UMA HERANÇA INCONSCIENTE

bruno

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O pressuposto essencial da vida em sociedade é o da mútua dependência, a qual, sem embargo dos eventuais aspectos negativos, possibilita e condiciona o desenvolvimento das virtualidades de cada um; mesmo quando se traduzem na crítica, mais ou menos agressiva, dos valores em cujo horizonte a pessoa veio à luz da vida, dos afectos e da razão. Com efeito, é no modo como recebemos, assimilamos e aperfeiçoamos essas influências que nos assemelhamos e distinguimos uns dos outros. Daí resulta que, conforme se ascende na escala humana, mais subtis sejam as formas de comunicação; razão pela qual se fala em congenialidade a propósito das afinidades entre homens superiores; as quais, no limite, escapam aos métodos positivos da análise.

Isso me dispensa de tentar demonstrar algumas aproximações, que não estou à altura de esclarecer, em especial quando se trata de movimentos espirituais, cuja verdadeira razão de ser apenas posso inferir de textos e testemunhos, susceptíveis no entanto de diferente exegese. Assim, por exemplo, se está documentada a relação de amizade que Mário Saa manteve com Teófilo Braga nos últimos anos da vida do professor, já afastado das lides públicas, nada posso alegar de semelhante quanto a Bruno; ainda que, tanto por via do velho professor, como de Fernando Pessoa e até de José Leite de Vasconcelos, possa presumir que conheceria bem a invulgar personalidade do autor de O Encoberto. Cada vez mais desligado da vida partidária e política, a sua atenção polarizara-se na decifração dos enigmas da nossa história próxima e remota, sobretudo desde que, em 1909, passou a dirigir a Biblioteca Pública e o Museu Municipal do Porto, pelo que não poderia deixar de despertar a curiosidade do autor da Erridânia.

O que se me afigura evidente é que, descontadas as diferenças de estilo, tanto pessoal como de geração literária e mental, as teses enfeixadas no volume A Invasão dos Judeus recebem inesperada luz, assim como ilustram, as do inacabado Plano de um Livro a Fazer, que Álvaro Ribeiro aproxima da Historia de los Heterodoxos Españoles, de Menéndez Pelayo, e nós da História Secreta de Portugal, de António Telmo. O judaísmo fora objecto da persistente indagação de Bruno, atento ao que ele representou na história universal e sobretudo na de Portugal, apesar de pouco sabermos do que nesse interesse influiu, durante o exílio de 1891 a 1893, a estadia em Paris e a passagem por Amesterdão, em cuja comunidade sefardita, ainda não esquecida das raízes portuguesas, teria colhido importantes revelações. A verdade é que, tal como n’O Encoberto se afastara de algumas noções correntes acerca do messianismo, assim também n’Os Cavaleiros do Amor se propunha desvendar uma história secreta, não apenas de Portugal; tarefa que a morte, no entanto, deixou interrompida, como em suspenso ficara entretanto a Teoria Nova da Antiguidade, de que conhecemos apenas os primeiros lineamentos.

A reflexão sobre o tempo e a historicidade, mormente os temas atinentes à génese e fenomenologia das revoluções, fossem as súbitas e sangrentas ou as de largo fôlego e quase imperceptíveis, tinha primacial importância para quem considerava o movimento a essência da realidade. Mas compreende-se que, ao postular a queda no homogéneo, em consequência da qual se destacara o mundo, onde reina o mal e o erro, prestasse especial atenção à agência dos factores subtis, dos movimentos ocultos e das sociedades secretas, num devir de sua natureza misterioso. Na série dos volumes que tencionava publicar, o último intitular-se-ia, em simetria com o primeiro, a Síntese da Crença Cristã; infelizmente, porém, nem mesmo os amigos mais próximos, como Teixeira Rego, ousaram suprir a enorme perda que, nessa como em outras vertentes, a morte do filósofo significou.

Por isso continua a valer como derradeira expressão do seu pensamento o artigo que, pouco antes de ser internado na Ordem do Terço, onde faleceria, entregou para publicação n’A Águia, com a indicação expressa de que seria o último… No tom de tantos outros textos eruditos, nele deixou uma mensagem a que por certo atribuía grande importância, mas que, como era hábito num escritor que amiúde ocultava o essencial sob a capa do banal, deixou ao nosso cuidado decifrar, com a quota-parte de responsabilidade que isso implica. O título, “O ‘Judeu’”, remete ostensivamente para o controverso autor das peças do teatro de fantoches que, aliás sem provas concludentes, como mostrou Claude-Henri Frèches (Bulletin d’Histoire du Théatre Portugais, n.º 1, Lisboa, 1950, pp. 33-61), se tem identificado com António José da Silva; mas o que está em causa, como se depreende da leitura atenta, é o modo pelo qual os judeus, ou antes, uma camada social de progénie hebraica, combatia os valores tradicionais, mormente nos séculos XVIII e XIX e não só em Portugal.

As poucas páginas de um artigo redigido quando a doença o constrangera ao último recurso, a que sempre se furtara, apenas lhe permitiram chamar a atenção, com a objectividade que era seu timbre, para o modo como, a partir das instituições da sociedade onde se acolhia e prosperava, um determinado estrato lhe minava as crenças e os valores. Que Bruno achasse importante deixar esta última mensagem, na sequência do Plano que vinha publicando desde os fins do ano anterior, a um ritmo cada vez mais espaçado, dá que pensar. Tanto mais que tinha já redigidos e mais ou menos prontos para o prelo outros vinte e quatro textos, que ficaram inéditos por muitos anos.

Homem de génio foi como Álvaro Ribeiro qualificou o autor de A Ideia de Deus, livro onde leu o que Bruno entendia por tal e, por isso, com a perfeita noção do que significava. Por isso, tal como em outros passos da vida arrepiara caminho, corrigindo o erro cometido quando, da primeira vez, no “casino”, resistiu à voz que lhe indicava o número da sorte, é de presumir que agora também se decidira a abrir um pouco mais o jogo. Com efeito, o último texto oferece uma chave para ler o Plano de um Livro a Fazer, que talvez não estivesse na sua mente quando o iniciou.

Não sendo um pensador apolíneo, como observa José Marinho, mas inspirado pelas constelações invisíveis, fizera ele de Bruno um nome de combate pela luz, não pelo ocultismo; de modo que o livro de que traçou o Plano se intitularia, bem a propósito, Os Cavaleiros do Amor ou a Religião da Razão. Compreende-se a preferência editorial pela primeira parte do título, tal como saiu no volume de Guimarães Editores, mas importa prestar igual atenção à segunda parte, que evoca aliás a Defesa do Racionalismo ou Análise da Fé, de Amorim Viana, e de algum modo antecipa A Razão Animada, de Álvaro Ribeiro. Numa linhagem consentânea ao amplo racionalismo da nossa tradição que, sem excessos nem exclusivismos, sempre buscou ver claro, na senda de um iluminismo integral, que não o de restrita feição físico-matemática.

Seria isso, porventura, o que Bruno pretendia distinguir, ao mostrar a feição corrosiva dessoutra linhagem que, impondo-se já então nos meios prestigiosos da Cidade Luz, tivera bem modesta génese, em meios como o do Bairro Alto lisboeta do século XVIII?! Um rebate me levou a aproximar o texto brunino do livro que nem sequer o cita; para mais assaz díspar no estilo e nas circunstâncias em que surgiu, como é A Invasão dos Judeus. Admitida a hipótese, porém, tenho hoje como assente que, mesmo que nada devesse à leitura de Bruno, o livro de Mário Saa nele poderia encontrar a perfeita epígrafe para uma das mais penetrantes tentativas de compreensão da nossa história moderna e contemporânea.

Faltaria à verdade se dissesse que, por minha vez, nada lhe fiquei a dever também, pelo menos no domínio da informação que prodigaliza e até de algumas ilações. A verdade, porém, é que chegara por mim a idêntica conclusão, ainda que interpretando de forma mais ampla e vaga o que Mário Saa explica, em termos categóricos, como obra judaica ou, antes, judaico-portuguesa. A distinção é importante, pois tem a ver com a tese de que os homens de nação acabaram por se fundir na sociedade onde se acolheram, mas como um elemento heterogéneo que, em vez de ser o fermento renovador, corrompeu o corpo social de que se assenhoreou.

No seu característico jeito polémico, julgo no entanto que demonstrou demais, visto o ascendente da comunidade judaica não poder explicar, por si só, a decadência da nobreza e do clero, que abriu via à subversão da escala dos valores sociais. Em todo o caso, julgo fecunda e pertinente, desde que corrigidos alguns exageros retóricos (para já não falar nas gralhas), uma abordagem que permite compreender o que, de outro modo, se não entende; em especial uma sanha destruidora da herança cultural e da estrutura social, que só por equívoco se atribuiu ao povo, de sua natureza conservador, ainda que fácil de iludir pelos demagogos. Se admitirmos, porém, que houve uma mudança dos detentores do poder, não só isso resulta lógico, como a notória desafeição do povo aos seus dirigentes e a consequente crise da identidade nacional.

A pulsão auto-destruidora, suicida, como diria D. Miguel de Unamuno, ganha foros de compreensível, apesar da sua insanidade, se admitirmos que a vida colectiva – do ponto de vista mental, económico e político – passou a ser dirigida por uma camada social marcada pelo ressentimento, cujas causas entretanto esqueceu ou ignora. A irracionalidade, já apontada por Basílio Teles, de muitas das decisões tomadas pelos dirigentes em certos momentos decisivos, resultaria, nesse caso, duma tão irreprimível como inconsciente atitude de retaliação contra os que teriam oprimido os seus antepassados. Com efeito, Mário Saa insiste na ideia de que nem os protagonistas teriam consciência das razões do seu procedimento, até porque se trataria de pessoas de todo desprendidas já da tradição religiosa e da pertença étnica.

Passado quase um século sobre o diagnóstico e ultrapassados os aspectos mais datados da argumentação, justo será reconhecer que o essencial da tese se mantém válido, se não foi mesmo reforçado pelo que nem o autor podia prever. Ele, que refere o sintomático projecto republicano de construir em Angola um estado judaico, não imaginaria talvez que passados cinquenta anos todos os territórios portugueses de além-mar, à excepção dos arquipélagos dos Açores e da Madeira, seriam alienados sem especial sobressalto da consciência política, aliviada por se libertar de um fardo incómodo e sobretudo incompreensível para os seus critérios. O que por certo não estranharia seria que, sucedendo-se os governos e os titulares dos órgãos políticos, económicos e culturais, tenha no entanto permanecido a directriz do combate aos valores cristãos; os quais o povo continua a prezar, não obstante o permanente desgaste a que são submetidos pelos meios de condicionamento social.

O que distingue um povo é precisamente a fidelidade a um sistema de valores, que ora é potenciado ora reprimido por quem domina as instituições, formais e informais, onde se concentram os meios de acção e de reacção social. É inegável que a relação dos portugueses com essas instituições e os seus detentores se alterou radicalmente nos dois últimos séculos. Não foi o povo que mudou, por certo.

Joaquim Domingues

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