TEORIA DO ENCOBERTO, 5

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Páginas sobre José Marinho de um livro que não foi escrito 

Constitui, por certo, uma surpresa para muitos, que conheceram e privaram com José Marinho e se habituaram a ver nele um “espiritualista”, verificar, pela leitura atenta de alguns passos dos seus livros, quanto o obsidiou o mistério do corpo humano, isto é, do corpo que habitava ou alguém habitava nele. A noção de “corpo subtil” ou, noutros termos, de “corpo astral”, indicada apenas na Teoria, aparece mais pensada em Filosofia: Ensino ou Iniciação? E, mais tarde, em Verdade, Condição e Destino. Dir-se-á que o filósofo foi ao longo dos anos aproximando-se de um conceito cada vez mais cingente daquela noção.

Na Teoria do Ser e da Verdade, escreve assim: “Não o corpo interroga da boca e na palavra sem íntima garantia, não o corpo interroga, mesmo quando seja dado já apreendê-lo na profundidade secreta, naquilo que o corpo nunca ou raras vezes é para nós.” Alude-­se aqui a uma experiência ou vivência, não exterior ou mecânica, mas interior e secreta do próprio corpo, que José Marinho não nos diz ou não nos quer dizer qual seja, mas haverá leitores da Teoria que não deixarão de evocar, neste momento, o que ficou escrito, na mesma Teoria, algumas páginas atrás: “… não é o espírito pura actividade e obstinação activa, mas também subtil segredo da relação à humilde e suave passividade da contemplação, no mais intenso e opulento mas quase inapreensível agir”.

O que é que o corpo é raras vezes para nós?

Resposta possível parece ser esta de Filosofia: Ensino ou Iniciação?: “… a palavra não é apenas coisa extrínseca da boca ou do corpo. Nem a boca está apenas no que dela nos aparece visível ou sensível, nem o corpo na figura aquém da mais íntima forma. A relação do pensamento e da palavra não é, pois, coisa extrínseca, mas bem íntima e profunda. Ousaria acrescentar que a palavra é na intimidade do nosso ser o que se manifesta como carne sensível e corpo visível. Só assim o pensamento e a filosofia pela qual se cumpre todo o penar podem consistir numa actividade plena, concreta, totalizante, ínsita na profunda intimidade do homem, tal que o nosso mais autêntico ser está ela ou é dela indiscernível, só assim sendo possível pela palavra e nela alcançar transparência de comunicação – enquanto pudermos admitir, e até onde pudermos admitir, que o homem é sujeito da filosofia. Como não acrescentar aqui que ao que filosofa ou ensina a filosofar, até onde tal tem sentido, está reservado auscultar e por vezes discernir, sob o sujeito humano, outro sujeito mais profundo?”

Aquela mais íntima forma da qual o corpo é a figura aquém dela lembra, sem qualquer dúvida, a forma subtil ou forma de luz dos gnósticos, forma que “outro sujeito mais profundo habita”. Em lugar de “forma” pode dizer-se “corpo”, na condição de se entender por “corpo” não “matéria” na vulgar oposição a espírito, mas uma imagem, mais ou menos consistente em si, mais ou menos movente nos seus limites. Pois o que é uma imagem sentida por dentro?

Quando se fala em imagem, logo surge como dada do exterior, pelo paradigma obsidiante do visível. Daqui o supor-se, quando se fala de corpo subtil ou astral, um corpo justaposto ou sobreposto ao corpo físico e, neste sentido, é até possível “imaginar” corpos sucessivos, cada vez menos densos, pelo abuso de uma estreita visão materialista do mundo invisível. É na consciência que eu tenho do meu corpo que este mesmo corpo se revela e realiza como corpo subtil. É pelo modo como se sente, a partir de dentro, a imagem que esta se altera e potencia, “quando seja dado […] apreendê-la na profundidade secreta.”

Se assim é, os sensos ou sentidos possuem nesse corpo as suas raízes, as suas formas subtis, agora adormecidas. Toda a diferença está em serem passivos no corpo físico, mas, activados interiormente, devêm por isso mesmo sentidos subtis. Daqui a importância que José Marinho atribui ao acto da sensação, do que falaremos daqui a pouco.

A boca é o órgão da palavra. Todavia, na “mais íntima forma” do corpo, ela é a própria palavra numa harmonia de luz com os sentidos tornados activos. E não só o corpo humano, “como carne sensível e corpo visível”, a manifesta, mas todos os corpos e todo o universo, na sua mudez verbal aparente.

José Marinho tenta assim responder a esta pergunta: “Como é possível a comunicação pela palavra?”. A resposta é outra pergunta: “Como seria possível transmitir o que sinto e penso e compreender o que me dizem, se o “logos” ou “verbo” não fosse o oculto taumaturgo das almas e dos corpos?”.

É o que vem de novo interrogado em Verdade, Condição e Destino: “O filósofo não é um escritor. Antes de escrever, e no sempre subtil processo de traduzir por escrito seus secretos pensamentos, pois sempre secreto é em todo o homem o pensar – sonda o filósofo a funda e misteriosa relação entre silêncio e palavra, mudez e linguagem, expressão e comunicação. A palavra e o vínculo significativo das palavras, ou do que cinde e subsiste da palavra impossível ou só virtual, não surgem apenas na relação alma-corpo. Surgem do êxtase interior e do diálogo taciturno na relação projectada do espírito e do ar que respiramos e por que ouvimos.”

O filósofo alemão Jacob Boehme, que José Marinho cita admirativamente, escreveu que o ar, este ar que respiramos e no qual vivemos e convivemos, é a manifestação terrestre do Espírito Santo. Convém não esquecer o atributo de santo quando se fala, em sentido filosófico, de espírito.

A consciência de existirmos, “o autêntico e subtilíssimo sentido do existir consciente”, é capaz de assumir vários modos, mas, antes de mais, consiste no saber vivente, no saber que somos no divino e pelo divino, em modo concreto e não simplesmente imaginado ou pensado e, muito menos, suposto. Um dos caminhos deste saber, luminoso caminho, no-lo indica Jacob Boehme.

Se a alma não é o ser que respira ou, como diria Hegel, o sopro em si, a sua sobrevivência à morte do corpo seria impensável. A quem tiver já o sentido do enigma, o acto de respirar e a vida que dele resulta ou nele é, aparece como algo de absolutamente incoercível. A imaginação química dobra-se de intuição alquímica e as acções e reacções supostamente materiais aparecem como relações de elementos viventes. De qualquer modo, se o corpo deixa de respirar e nele não subsiste a respiração, a morte é definitiva e total.

José Marinho, para quem a ideia de uma “imortalidade opaca”, imaginada segundo o princípio de Lavoisier, se afigura absurda, vê um misterioso entendimento entre o espírito e “o ar que respiramos e por que ouvimos”. Mas aqui, como noutros lados, põe como condição de consciência, que não de existência, “o êxtase interior e o diálogo taciturno”. Que não de existência, pois sempre o espírito sopra onde quer, até ali naquilo que parece negá-lo.

O interesse do leitor deve agora ser conduzido para o espanto de verificar que o mundo sensível é ele mesmo o mundo subtil, se disso obtemos consciência real. É e não é, como diria o autor da Teoria do Ser e da Verdade. Eis por que a sensação, tantas vezes utilizada contra a alma pelo espírito que nega, tantas vezes, por outro lado, desprezada pelos pensadores espiritualistas, se torna de súbito uma via de gnose da alma que o verdadeiro espírito inspira: “… tudo quanto como periférico e extrínseco nos aparece no finito pensar das distinções finitas é, de outro, por outros modos, central e intrínseco. E a sensação, como que saindo da sua comum humildade para inesperada nobreza, se dilata e aprofunda já para além da actual extrinsecidade e evanescência…”

Numa primeira fase do seu percurso filosófico, perturbava-o a imensidade do mundo sensível e a exiguidade da nossa sensação e do nosso mundo interior, quando confrontados com essa infinitude. Verifica, depois, como se assistisse a um milagre, que na instantaneidade da sensação visual se acende toda essa imensidade.

Aqui, deve observar-se quanto é enganosa a expressão corrente “não tem vida interior”, aplicada às pessoas limitadas e aparentemente práticas, que vivem mecanicamente, se não automaticamente. A expressão acertada seria a inversa, a de que não têm vida exterior ou a têm em modo reduzido. É necessário ver que perspectiva interior e perspectiva exterior dependem uma da outra, como se a todo o mergulho na profundidade a alma correspondesse uma dilatação e um aprofundamento de tudo aquilo que ela é fora de nós. Há uma arte de sentir o mundo, talvez ensinável às pessoas perdidas no devaneio, nas preocupações, nas angústias, nas pequenas e grandes ambições, nesse mundo próprio de gente que se julga prática, mundo sinistro, não reconhecido como tal, porque é o comum. Tais pessoas nada vêem, nada ouvem, nada fazem de essencial. Passam a vida inteira sem se aperceberem das cores enquanto cores, dos sons enquanto sons, das palavras enquanto palavras. Para elas nunca há nascer do sol, porque se levantam tarde ou, mais exactamente, atrasadas em relação a si próprias. Demasiado lentas, deixam sempre passar o instante em que a luz auroral cria a variedade infinita das cores; mas desse instante só se apercebe quem o realiza em si.

Raros terão o sentido do tempo que decorre do instante, como o rolar do trovão no deflagrar do relâmpago. É o conteúdo repentino desse instante de luz que fecunda a alma, como o raio a nuvem, e nela faz eclodir a imaginação activa. José Marinho distingue entre imaginação activa e “imaginação encadeada” ou, como ele gostava de dizer aos amigos e conviventes, “imaginação a ferros”. A representação actual do mundo é uma consequência da imaginação que não é capaz de ver para além de si, através de si. Só pela imaginação activa é possível romper essa “suspensão do ser e do saber que é a representação actual do mundo”, pois ela é “a difícil via do espírito sem a qual não se cumpre no homem o pensamento”.

Se, por um lado, ao exprimir-se por aquele modo entre os amigos e conviventes, significava a hostilidade que a imaginação defronta no “declínio dos tempos”, hostilidade tão eficaz que se tornou perigoso imaginar, por outro aludia à sua queda nas malhas do pensar finito. O mundo é imaginação. E a imaginação presa é também a que prende – a magia negra. Libertá-la é um dos solenes deveres da filosofia em diálogo com a poesia, porque, se a imaginação não é o pensamento é a sua forma subtil e seu subtil poder. Livre é também a imaginação que liberta – a magia da luz.

José Marinho renova o antigo escândalo de trazê-la para o seio da filosofia, arriscando-se sem temor ou vaidade a ser dado como um pensador místico ou lunático.

António Telmo

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