se usam tão afastadamente da sua etimologia, ou originalidade, que é como se esta estivesse para sempre perdida. Considerar tem íntima relação com sidério e com sideral. Lembre-se de Fernando Pessoa “o Sul sidério” que “esplendia sobre as naus da iniciação.” O próprio Agostinho da Silva deu a um dos seus livros o nome de Considerações, sabendo, bem consciente do étimo, que o Céu e a Terra se combinam para urdir os problemas da humanidade, mas também para os resolver.

Admitido que assim seja, sem contudo pôr de parte o que nos disseram os astrólogos e mais alguma coisa que ainda terão para nos dizer, vamos olhar a carta do céu do nosso filósofo, vendo nela um espelho dos altos lugares onde viajam os deuses e donde contemplam o Uno e reúnem o disperso. Porquanto os astros eram, num certo sentido ou sob o seu cosmológico aspecto, identificados com os deuses por gregos e romanos.

Tracei o horóscopo, que estamos considerando, em Brasília, onde primeiro convivi com Agostinho e entreguei-lho com a respectiva explicação astrológica. A meu pedido tinha-me dado a hora, o dia e o ano do seu nascimento. E em vez do Porto, deu-me como o lugar onde isso terá acontecido a terra da sua identidade espiritual, Barca de Alva. Os meridianos são próximos um do outro; do Porto, onde se formou na Escola de Leonardo Coimbra, saiu para capitanear com outros seus pares o movimento atlântico do pensamento português.

Ele não precisava de ter desenhado num papel a sua carta do céu. Tinha-a em si, por tê-la escolhido, porque a recebeu como a forma da sua alma no momento em que saiu das trevas para a luz. E foi como que contemplando essa forma que fez a sua vida e o seu pensamento. Procurando ver alguma coisa no que para nós só pode ser penumbra pediremos à mitologia o que a astrologia mal conseguiu dar-nos.

O principal dado que recebemos da astrologia e que a mitologia irá aprofundar é o de Mercúrio ser a dominante do horóscopo, pois não só se encontra dignificado por estar em Aquário, e por formar com a Lua e com Neptuno aspectos altamente benéficos, mas sobretudo porque os dois signos considerados como os seus domicílios, o duplo espaço do seu reino, estarem, um que é Gémeos no alto do céu, o outro que é a Virgem no Ascendente, ali onde o Céu toca a Terra e todos os astros emergem do hemisfério inferior para o hemisfério superior.

Mas Mercúrio é um deus. É o deus vadio; vagabundeando, faz todas as ligações, a ligação do Céu com a Terra e com o Inferno, dos homens uns com os outros, unindo-os até no mal pelo que eles têm de santo, como o dinheiro, até no bem, o faz no que eles têm de execrável e que é o seu aspecto negativo ou sombrio, porquanto todos os deuses têm duas faces, aquela que é cada um deles e a que é o seu não-ser. O nada de uma rosa é o vazio que guarda a sua forma, não é igual ao nada de uma açucena.

Em Agostinho da Silva, ele é o detentor do caduceu, aquela vara de ouro, que lhe foi dada por Apolo em troca de uma flauta, da flauta que inventara juntamente com a lira. Recebeu assim do seu irmão, porque são ambos filhos de Júpiter, o poder taumatúrgico que a vara confere a quem é seu senhor. Atirou-as para o meio de duas serpentes que lutavam uma com a outra e logo os dois répteis, atraídos pela sua força magnética, deixaram a sua condição de rastejantes, enroscando-se em volta, harmonizando-se entre si, um de cabeça para baixo e o outro de cabeça para cima; todos os livros em que vem narrado este momento do mito identificam as duas serpentes com o bem e com o mal.

Há um texto de Agostinho em Considerações, ia a escrever contradições, admirável texto em que está bem evidente o perfeito acordo do seu pensamento com o seu ser íntimo, tal como podemos imaginá-lo através do horóscopo. Tem por título Quanto a Deus. Diz o seguinte:

“Limitamos Deus atribuindo todos os males ao Diabo. Uma infinita bondade e uma infinita justiça, despidas de todo o pensamento que a moral condena, fazem suspeitar que se empregou na construção uma escala demasiado humana; mais uma vez nos julgamos os senhores absolutos do mundo; mais uma vez nos quisemos centro do universo e nos vimos tratados com atenção e carinho especiais.

Não ousou o homem pôr a maldade entre os atributos de Deus e pecou primeiramente porque foi estreito; e de novo pecou porque foi tímido. Consolava-o a ideia de uma protecção sempre possível e a mente, que se não levantava ao total, só pôde conhecer a explicação infantil e lógica dos dois demiurgos. Fugimos da aspereza e erguemos um palácio de fadas, esplêndido e seguro, mas enervante e mole; tememos a vida e a vida se vingou.

Restituamos a Deus toda a sua grandeza; reconheçamos o seu poder na violência e no terror; tenhamos por divino o abaixamento destes tempos; emana Caim do espírito supremo – como Abel; não tiremos adeus o que temos como ideal superior: a vontade de progresso; não lhe demos em troca da variedade que roubamos a monotonia a que aspira a alma baixa.

E em face de um Deus pleno e terrível sejamos heróicos; cresçam as forças com que lutamos, seja mais larga a compreensão, mais perfeito o amor; enfrentemos o mal cara a cara, e adoremos o Senhor no inimigo que nos derruba e pisa. Sejamos bravos e tolerantes. Não vacilemos na derrota, nem um instante voltemos as costas ao perigo; mas não abusemos da vitória. É este o dom que nos oferece um Deus liberto de cadeias terrestres.”

Todo o Agostinho está neste texto.

São palavras tremendas e de imensa bondade. Só por serem tremendas a bondade é imensa; só por ser imensa a bondade são tremendas.

Nelas se exprime o valor dos corajosos como o concede Marte aos seus em Carneiro. Assim, a ideia de um Deus, Senhor da vida e da morte, do belo e do, ao memso tempo, terrível, paira sobre nós. As nuvens no horizonte são de trovoada, mas por entre elas brilha azul o céu.

Pede-se ao leitor destas linhas que não deixa de ter presente o mapa do céu do Agostinho da Silva, daquele céu que lucilava de estrelas sobre Barca d’Alva há uma centena de anos. Verá então, guiado pelo anjo da mitologia, que não só figuram nele Mercúrio, o caduceu e a dupla serpente, mas também o glorioso Apolo, seu irmão, senhor da lira, que de Mercúrio obteve por troca; Afrodite vai de companhia com eles, todos olhando longe no azul diáfano, a suave e benigna Artemisa, senhora da noite e, lá alto bem alto e dominador, brilha Zeus-Júpiter, Rei e Sacerdote do dia e da noite.

Mas há ainda Neptuno, o das longas viagens pelo mar, o que leva ao Brasil e a todas as partes do mundo. Vem armado do tridente que é anarquismo, mas também misticismo e sociabilidade, que traz consigo a inquietação das águas salgadas da vida, a inevitável inquietação que toca a todos, mas que só alguns compreendem; a todos que não estão contentes com o mundo a desviar-se da rota pelo mar do infinito e é por ele que o alto espírito contemplativo de Agostinho da Silva se torna activo pela palavra política, a humilde, audaz e inteligente serva da cidade dos homens para que um dia nela mandem os pobres e os iluminados.

António Telmo

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TEORIA DO ENCOBERTO, 4

                                                                                                             (voltarRetrato%20Dom%20Sebastiao à página principal)     

O Mito do Encoberto*

O mito do Encoberto em Portugal conta-se em poucas palavras. Durante a batalha derradeira, em Alcácer-Quibir, D. Sebastião morre sem deixar cadáver atrás de si e, em novo corpo, mora agora numa ilha bem-aventurada donde regressará numa manhã de nevoeiro para ressuscitar o seu povo que é o seu exército, o que foi derrotado e o que somos nós todos sempre que confiamos na estrela sobrenatural da filosofia.

O mito tem quatro momentos: a batalha, a ressurreição do Rei que é para nós o seu desaparecimento, a ilha que foi habitar e o seu regresso numa manhã de nevoeiro. Meditemos cada um destes momentos sem os degradarmos ao nível da história. Cumpriremos assim um dos principais preceitos aristotélicos da Poética. Fazendo-o, ergueremos a história, quando for caso disso, à altura da poesia.

 A BATALHA

O nome de Sebastião é, como todos os nomes aziagos, isto é, como todos os nomes com sestro, portador de glória conseguida com desgraça. Quem o baptizou ou ignorava certamente o preceito antigo de que o nome de Sebastião não deve ser dado aos reis, talvez porque signifique o que só pode ser dito de Deus. Deriva de sébas, palavra grega que envolve as ideias de veneração e de terror religioso.

A preparação da batalha foi longa e meticulosa. Ninguém deve defrontar a morte e a imortalidade que vem no seu seio sem uma longa preparação que, tanto para o guerreiro como para o filósofo, que é uma outra espécie de guerreiro, se faz harmonizando a teoria com a prática no próximo e no distante. Depois, “tudo o mais é com Deus”. No fragor da batalha, foi a voz de um anjo que se ouviu mandando parar, quando, senão se parasse, ela estaria ganha. Não importa que o anjo tenha gritado pela boca de um espanhol ou de um traidor. D. Sebastião, ao ver tudo perdido, ao ver o exército deter-se e recuar, continuou a avançar em espírito. Mas já o seu corpo estava repassado de espanto e encobriu-se na nuvem.

A ILHA

Como disse aqui ontem o Orlando Vitorino, os Descobrimentos não tiveram por fim a conquista das rotas comerciais, a não ser que nelas vejamos etimologicamente as rodas de Mercúrio, daquele Mercúrio que é, segundo Camões, o Espírito Santo revelando-se a Vasco da Gama. O fim dos Descobrimentos foi, na verdade, o inesperado encontro com a Ilha dos Amores.

É essa mesma Ilha aquela onde reside o Rei.

Numa das notas escritas por Fernando Pessoa sobre o sebastianismo, o poeta impõe a si próprio o seguinte: “É preciso ver o que significa a Ilha”. Aprendemos da Escola: “Ilha é uma porção de terra cercada de água por todos os lados”. Na terminologia dos filósofos uma ilha é um absoluto, o ab-soluto ou então, recordando Leibnitz e Leonardo Coimbra que o segue, uma mónada representativa do Universo. Um ponto de vista que tem, em relação aos pontos de vista a partir dos quais abrangemos um panorama, esta importantíssima diferença: a de o objecto da visão ser produzido pelo próprio ponto que o apreende. Uma estrela é uma ilha cercada de todos os lados pelo infinito, mas é a sua luz que cria a visibilidade.

A mónada é propriamente o indivisível, isto é, o indivíduo, quando o compreendemos pela imagem da ilha, não este ser inquieto e dividido, não este egoísmo que somos, este pedaço onde se quebra o tempo. Eis o sentido em que a mónada é a mónada sem lugar nem tempo. Cada um de nós a é na sua altitude profunda e por isso Fernando Pessoa pôde pensar que D. Sebastião regressou à terra dos «egoísmos» em 1888, data do nascimento do poeta.

O mundo encoberto, presente por toda a parte como uma ilha que pode surgir inesperadamente em qualquer ponto do percurso da nossa navegação, não é o mundo vazio de vida dos nossos pobres conceitos. Swedenborg viu-o como uma terra em que os vivos, que são os nossos mortos ou de que nós somos a imagem morta, nascem, casam-se, viajam, amam e até têm os seus Cafés onde se encontram formando tertúlias de pensamento. “Os Anjos também investigam”, escreveu Leibnitz.

Cada um de nós ao morrer encontra do lado de dentro aquilo que se foi formando no seu subconsciente por dejecto, no seu supraconsciente por assunção. Levamos connosco o nosso Inferno e o nosso Paraíso. Só os heróis têm a revelação da Ilha com os seus três outeiros, as suas aves, as suas flores e as suas águas onde o Amor abre o acesso ao Paraíso, onde a mónada se conhece enquanto mónada na forma de “um globo diáfano e profundo”.

O ENCOBERTO

O contrário de encobrir é descobrir, mas é no descobrimento que nasce o encoberto, os Descobrimentos precedem e preparam a ocultação do Rei.

Encoberto sugere esotérico. Hoje, é corrente falar-se de «esoterismo» como sinónimo de «ocultismo», depois que Éliphas Levi escreveu pela primeira vez esta palavra. Por este caminho, até a confusão de esoterismo com satanismo é possível dentro da conhecida homologação de ciências ocultas com ciências malditas. A verdade, porém, é que o «ocultismo», na sua acepção vulgar, nem sequer chega aos calcanhares do «exoterismo».

Esotérico é um relativo. Relativo a exotérico, segundo a quarta categoria indicada por Aristóteles. Não é um substantivo (primeira categoria), mas um comparativo, o que sabe muito bem quem conhece um mínimo de grego. Teros é desinência do comparativo.

Esotérico significa, por conseguinte, “mais dentro” e não digo “mais interior” porque a terminação -ior é desinência do comparativo latino. Interior significa propriamente “mais dentro” e essa palavra sim é que é sinónima de esotérico. Exotérico ´e o mesmo que “mais fora”. Como é que foi possível opor exotérico a esotérico, quando, pelo contrário, um não pode existir sem o outro?

O que fica dito não constitui apenas uma distinção linguística. Repare-se só no seguinte para avaliar a importância da distinção: quem combate o esoterismo cristão por isso mesmo combate o cristianismo ali como ele nos aparece, por exemplo na Religião Católica, como um sistema exotérico.

Se admitirmos com Álvaro Ribeiro que não há filosofia sem teologia, ficamos a saber que o «meio» ou, como dizia Hegel, o «éter» da filosofia está na relação do esotérico com o exotérico.

A filosofia é a vida do pensamento como fenómeno da luz. A inteligência é o meio onde a luz se torna consciente de si e é a esse movimento que José Marinho chama “a descoberta da subjectividade”. A inteligência é, porém, um fenómeno universal que toma progressivamente consciência de si do exotérico para o esotérico e daí que a descoberta da subjectividade venha a ser o caminho, sempre percorrido jamais percorrido, para a perfeita objectividade que só é a forma como Deus pensa o mundo que criou. Objectividade é, neste caso e só neste caso, sinónimo de verdade.

A nuvem encobre o sol como o exoterismo o esoterismo. Se a nuvem passasse, teríamos de desviar a vista para não ficarmos cegos.

Por isso o Rei regressará numa manhã de nevoeiro.

O REGRESSO  

Fernando Pessoa e Sampaio Bruno interpretaram o nevoeiro da manhã do regresso como o estado de extrema degradação mental que se foi progressivamente adensando, no país, a partir da derrota de Alcácer-Quibir, estado que precede e anuncia a vinda do Rei, em Bruno do “novo Cristo cujos milagres são argumentos”. Há, porém outra interpretação que não subordina o mito à história. É a de conceber o nevoeiro, já repassado de sol, como um caos cintilante, a forma que a alma expectante assume no momento em que imagina o surgir do sol levante.

Na definição que abre a Ética, Espinoza escreveu: “Por causa de si entendo aquilo cuja essência envolve a sua existência”. O que nos interessa nesta definição nuclear de toda a filosofia do filósofo português desterrado na Holanda não é a relação que ela possa ter com a prova ontológica da existência de Deus. O que nesta definição nos fascina é o facto de o definido, isto é, a substância que é causa de si mesma dever ser concebida em analogia com a luz. A luz é, com efeito, aquilo cuja essência é o aparecer. O que é próprio da essência do oculto é o aparecer. Não é o que se esconde, mas o que nos escondem e de que a primeira notícia em nós é a formação do “caos cintilante “.

Aqueles que, sempre que ouvem proferir a palavra oculto ou a palavra esotérico, sentem acordar em si ecos de um reino tenebroso deveriam libertar-se da própria treva que os não deixa ver. Veriam talvez então que o encoberto é o lugar da luz esplendorosa de que a luz sensível é véu sobre véu. Numa perfeita diafaneidade do nosso ser íntimo, o regresso pode ser vivido hic et nunc. Mas aí também o longe de nós se revelará. A demanda do Encoberto é sem fim.

Eis o que me ocorreu dizer em tão boa companhia como a vossa. Falei de pé, porque é de pé que se deve evocar o Rei. Sentado, só num cavalo branco e em Alcácer-Quibir.

António Telmo

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 * Colóquio sobre “As Linhas Míticas da Filosofia Portuguesa” realizado no Ateneu Comercial do Porto.

 

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ENCONTROS COM GENTE NOTÁVEL, 4

pinharanda(voltar à página principal)

Pinharanda Gomes, o Filósofo Autodidacta*

 «Há, para além do natural e do social, do herdado e do partilhado, um jardim secreto onde ninguém entra, a não ser o próprio homem. Mesmo em Igreja, cada homem tem um modo de dialogar com o seu Deus, onde a igreja não entra: o fiel tem a sua vida de comunidade eclesial, onde a igreja entra e ensina; mas há, no íntimo do homem, um local onde só ele e Deus sabem o que importa. É a vida pessoal inalienável. É o miolo do sobrenatural»
Pinharanda Gomes

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O Filósofo Autodidacta do andaluz Abuchafar Abentofail é a história de Hay Benyocdan, o misterioso mestre de Avicena, contada aqui como a de um homem abandonado, após ter nascido, numa ilha deserta de outros homens, cujo espírito atingiu os mais altos conhecimentos especulativos, tendo por primeira e única mestra a gazela que o amamentou. No plano do conhecimento instrumental, o seu itinerário foi em tudo semelhante ao que arqueólogos e historiadores imaginaram para a humanidade: progressiva entrada na civilização por sucessivos aperfeiçoamentos da adaptação ao meio, passando pelas fases que o raciocínio deduz para que a investigação no terreno as confirme. Há só uma diferença: a criança era de ascendência régia, se não divina, inconfundível com o antropóide imaginado pela arqueologia por evolução da matéria.

Teixeira Rego era um autodidacta como autodidacta é Pinharanda Gomes, que o biografou. Causou escândalo nos meios universitários coimbrões ter sido posto por Leonardo Coimbra na Faculdade de Letras da Universidade do Porto a ensinar algumas disciplinas fundamentais. Do ponto de vista universitário, um autodidacta é um analfabeto. Pinharanda Gomes nunca foi chamado a ensinar na Universidade, nem até na Universidade Católica, apesar da sua perfeita ortodoxia e da sua obra monumental. Também é certo que, na Universidade actual, não há nenhum Leonardo Coimbra.

O homem primitivo foi também imaginado por Teixeira Rego como um autodidacta. Aprendeu tudo por si próprio, até o falar, reagindo ao meio e reflectindo. Tivemos que esperar muitos milénios até que viesse a fundar a Universidade e a tornar-se um inimigo dos autodidactas, isto é, de si próprio. Todavia, pelo caminho que assim tomou, parece que se impediu, como veremos, de atingir conhecimentos tão altos como os de Hay Benyocdan.

Não se vê, pela leitura do livro de Pinharanda Gomes sobre Teixeira Rego, se o biógrafo aceita ou não a doutrina do biografado sobre as origens da humanidade. Deve, porém, tê-lo seduzido pelo que nela se envolve da doutrina de Moisés no Génesis. Teixeira Rego situa o antropóide, que descreve coberto de pêlos, feliz entre os outros animais e fruindo dos frutos, no centro do Paraíso. A descrição do homem primitivo não condiz, como se vê, com a de um homem feito à imagem e semelhança de Deus. Uma trapalhada, em que se enreda o seu pensamento e o do seu biógrafo.

Pior do que isto é quando vem dizer-nos que o antropóide perdeu o estado paradisíaco em que vivia por ter cometido um crime horrível, o de ter morto um animal e comido a sua carne. A palavra que, no Génesis, as traduções dizem designar a maçã significa de facto carne. Em consequência deste acto, caem-lhe os pêlos, transforma-se num homem mais à nossa imagem e semelhança e, de frugívoro que era, passa a carnívoro.

O desejo de se querer conciliar o ensino bíblico com o ensino científico, neste caso com o evolucionismo materialista, leva forçosamente a estes disparates. Pinharanda Gomes, enquanto expunha a doutrina de Teixeira Rego, deve ter pensado em Teillard de Chardin, pois não reagiu opondo-lhe qualquer objecção:

«O aparecimento da Nova Teoria do Sacrifício provocou surpresa e originais comentários. Basílio Teles, em seu rigorismo ascético, mostrava dificuldade em entender o emaranhado da floresta de enganos em que o amigo se metera. Bruno, afoito mas precavido, numa fase de ascensão para a ideia de Deus em sua transcendente pureza, evitou dar parecer, por andar molestado. Teófilo Braga, em seu positivismo, adianta que Teixeira Rego deveria ter descrito as três fases nutritivas da Religião: o mito do Éden, ou religião ctoniana; o mito da Serpente, ou o rio gelado; e o mito do Fruto Perdido (sic), ou da bebida fermentada. Não tinha que fazer isso, o autor do livro, para quem a Religião só surgiu após o Pecado Original, sendo, por isso, uma das provas da queda. Segundo a lógica, Rego estava mais certo do que Teófilo: só há Religião por ser necessário re-ligar algo que se cindiu. Só há Renascença por importar nascer de novo.”

Será isso. Só há religião por ser necessário re-ligar algo que se cindiu. Mas, no passar do antropóide ao selvagem e do selvagem ao homem, cindiu-se alguma coisa do divino? A Religião é uma Renascença, um nascer de novo em quê? No antropóide?

Terá reparado Pinharanda Gomes num dos textos de Teixeira Rego que escolheu para figurar no fim do livro, onde ele chama a atenção para “a serpente e esse alimento proibido que foi a causa da civilização e da ciência, esse alimento que foi a origem de todo o mal mas que foi também a origem de todo o bem”? E, se reparou, terá recordado ao mesmo tempo as palavras de Jesus Cristo no Evangelho aos discípulos, “sois Deuses”, que repetem as palavras da serpente no Paraíso?

Não podemos saber se reparou, porque os autodidactas, crescendo e aprendendo sozinhos na sua ilha, têm segredos. É pena, porém, que não tenha explicado melhor o silêncio de Sampaio Bruno sobre o livro do “discípulo amado”. “A ideia de Deus em sua transcendente pureza” era assim tão oposta ao mistério redentor da Encarnação que levasse o filósofo a preferir calar-se, “por andar molestado”, a ter de dizer “não” a uma doutrina que punha no comer carne a origem de todo o mal e de todo o bem?

Teixeira Rego exerce sobre Pinharanda Gomes um fascínio irresistível. Sente-se irmanado com ele no seu autodidactismo. Protesta. Diz que Teixeira Rego não foi um autodidacta. Teve como mestres Basílio Teles e Sampaio Bruno, assim como ele, Pinharanda Gomes, teve Álvaro Ribeiro e José Marinho… e a Igreja, onde floresceu o seu espírito à semelhança do de Hay Benyocdan naquela ilha paradisíaca donde não precisou de sair para conhecer todo o Universo e, através dele, Deus.

Protesta e tem razão para protestar. No domínio da cultura exterior ao mistério, não há autodidactas. Isso é o que nos querem fazer acreditar instituições que, por fortes e legítimas razões do Estado, têm o monopólio do ensino, no direito que têm de só elas poderem conferir diplomas.

Se tivéssemos de considerar autodidactas Teixeira Rego e, com ele, nobilíssimos espíritos como Eudoro de Sousa e Amorim de Carvalho e tantos mais, porque não passaram da instrução primária ou de alguns anos do Liceu, não obstante terem escrito magníficos livros, então teríamos de aplicar igual critério a todos os escritores. Não se ensina nas Faculdades de Letras para fazer poetas, dramaturgos, filósofos, mas professores e bibliotecários. Ninguém é preso por se apresentar como escritor, mas pode sê-lo se exercer a medicina ou o magistério sem diploma. Ou sê-lo-á um dia?

Houve, porém, uma excepção: a Faculdade de Letras de Leonardo Coimbra. Ali se fizeram escritores filósofos; ali se ensinava, não para que o aluno obtivesse licença para ganhar dinheiro, mas para que pudesse vir a compreender o grande mistério do homem, do mundo e de Deus. Por isso mesmo a calaram. Agostinho da Silva, Sant’Anna Dionísio, Casais Monteiro, Eugénio Aresta, José Marinho, Álvaro Ribeiro ali nasceram de novo. E não foi Pinharanda Gomes discípulo dos dois últimos e, portanto, não se formou, através deles, na gloriosa Escola de Leonardo Coimbra?

Pinharanda Gomes protesta, mas sabe que isso não é o essencial. Ele sabe que o essencial é ser um perfeito autodidacta, isto é, um homem capaz de pensar por si próprio, mesmo quando ensinado por outros, mesmo quando esses outros são Álvaro Ribeiro, José Marinho ou Orlando Vitorino. Como Hay Benyocdan, aquilo que sempre fez e faz é procurar o segredo de salvar a sua própria existência e a dos outros pelo que aprende na sua ilha, orando e interrogando, na sua ilha que, para ele, tem sido a Igreja, cercada pelo mar revolto da humanidade inquieta, onde se viu estar após ter nascido. No andaluz, a ilha é a cifra de um centro iniciático, não de uma organização religiosa, mas de algo que lhe anda intimamente ligado.

E é pelo que nela vê e aprende que se pôs a estudar Teixeira Rego e outros muitos. Tudo ali está porque não conhece mais nada nem precisa de conhecer. A filosofia portuguesa que tanto ama aparece-lhe como uma árvore gigantesca no centro da ilha, mas desgarrada. Avistam-se barcos à deriva, feitos da madeira que os ventos da heresia lhe arrancaram. Sulcam o grande mar da humanidade portuguesa, uns mais próximos, outros mais distantes. Teixeira Rego é um desses barcos. Buscam, em vão, outros portos onde possam atracar. O mais belo de todos, o de Leonardo Coimbra, andou sempre próximo, temendo rochedos e feras para atracar. Um dia, o timoneiro teve a coragem de desembarcar e descobriu que onde havia feras e rochedos estava o Paraíso.

É assim que Teixeira Rego lhe aparece como um católico que se ignora e por isso se diz agnóstico, como alguém que vive fascinado pelo Mistério da Encarnação, de Deus envolvido connosco, e que procura entendê-lo pelo espiritismo, pelo ocultismo, pela teosofia, por tudo quanto lhe proporcione explicar a misteriosa relação do espírito com a matéria. Pinharanda não gosta dos maniqueus, que põem uma espada flamejante entre os dois, deixando a pobre matéria abandonada, sem socorro, consumindo-se no seu exílio de Deus. Não é exílio uma palavra que significa fora da ilha? E não sabemos já o que é a ilha para o nosso filósofo autodidacta?

O regresso de Leonardo Coimbra à Igreja foi tardio. Álvaro Ribeiro, que o conhecia bem, comparou um dia o itinerário espiritual do mestre ao de Huysmans que passou pelo ocultismo, pela teosofia, pela cabala antes de se converter. Mas não foi só Leonardo a cultivar as ciências proibidas. Já o vimos para Teixeira Rego. Pascoaes terá percorrido caminhos análogos. O que é espantoso observar é que, entre os homens da Renascença, os dois que mais parecem ligados ao ocultismo, Sampaio Bruno e Fernando Pessoa, são os únicos que o refutaram.

Sampaio Bruno, para quem a existência e a intervenção dos anjos são factos positivos, não gosta do espiritismo que denuncia como uma prática grosseira geradora de sombrias miragens, troça de Papus, repele o lema idealista da analogia do microcosmos com o macrocosmos, considera ilegítima e ímpia a sistematização matemático-cabalista de Wronski; Fernando Pessoa, que só admira Sampaio Bruno entre os seus contemporâneos, segue-o no trilho, atacando espiritistas, ocultistas e maçons menores.

Os dois, e também Teixeira de Pascoaes, sabiam que é no mundo intermediário que tudo se decide, mas que a maioria das suas manifestações não ajudam o homem. Sabiam, sobretudo, que não está lá quem decide. Por não saber isto ou não querer sabê-lo, Teixeira Rego mete-se “no emaranhado de uma floresta de enganos”, entrelaçando ciência da época e ocultismo. O materialismo, fortalecido pela ciência, e a ciência, fortalecida pelo positivismo, dominavam os espíritos. Para homens religiosos, sem Igreja por se terem decepcionado com os modos de intervenção social do clero, o ocultismo aparecia a abrir caminhos para o sobrenatural. Fenómenos parapsicológicos pareciam provar que havia outro mundo intimamente ligado a este. Só muito tarde Leonardo Coimbra descobriu que esse outro mundo não era o que procurava. Como se vê pela Razão Experimental, pratica a observação, a experimentação e a correlação dos fenómenos espiritistas, aplica aos seu estudo o método científico, que se lhe impunha pelo superior grau de certeza conseguido no estudo dos fenómenos físicos. Viria a combater a ciência, já para o tarde, com A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre, não porque a dialéctica científica lhe aparecesse agora errada, mas por cousar na antropolatria.

A posição de Sampaio Bruno perante a ciência é bem diferente. Vê nela uma disciplina teológica, mas não a aceita tal como é dada. A noção de inércia, que funda todo o mecanicismo e que Leonardo Coimbra integra na sua cosmologia para afirmar a proximidade de Deus, refuta-a demoradamente, assim como o correlativo cálculo de probabilidades e a noção de zero, sobre que assenta toda a matemática moderna, não pitagórica. Não há inércia; há energia. Não há probabilidade, há angelogia. Não há o nada, há o pleno. O movimento é a espontânea reacção nascida de sucessivas rupturas: pela primeira produziu-se o mundo intermediário; pela segunda, o mundo físico. Tudo, porém, converge para “a transcendente pureza de Deus”.

Mas Pinharanda Gomes prefere a todos Leonardo Coimbra e já sabemos porquê. Ele não ama os desinsulados e tem bons motivos para isso.

Há cinco razões, segundo Abd El-Kader, que impedem o espírito, comparado a um espelho, de receber a verdade. Descreve assim a quarta: “existência de um véu interposto entre o espírito e a verdade, véu que pode interpretar-se como uma crença recebida anteriormente, muitas vezes na infância, por via de imitação, e recebida com uma aceitação favorável; um tal obstáculo mete-se entre o espírito e a verdade, impedindo-o de a receber, repelindo o que seja diferente do que aprendeu por imitação.”

Abd El-Kader era perfeitamente ortodoxo dentro do islamismo. É o aviso de um homem sério. Será, talvez, assim. Mas há mais quatro razões e a terceira delas é a que se define pela “orientação do espírito numa direcção que não é a que leva à verdade desejada”.

Voltamos de novo a pôr o problema do autodidacta. É ele por si só capaz de encontrar a verdadeira direcção? Abd El-Kader dá uma quinta e última razão que é o desenvolvimento da terceira: “a quinta razão, diz ele, é a ignorância da direcção que se deve seguir para obter o que se procura (com efeito, quem procura alguma coisa não pode encontrá-la se não tiver na memória as regras das ciências que conduzem ao objecto desejado, por tal modo que a representação e a ordenação destas regras no seu espírito lhe permitam, segundo um processo secreto bem conhecido dos sábios, encontrar a direcção que leva à verdade)”.

Porque será que, neste escrito, já nos apareceram dois muçulmanos a ensinar portugueses? Não escreveu Pinharanda Gomes dois monumentais volumes a pôr na ordem muçulmanos e judeus? Os primeiros, desde que o Corão os criou, já estão meio convertidos ao cristianismo; os segundos é de tradição que, no dia em que reconheçam Cristo como o Messias, será a redenção de toda a humanidade. Entretanto, vamos conversando uns com os outros a ver se nos entendemos.

Um dia, Hay Benyocdan encontrou onde vivia outro solitário, que tinha fugido de uma ilha próxima, povoada pela humanidade do Corão. Aquele tinha atingido a perfeita visão de Deus, mas não aprendera a língua dos homens. Era como um anjo que só por gestos e símbolos comunica a sua divina ciência. Asal, o novo habitante da ilha, ensinou-o a falar com palavras e, depois, ouviu-o. Espantado com a sua sabedoria, instou com ele para que viesse até à outra ilha ensinar e acordar os seus habitantes adormecidos pela religião e pelos prazeres do mundo. Foi e só encontrou hostilidade. Uns ficaram ainda mais arreigados aos seus hábitos; alguns, mais abertos ao que ouviam, tornavam-se piores porque a sabedoria do autodidacta era veneno que os tresloucava. Os dois filósofos regressaram à ilha, persuadidos por experiência de que a prática exterior da religião era o único caminho que convinha àquela gente. Teixeira Rego, com um gesto displicente, obteve mais tarde e quando quis um diploma que lhe permitia ensinar em qualquer Universidade. Foi-lhe tão fácil obtê-lo como a Hay Benyocdan aprender a falar. Infelizmente, a generalidade dos homens só aceita quem fala a sua própria linguagem.

Pinharanda Gomes nunca quis frequentar a Universidade. Ou o querem como filósofo autodidacta ou, se não o querem, que passem muito bem.

António Telmo

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* Publicado originalmente em O Pensamento e a Obra de Pinharanda Gomes, VV. AA., Lisboa, Fundação Lusíada, 2004; e republicado em Viagem a Granada, Lisboa, Fundação Lusíada, 2005.

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TEORIA DO ENCOBERTO, 3

brunoisaacluria(voltar à página principal)

Sampaio Bruno e Isaac Lúria

O Brasil Mental foi, pela primeira vez, editado em 1898, cinco anos depois das Notas do Exílio e quatro anos antes de A Ideia de Deus. O tempo que decorreu entre o primeiro e o terceiro destes livros formou o período de gestação do pensamento filosófico de Sampaio Bruno, como se não fosse o acaso a marcá-lo com o número nove. Os livros que o antecedem – Análise da Crença Cristã e A Geração Nova – estão ainda presos ao materialismo ateu que, sob a pressão das ideias correntes da época, marcou o rumo da ideação do filósofo até aos trinta e cinco anos, antes de se converter ao evolucionismo espiritualista de inspiração gnóstica e cabalista, cuja formulação mental viria a atingir a perfeição com o livro sublime.

Significa isto que O Brasil Mental, sendo como é a fase de um processo deve ser lido relativamente às Notas do Exílio e à A Ideia de Deus, sem o que a filosofia da história nele exposta corre o risco de ser compreendida como exclusivamente materialista. Com efeito, as doutrinas que ali aparecem a constituir a base dessa filosofia são, predominantemente, o positivismo de Augusto Comte, o evolucionismo de Herbert Spencer e o economismo de Carlos Marx. Sampaio Bruno não refuta o positivismo, corrige a lei dos três estados aceitando a classificação das ciências; não refuta nem aplaude o marxismo, apresenta-o simplesmente, não deixando porém, de o utilizar e de o aplicar no modo, exclusivamente economista, como interpreta a história de Portugal. Tal é o valor que atribui à vária, mas convergente, doutrinação progressista que, reagindo contra Proudhon, escreve: «Que nos quer ele, a nós, que partimos de Diderot e que, por Auguste Comte, o maior colosso mental do século, chegamos à sistematização evolucionista de Spencer, ao socialismo científico de Marx, às intuições sociológicas do americano Giddings!»

A filosofia da história de Sampaio Bruno não é, porém, nem positivista nem marxista. De Comte e de Marx, como de Spencer, o que destaca e retém é a possibilidade de entrar em linha de conta com o tempo, não já servo do espaço, pela estabilidade dos ciclos que voltam sempre ao ponto de partida nesse mesmo espaço, prendendo a humanidade e o mundo à fatalidade do mal. Daí a sua refutação do monismo, pelo qual a mesma substância permanece inalterável na variedade dos modos. Nem monismo nem dualismo. Mas, sem A Ideia de Deus, o evolucionismo pensado por Sampaio Bruno mal se distingue dos outros evolucionismos, tais como vêm expostos n’O Brasil Mental. Por outro lado, A Ideia de Deus sem a experiência do exílio envolver-se-á de irredutível obscuridade.

Foi, pois, de 1893 a 1902 que surgiu e se formou o pensamento filosófico de Sampaio Bruno. O momento decisivo foi o do exílio. Ali deflagrou a chispa de luz. Uma nova, antes inexistente, emoção alterou, transfigurando, o materialismo ateu da Análise da Crença Cristã no materialismo espiritualista de A Ideia de Deus. A «Carta Íntima» é o documento que torna completamente verosímil a tese de Álvaro Ribeiro dando a iniciação ou iluminação de Sampaio Bruno como tendo acontecido em Paris, par aonde foi desterrado em consequência da sua participação no movimento revolucionário de 31 de Janeiro de 1891. É a «Carta Íntima», que antecede A Ideia de Deus, um texto autobiográfico. Aqui nos fala Bruno da crise interior que o assaltou longe da Pátria, em analogia com a experiência de Dante: «Quase sempre, essa crise interior nos assalta a meio da caminhada da existência.» Bruno tinha como Dante trinta e cinco anos quando iniciou a viagem. «Tu recordas o florentino terrível:

Nel mezzo del cammin di nostra vita
Mi ritrovai per una selva oscura,
Chè la diritta via era smarrita.»

E depois, no seu jeito de trazer para casa o estranho e o distante: «Um português, o Sr. Domingos Enes, traduziu, parafrasticamente:

Em meio do caminho desta vida,
Achei-me, um dia, numa selva escura,
Muito longe da senda, já perdida.»

Como o vate, que desceu ao Inferno, a alma ansiada remonta a rever as estrelas:

«Lo Duca ed io per quel cammino ascoso
Entrammo a ritornar nel chiaro mondo:
E senza cura aver d’alcun riposo.
 
Salimmo su, el primo ed io secondo,
Tanto ch’io vidi delle cose belle
Che porta il Ciel, per un pertugio tondo:
 
 
E quindi uscimmo a riveder le stelle.

Ou seja, na versão do Sr. Domingos Enes:

Pelo árduo trilho, junto ao curso manso,
Nós buscamos depois ter a ventura
De entrar no claro mundo. E, sem descanso,
‘Pós do Mestre subi a senda escura;
Do Céu as maravilhas pude vê-las
Afinal, através de uma abertura.
E, saindo, revimos as estrelas.»
 

A ideia que, neste ponto, se nos impõe, da perspectiva derivada da leitura de O Brasil Mental, que motiva esta introdução, é que a filosofia da história, tal como a pensou Sampaio Bruno, neste livro e depois n’O Encoberto se faz pelo modelo do seu próprio itinerário espiritual. É verdade que a história de Portugal é nele interpretada de um ponto de vista exclusivamente economista. O quadro que pinta dos sucessivos momentos de uma miséria iludida por uma vida, aparentemente faustosa, sustentando-se de empréstimos, de roubos e de pirataria, tem por fim levar os espíritos à consciência do povo que são, acentuar o sentimento de uma crise interior colectiva donde possa saltar a chispa de luz que nos incendeie para uma nova vida. Mas esse incêndio ou essa iluminação já se deu: sua suprema expressão é a Pátria de Guerra Junqueiro. Dedica-lhe cerca de trinta páginas do primeiro capítulo de O Brasil Mental. Falar da Pátria diz ele que é «revoar para as zonas transcendentes». Para o acordar dos espíritos, só o movimento de 31 de Janeiro de 1891 se lhe compara:

«Todavia, concatenando, sempre conseguiremos explanar, de golpe, o alcance, histórico e social, do poema de Guerra Junqueiro. Ele fica determinado quando se apure, através das paixões do momento, que este livro afirmou (mercê das características intrínsecas, corroboradas pelo efeito exterior, correspondente, do seu êxito de venda) um momento culminante. Este foi o acume do progressivo – ainda que moroso – processo de desagregação da alma colectiva, desprendendo-se dos sentimentos tradicionais e abandonando, enfim, as suas velhas crenças, na troca de outras novas, mais retributivas e salutares.

A acção da obra sobre a consciência pública mostrou-se, assim, das mais vastas e profundas; o seu influxo ético, a sua permanência orientadora distinguir-se-á, a todo o tempo, como um dos fenómenos críticos mais notáveis da nossa cultura hodierna.

Senão, mesmo, o mais notável, pois que, na ordem espiritual, como generalidade e compreensividade de acção, nada existe que lhe seja assemelhável. Com efeito, só no domínio dos factos concretos qualquer coisa se lhe possa aditar, no mesmo sentido de convergência e com análoga flagrância de resultados sucessivos. É o movimento de 31 de Janeiro de 1891.»

Sampaio Bruno e Guerra Junqueiro representam, de facto, o binómio que, por irradiação, virá formar, no século XX, o hexagrama central do pensamento português, no diálogo sucessivamente renovado com a poesia. Leonardo Coimbra e Teixeira de Pascoaes, José Marinho e Fernando Pessoa, Álvaro Ribeiro e José Régio não teriam podido ser o que foram sem o fulgor nascido do encontro daqueles dois. Os restantes escritores de razão ou de imaginação que, hoje como ontem, têm tido algum valor no domínio do espírito volitam todos à volta daquela estrela que ergueu o pensamento português às zonas transcendentes. É no binómio Sampaio Bruno – Guerra Junqueiro que está a força propulsora, pela fascinação da Ideia, do criacionismo, do saudosismo e do futurismo que marcaram a doutrinação dos que se lhe seguiram, por vários modos trazendo ao domínio do pensamento a religião da Pátria.

O renascimento que se deu na literatura filosófica não foi acompanhado, como o sonharam os dois, pelo renascimento no domínio político. Neste, apesar da República, a desagregação da alma colectiva prosseguiu. Bruno, meses depois da queda da Monarquia, retirou-se da cena política. Tão certo é, como escreveu Hegel, que a ave de Minerva só voa ao anoitecer.

Foi, então, o movimento da Renascença Portuguesa um fogo-fátuo à superfície do corpo político? A noite que vem depois do anoitecer não é o domínio da ave de Minerva? E o que será a antemanhã dessa noite? Muitas respostas para estas perguntas encontrou, de certo modo, o leitor que leu o Plano de Um Livro a Fazer que Joaquim Domingues superiormente organizou, prefaciou e anotou em recente edição da Imprensa Nacional. Ali se verá, se não se viu, que é durante a noite que floresce a árvore da sabedoria à volta da qual se juntam os Cavaleiros do Amor. Essa árvore tem, porém, um nome: Kabbalah.

Todo o sistema filosófico de Sampaio Bruno, se sistema devamos dizer, provém desta zona misteriosa. Na conjectura de Álvaro Ribeiro, derivada daquela citação de Dante de «Lo Duca ed io», terá sido de Joséphin Péladan que Bruno recebeu o ensino que o transformou num iluminado. Todavia, pelas Notas do Exílio, é-nos dado ver que foi na Holanda e não em França que tudo teve início. É de presumir, sem receio de engano, que o filósofo terá visitado a Biblioteca dos judeus portugueses de Amesterdão, cujo nome de Árvore da Vida (Etz Haiim) é já de si uma alusão ao pensamento cabalista de Isaac Lúria. Este pensamento ter-lhe-á aberto o espírito para o supremo sentido da sua experiência do exílio.

Com efeito, uma boa hermenêutica d’A Ideia de Deus e, à luz desta ideia, da filosofia da história de O Brasil Mental, revela tão impressionantes coincidências entre o pensamento filosófico de Sampaio Bruno e o pensamento cabalista de Isaac Lúria que só o respeito pelo génio original do nosso filósofo, pelo génio que o inspira, nos pode fazer duvidar de que ele tivesse lido os escolastas de Safed. A ideia basilar é a de Deus em exílio de si próprio na sua substância procurando reintegrar-se pela recuperação das «parcelas de luz», por cuja queda na matéria, mais precisamente por cuja queda que faz a matéria se encontra actualmente «diminuído». Os agentes da recuperação são os Anjos, emanações de luz em migração que comunicam com o homem, trazendo-o a participar no fim comum de redimir a natureza. A oração é eficaz porque chama o espírito puro ao espírito alterado. O Universo é movimento porquanto todos os seres, logo após a inexplicável queda em Deus, buscam regressar ao homogéneo inicial e, por isso, a ideia de Deus é a do Espírito interessado, pessoal, próximo, mas invisível, que acompanha o homem, principal centro dos seres naturais, e o seu povo Portugal-Israel ou Portugal-Humanidade, durante o grande exílio universal, drama imenso cujo desenlace se dará com a vinda do Messias, Paracleto ou Novo Cristo. Repare-se que não há um só ponto desta doutrina que não possa ser referido à ideia de exílio. É o que lhe dá o tom próprio e vivencial. Ora tal característica encontramo-la predominantemente na filosofia de Isaac Lúria. Seguimos, ao evocar os principais aspectos desta filosofia, a lição de G. G. Scholem em Correntes da Mística Judaica.

Em primeiro lugar, a doutrina do Tsimtsum (concentração, contracção), segundo a qual Deus se teria retirado de si próprio para a realidade insondável da sua solidão imensa, deixando assim lugar para a criação do mundo. «Tentou-se interpretar esta retracção em termos de exílio, como se Deus se houvesse expulsado do seu todo numa profunda reclusão. Encarada assim, a ideia do Tsimtsum é o símbolo mais profundo do exílio, mais profundo até do que a Quebra dos Vasos. Na Quebra dos Vasos, qualquer coisa do ser divino é exilado fora d’Ele, mas o Tsimtsum pode ser interpretado como um exílio de Deus em Deus.»

Em que consiste a Quebra dos Vasos? «Primeiramente, as luzes estavam reunidas num todo (homogéneo inicial de Bruno), sem nenhuma diferenciação entre as Sephiras: neste estado, não precisavam de taças, copas ou vasos que as contivessem.»

«Os vasos correspondentes às três sephiras supremas abrigaram a luz emanada do Ain Soph, mas, ao ser recebida pelas seis sephiras seguintes, essa luz irrompeu de um jacto e a pancada foi tão grande que os vasos se quebraram e se fizeram em pedaços. O mesmo se deu, embora em menor medida, com o vaso da última sephira.»

Lúria explica como os gnósticos a queda dos átomos de luz divina até às profundidades mais baixas.

«Os mundos inferiores e infernais do mal, cujo poder se sente em todos os estágios do processo cosmológico, nasceram dos pedaços que retinham ainda alguns raios da Santa luz. Deste modo, os bons elementos das esferas divinas misturaram-se com os elementos tenebrosos. Reciprocamente, a restauração da ordem ideal, que forma o objectivo original da criação, é também o fim secreto da existência. A redenção significa, pois, a restituição, a reintegração, o restabelecimento do todo original.»

A filosofia de Sampaio Bruno deve ser referida mais à Quebra dos Vasos do que ao Tsimtsum, apesar da ideia basilar do exílio de Deus em Deus. A ideia da Quebra dos Vasos, conquanto não explicitamente mencionada, está presente ali onde Bruno fala da alteração do Espírito Puro e das «parcelas luminosas espalhadas pelo mundo tenebroso». Os átomos que resistem, correspondem aos pedaços, aos fragmentos dos vasos.

Uma imensa, profunda religiosidade impedia Bruno de formular uma explicação que desse a razão da Queda em Deus, mas tinha de admitir tal queda para compreender a existência simultânea de Deus e do mal no mundo. Não chegou pois, a dizer como Isaac Lúria que todo o processo cosmológico se deve explicar como o processo que Deus desencadeou para se libertar do mal. Posto isto, compreende-se que: «O processo pelo qual Deus se concebe, se engendra e se desenvolve não depende completamente de Deus. Determinado papel, no processo de reintegração, é atribuído ao homem. As luzes, em cativeiro na matéria resistente e obscura, não se libertam pelo seu próprio esforço. É o homem que põe ponto final na impossibilidade divina. É o homem que completa a entronização de Deus, – Rei e Criador de todas as coisas – no seu Reino dos Céus, é o homem que completa o Fabricador de tudo! Em certas esferas do Ser, entrecruzam-se o humano e o divino. O processo intrínseco extraterreno do Tikkun (reintegração) é descrito simbolicamente como o nascimento da personalidade de Deus e corresponde ao processo da história terrestre.»

Ouça-se, em ressonância, Sampaio Bruno: «O fim do homem é ajudar a evolução da natureza.»

«A partir da diferenciação inicial do espírito homogéneo e puro, consecutivamente, decaída, a parte diversificada buscou regressar à origem. Eis porque seja que o movimento resulte o facto irredutível, característico do mundo. O movimento é o início e o fundamento de tudo, porque seja o avance na série de formas evolutivas, com o fito final do regresso ao espírito homogéneo.»

«Se um triste ateísmo a não adoecesse, seria por este fundamento recôndito que Clémence Royer poderia justificar a sua ideia de que cada átomo sente e quer, segundo motivos percebidos, como excitações motoras reflexas, que determinam os seus movimentos.»

Não está mal que neste momento, transcrevendo mais um texto de G. G. Scholem, joguemos um jogo, talvez pouco recomendável mas perfeitamente esclarecedor, que é o de nesse texto substituirmos o nome de Isaac Lúria pelo de Sampaio Bruno, alterando em consequência certas referências, como seja, por exemplo, a dos Judeus:

«Em suma, podemos considerar a Kabbalah de Sampaio Bruno uma interpretação mística do exílio e da redenção ou até um grande mito do exílio. A substância dessa Kabbalah reflecte os sentimentos dos portugueses desterrados na sua própria Pátria. Para eles, o exílio e a redenção são, do modo mais exacto, grandes símbolos místicos. Esta nova doutrina de Deus e do Universo corresponde à nova ideia moral da humanidade que propagou nos seus livros: o ideal do filósofo, cujo fim é a reforma messiânica, a transcensão do mal do mundo, a reintegração de todos os seres em Deus. Assim, o homem de acção espiritual, graças ao movimento que recebe dos Anjos, pode quebrar o exílio, o exílio histórico de Portugal, o da humanidade, e este exílio interior no qual gemem todas as criaturas.»

Regressando a O Brasil Mental, estamos agora em condições, julgamos nós, de entender o interesse que Sampaio Bruno pôs naquelas doutrinas contemporâneas caracteristicamente evolucionistas. E com elas o papel da Ciência, por cujo desenvolvimento se define a idade positiva de Augusto Comte. Não há n’O Brasil Mental uma refutação repudiando o positivismo. Há uma correcção que o admite com a reserva de se pensar que a Ciência positiva é também essencialmente ciência de Deus e, portanto, teologia. Para que assim seja, também ela a Ciência precisa de ser corrigida, banindo a noção de inércia e o cálculo das probabilidades que a reduzem a um monismo mecanicista.

No termo deste prefácio, relembrando, reparamos enfim que nada dissemos sobre o Brasil, como se o título do livro nada tivesse que ver com as «mentações» nele apresentadas e discutidas. O Brasil Mental porquê? Álvaro Ribeiro deixou-nos uma explicação n’Os Positivistas. No período em que escreveu esta obra (1951) pensava ainda ser Sampaio Bruno um adversário, sem mercê, do positivismo, opinião que viria a abandonar mais tarde, por influência, que declarou, de Amorim de Carvalho. Havendo observado que não há, nos livros de Bruno, uma única palavra de desprimor sobre Teófilo Braga e muitas de sincera admiração, foi levado a conjecturar que a amizade pessoal e a confraternidade republicana tinham impedido o nosso filósofo de visar o positivismo enquanto coisa portuguesa, salvaguardando-as àquelas, destacando-o como coisa brasileira. De facto, a forma como Sampaio Bruno trata os intelectuais brasileiros chega a ser rude e violenta, roçando, por vezes, o sarcasmo.

Acusa os brasileiros de não gostarem dos portugueses, de chegarem ao ponto de atribuírem origens diferentes ou disparatadas à língua falada no Brasil e à língua falada em Portugal. A diferença que, por desventura, exista entre as duas explica-as ele pelos barbarismos africanos que terão contaminado e deformado a fonética, a morfologia e a sintaxe da língua original. Demora-se a mostrar e a demonstrar esta tese. Mas surpreendemos nas palavras que ferem um toque, mal escondido de tristeza. Tristeza essa que também nos invade quando supomos latente uma unidade interior, profunda e transcendente na imanência da língua comum, entre os dois povos, contudo deles ignorada, sem que as conexões superficiais bastem para suster o progressivo afastamento. Não terá sido, pois, para recuperar essa unidade interior e a consciência dela, à semelhança do que fez Agostinho da Silva, em múltiplos escritos, que foi pensado e executado O Brasil Mental?

O positivismo adquiriu no Brasil a forma de um catolicismo sem Deus, com o seu ritual em volta da deusa Razão. Entretanto, em Portugal, dealbava ao longe, mas suficientemente próxima, a República positivista. Sampaio Bruno via em ambas abjecções que vinham paralisar o movimento evolucionista no momento preciso em que, pela Pátria de Guerra Junqueiro, a lusitanidade tomava consciência de si e acordava para o sentimento do exílio, promissor da liberdade vindoura. Igual tomada de consciência se esperaria nos brasileiros. Em vez disso, surgem no Brasil, como mais tarde vão surgir em Portugal, na roda de António Sérgio, sucessivos ataques ao poeta e ao seu livro.

Sampaio Bruno responde à letra e fala ao espírito. É desta reacção libertadora que emerge todo O Brasil Mental.

António Telmo

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TÉLMICA, 3

ATelmo_1995[na imagem: António Telmo no atelier de Carlos Aurélio, em Vila Viçosa, em 1995]

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António Telmo (1927-2010) e Vila Viçosa

«Negarei que sou cristão perante o galo
Que anuncia o renascer do meu corpo aflito?»
(A. Telmo: de um poema a Leibnitz)

«Entretanto há a Pátria. A Pátria somos todos, os que vivemos e, sobretudo, a cadeia invisível dos antepassados, essa enorme força da espécie que o Anjo marcou na sua génese com uma língua e um determinado sestro histórico, se não transcendente. Não é por acaso que se nasce português e misteriosas são as leis de afinidades pelas quais temos aquele Pai e esta Mãe, estes irmãos, esta mulher e estes filhos. Como é possível abandonar tudo e ficar só?»
(A. Telmo: in História Secreta de Portugal, p. 162)

Em Vida Conversável Agostinho da Silva põe como possível uma certa «teoria nova de se nascer» aventando ter ele nascido no céu das ideias ao ficar atento à rotação do globo terrestre que passava à sua frente, isto assim por escolha consciente e pré-natal no dizer de Platão citando o mito de Er. Quis portanto Agostinho nascer em Barca de Alva, última aldeia do Douro antes de Espanha mas, sendo difícil o cálculo matemático e rigoroso em assunto de acerto entre os corpos sidéreos em movimento como o são Céu e Terra, acabou dado à luz no Porto. Tudo se corrigiu e o erro logo foi reparado pois ao cabo de poucos meses já o infante balbuciava e crescia em Barca de Alva, lugarejo de rio em reflexo da foz do Douro, mais barco aproado ao Génesis ou ao alvor do mundo.

Creio bem possível esta «teoria nova de se nascer» e tenho por certa uma outra teoria, talvez intuição velha, sobre o morrer, pois sem darmos por isso e tal como fazem os elefantes já velhos, andamos boa parte do nosso existir em busca de sítio para morrermos, a acertarmos instintivamente a coisa ao invés, esta Terra com aquele Céu de onde viemos. Chamo-lhe teoria não por necessária demonstração mas por nela significar contemplação, talvez contemplação intuída desse lugar, porta ou portela que nos chama à inalienável passagem, ainda por cima para o que presumo vir a ser a verdadeira vida. Escrevo estas linhas poucos dias depois de António Telmo, escritor e filósofo tão assiduamente presente a Vila Viçosa, ter partido de entre nós.

António Telmo acertou o seu Céu com a Terra na vila fronteiriça de Almeida, na Rua do Convento, pelas duas horas da tarde de 2 de Maio de 1927; refez agora o novo acerto milimétrico e sidéreo entre Terra e Céu pelas nove horas de um sábado, a 21 de Agosto de 2010 no Hospital do Espírito Santo em Évora. Entretanto a infância fê-lo crescer em Angola, em Alter do Chão e em Arruda dos Vinhos, a juventude deu-lhe o mar de Sesimbra e o grande rio da vida em Lisboa, passando a Beja, a Évora e a Estremoz até que a Universidade de Brasília por Agostinho da Silva o chamou, vindo a seguir para Granada e o Alentejo de novo em Redondo e em Borba, por fim, Estremoz. Nunca viveu em Vila Viçosa mas Vila Viçosa muito viveu nele, pelo menos quarenta anos, metade do seu viver. Aqui conviveu e teve amigos, pensou e escreveu, para aqui vinha quase todos os dias como se do Café Framar avistasse o universo, ou então a sua Ilha de Passagem, camoneana e persa em seus três outeiros «Que de gramíneo esmalte se adornavam, / Na formosa Ilha, alegre e deleitosa. / Claras fontes e límpidas manavam/ Do cume, que a verdura tem viçosa.» (Os Lusíadas, IX, 54). Esta terra ou Ilha Viçosa foi talvez para ele um reflexo terreno do contínuo reencontro com as imagens virginais da sua infância e com a natureza, um lugar confessado da sua estima, uma terra propícia à sua tertúlia filosófica. De longínquos pontos do País e do mundo aqui veio gente para o ver e escutar em busca dessa névoa que o desconhecido tece, que o mistério faz ser e viver, aqui palpitou a saudade como ausência e presença do verdadeiro conhecimento ao modo de Pascoaes, interpretando operativamente Camões e Pessoa, interpelando cada conviva em seu acerto entre Terra e Céu. Parecido com isto só no Café Águias d’Ouro em Estremoz.

Se a consciência da Filosofia Portuguesa enraizou em Sampaio Bruno (1857-1915) e depois aflorou pujante em Leonardo Coimbra (1883-1936), foi todavia só com Álvaro Ribeiro (1905-1981) e José Marinho (1904-1975) que se fundamentou em teses e obra que os discípulos continuaram. António Telmo é veio desse rio e ramo dessa árvore espiritual. Desde os seus 22 anos que participou em Lisboa no grupo da Filosofia Portuguesa fundado pelos portuenses Álvaro e Marinho na senda da Revista Águia e da Renascença Portuguesa, erguidas por Leonardo e Junqueiro, Pascoaes e Pessoa, passando por José Régio ou Agostinho da Silva, Almada Negreiros ou Eudoro de Sousa. Nessa tertúlia, fundada na década de quarenta do século passado, se iniciou o 57, movimento filosófico e cultural, e nele despontou o então novel filósofo António Telmo. Outros condiscípulos aí se confirmaram como Orlando Vitorino, seu irmão (1922-2003), António Quadros (1923-1993), Afonso Botelho (1919-1996), Pinharanda Gomes (1939) e outros. A cepa é vigorosa, a ramagem a cobre.

António Telmo, discípulo de Álvaro Ribeiro e de José Marinho, também convivente próximo, profundo e prolongado quer com o poeta austríaco Max Hölzer, quer com o pensador ousado que foi Agostinho da Silva, investigador de correspondências outras com Fiama Hasse Pais Brandão, Natália Correia ou com o cabalista inglês Z’ev ben Shimon Halevi, abriu por si mesmo uma senda particular no pensamento português e na espiritualidade pátria. Pela simbólica da pedra esculpida no Mosteiro dos Jerónimos, pela hermenêutica em Camões e n’Os Lusíadas, pela via iniciática de Pessoa e da Mensagem, pelas sombras de luz na saudade de Teixeira de Pascoaes, sempre o seu labor foi profícuo, o seu pensamento lúcido, as intuições clarividentes, sempre surgiu criador porque em saudável expectativa ao pulsar da portugalidade, à semente imperecível do espírito entre os homens. Fez de si mesmo a vida poética de que tanto falava, e nela traduzia a expressão particular e inalienável de cada um com Deus, por ela se nutria a liberdade movente da alma, no seu caso aberta ao corpo transcendente de Portugal, à inquietação das ideias, ao mundo do espírito. Para António Telmo «a essência cindida da existência é um puro fantasma», um idealismo vazio, uma abstracção insituada e sem sentido. Daí a importância da literalidade, do corpo, da alma medianeira e sensitiva em cujo centro se pode alterar a natureza das emoções, da luz que já é conhecimento e porta do inteligível. A sua vida e a sua obra são metáforas mútuas, reflexos similares da mesma alma inquieta por Deus e por Portugal, a sua criatividade é fértil porque exposta à expectativa do espírito, ao espanto de se estar vivo. Na sua obra está a sua vida, não por solipsismo narcísico mas por verdadeira recriação que só pela imaginação se revela e exprime: Tomé Natanael é António Telmo, não às avessas, mas por corolário das mesmas letras que o refazem espiritualmente no acerto da sua Terra com o seu Céu.

Nestes dias depois da porta ou da passagem da qual nada sabemos conviriam certamente considerações ponderadas e sóbrias sobre este homem extraordinário que passou por Vila Viçosa. Passou por aqui quarenta anos, sempre perto e também ao largo, como se faz à volta de uma Ilha que se encobre sem nunca se alcançar, assim um cometa que nos foge enquanto brilha. Cá veio, pois, sempre como navegante em viagem sem fixação possível no acto de quem busca. Aqui o vimos ora a escrever ou a conversar no Café, ora no bilhar ou a jogar à malha, ou então em filosofia peripatética ao modo do Liceu de Aristóteles dando longos passeios com os amigos pela Vila, pelo Castelo, pelos campos circundantes. Quantas páginas de si aqui terá escrito? Muitas, comprovadas e certas, e aqui viveu pois sem que morasse, como vivem aliás os exilados do espírito que a saudade não lhes dá chão firme. Vila Viçosa, ele que tantas vezes confessadamente a admirou em seu esplendor aberto e urbano e em sua delicada luz, Vila Viçosa terá sido neste seu mundo um dos reflexos encantatórios da Ilha, um catalizador e um apelo dos que buscam entre os homens a nudez infantil do V Império ou, como um dia disse, olhando a neblina e uma serrania de Sesimbra: «Foi na Serra da Achada / Que julguei ter-me perdido / Quem se ganha não é nada / Disse-me Deus ao ouvido». Neste vai-e-vem entre a sua casa e esta Ilha Viçosa nunca ganhou nada no sentido vulgar que o mundo dá ao sucesso e à fama. Apenas se perdeu para que Deus o achasse.

Por Agostinho da Silva «a teoria nova de se nascer» diz-nos onde e quando entramos no mundo para nos ser dada a liberdade de nos perdermos, por António Telmo se faz o regresso à Terra Prometida até nos reencontrarmos, assim o Êxodo dos judeus errantes ao longo de quarenta anos como sina ou Sinai. Arruda deu-lhe a infância na arte da fisga no exímio caçador que veio a ser, Sesimbra a juventude, o mar e a Ilha sonhada, Estremoz a maturidade do pensador que tanto caçou e amou as aves e os céus. Em Vila Viçosa, qual síntese onírica de uma obra sempre a refazer, sobrou-lhe a idade do tempo imponderável, esse que não tem conta nem medida. Daqui, muito avistou do eterno.

Tudo será símbolo pelos olhos dos deuses se sempre houver amor a decifrar. Na véspera da sua partida e neste Agosto de acerto com o Céu, “calhou” que eu tivesse passado toda uma tarde até ao crepúsculo na praia frente à Ilha do Pessegueiro, em Porto Covo. Lá, muito me lembrei do António Telmo que sabia já gravemente doente, enquanto os meus sobrinhos, divertidos, davam piruetas e faziam o pino copiando ginastas ou artistas de circo. Entretanto, e em desconhecimento mútuo, o nosso comum amigo Hélder Cortes estava na mesma praia e até a Ilha do Pessegueiro visitou, montando, ele e a filha, um barco que afinal era um cisne branco que de longe avistei. Tudo isto, assim dito, pode sugerir devaneio ou fantasia infantil e, todavia, quanta possibilidade haveria a conversar com o António Telmo em passeio ou em tertúlia de Café! Vem-me à lembrança, talvez ao coração ou à recordação, toda a hermenêutica camoneana do António Telmo, desde os gestos iniciáticos dos cisnes na «Ilha angélica pintada» dados na iluminura persa do seu Desembarque dos Maniqueus, até ao «pomo que da pátria Pérsia veio» e que pelos Lusíadas sabemos significar o fruto do pessegueiro. Será fantasia, jogo forçado ou simplesmente uma subtil convergência de almas? Falamos aqui de vera imaginação e de fraternidade espiritual. A outros amigos, outros fios foram dados. A Ilha!

Por mim pouco sei mas dei-me a estas considerações em busca do porto covo, cavo ou fundo, desse seu ponto particular de acerto entre Terra e Céu de onde o António Telmo embarcou às nove horas da manhã seguinte. Sei que aqui estaria assunto sério sem nunca ser mórbido, vivo sem cair na superficialidade, tema de sábia conversa a ter com ele numa das mesas do Café Framar, na esplanada da Mata, em passeio por Vila Viçosa, ou mesmo entre amigos no meu Atelier. Estou certo que o mistério seria sondado com ousadia e delicadeza, o pensamento viria como flecha, ou não fosse o António Telmo o filósofo aberto à liberdade, mesmo correndo o risco do erro, acaso nos propuséssemos apontar ao alvo, sabendo que sem alvo perde sentido toda a pontaria. Certa vez escreveu que uma das primeiras histórias que ouvira em criança «era a de um atirador de arco que, ao ir apanhar a única seta perdida para além do alvo, deparou com uma paisagem maravilhosa». Nessa paisagem agora estará, achado depois de perdido, com Deus a falar-lhe ao ouvido. Com ele imagino a Elba, o Mondego, o Nilo, todos os seus cães que já foram, que um dia me disse vir a encontrá-los depois de partir, estrada adiante. E também lá suponho o Álvaro e o Marinho, o Orlando e o Agostinho, o próprio Camões e até o Veloso, o nauta da Ilha dos Amores pintada. Sempre a Ilha!

Dou graças à vida pelo filósofo admirável e pelo amigo generoso, ele que por Florbela, por Pousão e por tudo o resto me falou da gratidão que a minha alma deveria a este meu acerto entre Céu e Terra, por ter nascido em Vila Viçosa. Aqui somos.

Recordo outra vez os meus sobrinhos a fazerem o pino frente à Ilha do Pessegueiro, com as mãos abertas a vincarem a areia, as pernas levantadas e os pés no céu ao modo do que escreveu Leonardo Coimbra sobre a metanóia da posição invertida dos ginastas, ele que tudo fazia depender da transcendência. Imagino o António Telmo com a sua fisga: um ípsilon na mão, não sei se vejo o pino de um ginasta com os pés no Céu, se um Cristo de braços abertos na Terra.

Muito te agradeço, António, ao rapazinho de Arruda e de Sesimbra tão exímio com a fisga, mais ainda ao filósofo que em Vila Viçosa e com tanta pontaria vi acertar nas janelinhas do Céu. Graças a Deus.

Carlos Aurélio, 31 de Agosto de 2010

Arte Poética, Guimarães Editora, 1963; reedição em 1993.
História Secreta de Portugal, Editorial Vega, 1977.
Gramática Secreta da Língua Portuguesa, Guimarães Editora, 1981.
Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões, Guimarães Editora, 1982.
Filosofia e Kabbalah, Guimarães Editora, 1989.
O Bateleur, Átrio, 1992.
O Horóscopo de Portugal, Guimarães Editora, 1997.
Contos, Aríon, 1999.
O Mistério de Portugal na História e n’Os Lusíadas, Ésquilo, 2004.
Viagem a Granada, Fundação Lusíada, 2005.
Congeminações de um Neopitagórico, Al-Barzakh, 2006; Zéfiro, 2009.
Contos Secretos, Editora Tartaruga, 2007.
A Hora de Anjos Haver, (Poemas), Porto, 2007.
A Verdade do Amor, (Teatro) seguido de Adoração (L. Coimbra), Zéfiro, 2008.
Luís de Camões (Obras Completas vol.1), Al-Barzakh, 2010.
O Portugal de António Telmo, Guimarães Editora, 2010.

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Revolução e restauração

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[Na  imagem: José Agostinho de Macedo ]                           (voltar à página principal)

A noção dos ciclos, em que se resolvem, num movimento espiralado, os diferentes ritmos temporais, desde os de ordem pessoal aos de natureza cósmica, permite superar tanto a concepção de um direccionismo rígido da história, como a de uma deriva sem rumo definido. Assim, o conceito astronómico da revolução dos corpos celestes oferece uma feliz analogia com os sucessos históricos, que periodicamente conduzem como que a um refrescamento da vida colectiva, de que as festas cíclicas são exemplo. Aliás as re-voluções, visando a regeneração das sociedades, por via de regra se justificam pela intenção de as fazer regressar aos originários princípios da sociabilidade humana, de que elas se teriam entretanto afastado.

O processo passa, pois, pela crítica dos factores que conduziram a esse desvio e pela apologia de uma ordem ideal, a restaurar ou instaurar de novo, embora sob outras formas, já que o regresso ao passado é impossível, se não mesmo indesejável. Tal fora o propósito do grande reformador que foi São Francisco, como o das reformas, diversamente entendidas por Erasmo, Lutero e Calvino, apontando para a repristinação de um cristianismo que se teria corrompido no decurso dos séculos. Ora, como estes, a história regista um sem-número de movimentos, que em todos os tempos, lugares e domínios têm visado rectificar os errados caminhos dos homens, restaurando a ordem natural, originária, primeva.

Sem embargo da boa ou má-fé dos protagonistas, sempre intervém neles um factor aleatório, sobrenatural ou incoercível, que lhes favorece ou empece os propósitos. Assim aconteceu, entre nós, com as revoluções decisivas; fosse a que, com D. João I e o advento da dinastia de Avis, Fernão Lopes associou ao início de uma nova idade; ou a que, entronizando D. João IV, restaurou a autonomia política e devolveu ao povo português a soberania com que em Ourique aclamara rei D. Afonso Henriques. Ou ainda, mas inversamente, com o 24 de Agosto de 1820; que, dando um xeque ao rei, indeterminou a sede do poder; justificando a dúvida sobre se a noção hodierna de Portugal corresponde à que esteve vigente até meados do século XVIII.

A verdade é que todo o quadro da vida nacional tinha entretanto sido subvertido por uma revolução de outro género, qual a levada a cabo por Sebastião José de Carvalho e Melo, com o beneplácito de El-Rei D. José I. Talvez por isso, nenhuma outra se esforçou tanto por legitimar-se com invocar, nos mais variados domínios, o regresso aos princípios e práticas cujos desvios alegava procurar corrigir, não hesitando em reescrever a história de Portugal e forçar, até ao limite do razoável, o controlo sobre a vida colectiva, em especial no plano das ideias. Com efeito, a par da reforma do ensino, exerceu sistemática e violenta repressão contra as concepções tradicionais, proibindo e queimando em público quantos livros advogassem o aristotelismo ou a origem popular do poder real, por exemplo; o que, com a substituição das obras didácticas, as reedições e traduções dos clássicos, assim como a importação, amiúde clandestina, da literatura, sobretudo francesa, realizou uma revolução mental sem precedentes.

O certo é que, tanto pelo estilo impositivo do poder, como sobretudo por estar em causa uma radical mudança do sistema de valores, a contenda se prolongou indefinidamente; ao invés do que antes sucedera, quando as feridas resultantes dos conflitos cicatrizavam a bem mais breve trecho. E que não houve o refrescamento das energias originárias se há-de concluir da real decadência da sociedade portuguesa, que não mais recobrou a confiança em si mesma e acabou por se resignar à tutela estrangeira, abdicando da decisão acerca das principais questões da sua vida e destino. De modo que nunca como nestes últimos duzentos e cinquenta anos se deu tanto relevo ao olhar exterior sobre Portugal, quer o dos visitantes ou estudiosos de outras culturas, quer o dos portugueses que têm vivido ou estanciado lá fora.

Assim, ainda hoje se atribui aos estrangeirados – e não apenas aos do século XVIII – um papel quase redentor; como se o País, que com D. João V alcançara invejável prosperidade interna e prestígio externo, se debatesse então nas vascas da agonia. Raia o inverosímil, que se atribua a um bolseiro do Magnânimo, o clérigo Luís António Vernei, tal como a um judeu expatriado, o médico António Nunes Ribeiro Sanches, cujos méritos nunca lhes granjearam estatuto relevante na sociedade portuguesa, uma importância decisiva nas mudanças impostas pelo pombalismo. Ora, para lá das compreensíveis convergências entre contemporâneos e dos ocasionais serviços prestados à coroa, importa ter presente que, sobre uma muito especial índole, o carácter de estrangeirado coube antes de mais ao ministro de D. José, que nunca deixava os seus créditos por mãos alheias.

Em contrapartida, subestima-se o papel que uma significativa parcela da nobreza e do clero tiveram na preparação e aplicação do programa impropriamente identificado com os termos de iluminismo, das luzes e correlativos; como se o racionalismo de modelo físico-matemático pudesse esclarecer mais do que algumas, escassas realidades. Só quem desconhece a nossa literatura do século XVIII, tal como a antecedente, pode ignorar que o verbo iluminar e os demais vocábulos do mesmo núcleo semântico eram propriamente usados para significar um saber, tanto de ordem especulativa como prática, cuja luz, recebida do alto, se considerava uma graça; razão pela qual os iluminados eram todos os que, guiados por moção superior, se distinguiam na busca e na realização da verdade, da beleza e da bondade: os sábios, os artistas e os santos. Se é sintomático que uma cultura ostensivamente laica e profana, enfeitando-se com as penas alheias, tivesse recorrido à simbólica religiosa para afirmar a sua diferença; tal como a nobreza adventícia, emergente da revolução burguesa, se locupletou com os bens confiscados à Igreja; não o é menos que a história portuguesa tivesse passado a ser lida a partir dos critérios importados da Europa Central e do Norte.

O fenómeno mal pode dissociar-se do que se passou com a noção cristã da liberdade, cuja profanação, através da redução a um sentimento subjectivo, incoercível, por assimilação aos movimentos naturais, se projectou num absurdo atomismo social. Como se compreende, os excessos da afirmação individualista, mormente quando lesivos do equilíbrio social, podem explicar as reacções, não menos excessivas, em nome dos interesses colectivos, cujas primeiras teorizações e manifestações sistemáticas se lhes seguiram imediatamente. A dinâmica social, contudo, em vez de integrar as naturais diferenças e as artificiosas tensões num movimento superador, resvalou assim para uma radicalização, que tem bloqueado as esperanças na paz política e na efectiva evolução para formas superiores da sociabilidade humana.

Ao reduzir a metáfora das luzes e da iluminação ao plano do racionalismo cientificista, implicitamente se excluía para o âmbito das trevas o saber garantido pela fé religiosa, adrede substituído por uma metafísica, que o positivismo logo veio denunciar. A contraprova ressalta do destino reservado aos que professaram um iluminismo integral, ou seja, que, conciliando a fé e a razão, procurava constituir a enciclopédia do saber e orientar a acção à luz do princípio da necessária harmonia entre a tradição e o conhecimento positivo. Sirva de exemplo uma obra como a do padre Teodoro de Almeida que, não obstante a excelente recepção granjeada, tanto em Portugal como além-fronteiras, tem o nome omisso na lista dos que mais e melhor contribuíram para a difusão das luzes, pois nunca dissociou os planos, fossem os da fé e da razão ou os do conhecimento e da acção.

Como é evidente, muito melhor nos convinha o iluminismo da Recreação Filosófica, no âmbito de uma cultura com provas dadas e conforme aos nossos valores – sem prejuízo da actualização científica e técnica, mas também sem romper com a dinâmica da tradição –, do que o engendrado em contextos exóticos e por isso desagregador do corpo social, como era o das Cartas sobre a Educação da Mocidade e do Verdadeiro Método de Estudar, assimilado por homens solitários e quiçá ressentidos. Resulta assim significativo o facto de o oratorista, que propunha uma reforma pacífica, mas fecunda, ter sido expulso de Lisboa e perseguido até França; onde, por sinal, se carteou, entre 1774 e 1777, de Baiona para Paris, com o médico estrangeirado que, adverso ao sistema de valores tradicional, mas justificando o Estado como coisa sagrada (Obras, vol. I, Coimbra, 1959, p. 217), recebia uma tensa real pela colaboração que em nome de D. José lhe era solicitada. Ora, enquanto Ribeiro Sanches continua a ser apresentado hoje como personalidade exemplar, Teodoro de Almeida passa por figura secundária, evidenciando a inversão de valores que ocorreu na sociedade portuguesa.

Compreende-se que a ruptura haveria de afectar também a noção de pátria, remetida para o domínio da subjectividade pessoal e da contingência social, à míngua de demonstração conforme os critérios positivos. São conhecidas as dificuldades com que, desde Alexandre Herculano, a nossa historiografia se tem debatido para circunscrever uma realidade que nem o território, nem a demografia, nem a cronologia definem de modo satisfatório, não obstante subsistir politicamente independente há perto de novecentos anos e ter deixado uma marca indelével na história da humanidade. De modo que, sem subestimar as contingências militares, políticas e sociais, é legítimo admitir que de modo algum se esgotaram ou sequer capazmente se configuraram no passado – e por maioria de razão na actualidade – as virtualidades dessa realidade a que damos o nome de Portugal.

Nessa perspectiva se justifica que o assaz longo período de domínio castelhano, entre 1580 e 1640, pudesse ser reduzido a um episódio intercalar, que de algum modo reforçou até a coesão interna e a crença no valor próprio, permitindo reconstituir um império de notáveis dimensões. E que tivesse sido viável, em 1807, a transferência da corte para o Rio de Janeiro, salvaguardando formalmente a soberania, apesar da ocupação do território peninsular pelos invasores franceses e pelos aliados ingleses. Precedente de que se valeu D. Pedro de Alcântara para legislar a partir dos Açores, como se de Lisboa o fizesse, e para invadir o continente, de molde a tomar a coroa que alienara ao encabeçar a secessão do Brasil.

Já então era evidente o que José Agostinho de Macedo, a espaços tão polémico como lúcido, denunciara em 1811, no Sermão sobre o Espírito de Seita dominante no século XIX, como um novo mal que se abatera sobre a vida portuguesa. Proferido nas dramáticas circunstâncias em que o País se encontrava, terceira vez assediado pelas tropas francesas, compreende-se que o alvo dos ataques fosse a respectiva ideologia, “tal o estrago que tem feito na ordem social o delírio político, o delírio filosófico que se tem apossado dos homens desde que (e talvez que desde época mais remota) começou a levantar do caos a medonha frente o monstro que se chama a Revolução”. De tal modo que, “desde as geladas margens do Volga e do solitário Obi até às extremas praias do Mediterrâneo, desde as ribeiras do Tejo até às aprazíveis barreiras do Bósforo”, o que se via eram “Constituições mudadas, Repúblicas extintas, os homens alheios aos homens, sentimentos impróprios da humana espécie; guerras, incêndios, mortes, ruínas, assolações, misérias, sustos, invasões e pertinaz rapina” (pp. 8 e 9).

O curioso, porém, é que, mais do que contestar os delírios político e filosófico, Macedo preferisse condenar o espírito de seita ou de partido, que introduzia a divisão no interior da sociedade e até das famílias; para mais num conflito em que nem sequer estávamos directamente interessados. O argumento repetido pelo fogoso orador era o da irracionalidade das opções, feitas pelos motivos mais fúteis, mas que os respectivos partidários radicalizavam, a ponto de se não atenderem quaisquer razões. Mesmo nas questões de fé, mais do que discutir a doutrina, o importante para o sectário era “formar um partido, dilatando-o e engrossando-o até no meio da Plebe; então pouco a pouco passará da submissão devida à Igreja à indiferença; da indiferença à animosidade; da animosidade a um manifesto furor; e levado deste ímpeto cego e fanático, fechando os ouvidos aos brados da razão e da justiça, chegará até a tomar nas mãos as armas e a estabelecer e arreigar com elas a própria crença” (p. 26).

Tal era, a seu juízo, “a história de todos os cismas e de quantas heresias têm até agora despedaçado e ainda despedaçam o seio puríssimo e santíssimo da nossa Fé. Estes cismas e estas heresias, sem o espírito de partido que as ajudasse e sustentasse, ou não houveram tido existência ou não a teriam fora daquelas cabeças, ou ignorantes ou vulcânicas e sacrílegas, que as inventaram e produziram” (pp. 26-27). Sem embargo da retórica, o retrato era fiel e, pior que isso, premonitório do que seria o clima social em que o País viveu daí em diante, dividido entre os sectários ou partidários, não de ideias ou de projectos, mas de cegas fidelidades, que os mais imediatos interesses consolidavam. A ponto de, com o tempo, as sucessivas revoltas, revoluções ou levantamentos se terem desligado de todo da noção sequer de restaurar uma ordem primeira ou o que dela era legítimo imaginar, mas se limitassem a impor o domínio de uma facção sobre o resto do corpo social.

José Agostinho de Macedo endereçara o seu sermão ao clero, exortando-o a esclarecer os estultos que, segundo a Escritura, não ouvem os avisos da prudência, mas apenas atendem aos estímulos das paixões. Endereçasse-o ele aos políticos e bem poderia invocar a profética lição de que um reino dividido contra si mesmo não pode subsistir. Tal era o fatal resultado que, tão decididos como cegos, estavam a preparar os que tinham abraçado os princípios e as práticas dos que então, pela terceira vez, invadiam Portugal, matando, destruindo e pilhando quem nunca os agredira!

O atomismo social que o liberalismo de importação inoculara na burguesia dominante, subjectivando os valores, conforme se patenteara desde logo nas artes, instalaria o reino da opinião. E esta, tal como, através do livro, do periódico e do folheto, foi cultivada, insinuada e difundida, a sociologia a viria a conferir, dando-lhe foros de verdade positiva. Assim, a ideia de pátria caía no domínio da contingência social, manipulada ao sabor dos interesses de quem, por via do poder político, económico e social, controlasse as instituições, mormente as de ensino e de cultura.

À luz provinda do alto tinham-se substituído as luzes difusas que da terra se erguiam, alimentadas por uma civilização industriosa, mas desumana, à custa de tudo querer submeter à sua razão e vontade. Assim, a revolução que restaurasse os princípios e propiciasse a autêntica renascença portuguesa, conforme compreenderam os melhores, já na transição do século XIX para o XX, só poderia esperar-se de um fundo messiânico, que a intelectualidade dominante não lograva entender o que fosse, desconhecendo o povo sobre quem dominava. A verdadeira revolução, com efeito, começa sempre nos espíritos.

Joaquim Domingues

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