AGOSTINHO DA SILVA EM SESIMBRA, 12

AGOSTINHO

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Três testemunhos pedagógicos

Calhou-me ficar nesta mesa sobre o tema da educação em Agostinho da Silva com duas pessoas que são autoridades sobre o assunto, cada um com a sua tese: o professor Manuel Patrício sobre a pedagogia em Leonardo Coimbra; e o professor Joaquim Domingues sobre a pedagogia em Álvaro Ribeiro.

Difícil a tarefa pois, porque não sendo eu uma autoridade sobre este assunto punha-se o problema de como poderia o meu discurso acrescentar alguma coisa que valesse a pena para este informado e esclarecido auditório. Talvez tirando partido do meu estatuto de indígena, e dando-lhe um carácter testemunhal, pudesse motivar algum interesse. Não que tenha sido um visitante assíduo na casa da Travessa do Abarracamento de Peniche, onde o filósofo bondosamente disponibilizava o seu tempo a quem lhe pedia. Mas os encontros que tive com o pedagogo assumiram tal ressonância no meu espírito, que se transformaram em marcos aos quais volto com frequência. Em qualquer desses encontros misturavam-se vários sentimentos contraditórios, entre a admiração do homem superior, a honra de estar na sua companhia, a sua simpatia, o agrado pela elevação dos seus pensamentos e o desconforto, a inquietação e a interrogação que provocavam o seu exemplo, as suas atitudes e a manifestação de algumas das suas preferências. Havia sempre implícita na conversa uma ligeira ironia; um convite à revolução, à mudança radical do indivíduo. Talvez por isso, com medo da vertigem, nunca arrisquei ser seu visitante, não fosse dar-se o caso de alguma loucura libertária acontecer.

Vou, portanto, contar três episódios à laia de testemunhos, e talvez a partir deles se possa decifrar algum método pedagógico implícito. Daquela pedagogia que nos faz ser seres humanos e não exclusivamente técnicos, como ele gostava de referir. Mas antes de passarmos a esses relatos gostaria de tornar claras duas coisas:

Primeira – agrada-me muito a ideia de que na palavra pedagogia está envolvido o conceito de extrair, como se o pedagogo fosse uma espécie de mineiro, que a golpes de cinzel descobre, iluminado pelas chispas produzidas, o diamante escondido, que o mesmo é dizer, com o filósofo, a tal estrela de ímpar brilho que cada um de nós é.

Segunda – a impiedade do tempo vai cumprindo a erosão, arrastando o pó sobre a sua memória, e afligia-me a ideia de, nalguma opinião pública, o filósofo ser apresentado um pouco como um velho louco e cómico que não deve ser levado a sério como se a sua existência fosse uma espécie de ornamento ou enfeite no banal decorrer da nossa vida burguesa. É estranha esta quase obrigatória necessidade de adormecimento em relação à profundidade dos seus pensamentos e às suas propostas de vida.

1º TESTEMUNHO

Visitante frequente de Sesimbra, Agostinho da Silva passou várias temporadas nos finais dos anos 70 aqui mesmo em frente neste conjunto de apartamentos designado por Bloco do Moinho.

“É aqui que mora um gato chamado Xarope?” Foi esta a primeira frase que ouvi ao Professor, quando um dia bateu à porta de nossa casa, um apartamento do mesmo Bloco, com a inocência, a ingenuidade e a franqueza própria das crianças que ficam como que hipnotizadas pelos bichos e os seguem por todo o lado, entrando em qualquer sítio, indiferentes às convivências sociais, com o único objectivo de se aproximarem e, quem sabe, talvez poderem fazer-lhes uma festa.

Também havia um cão lá em casa, mas não perguntou por ele ….

Se um adulto bate à porta de uma casa de pessoas crescidas, é para ir falar com elas, não é para saber onde mora um gato, não fica bem. Ainda por cima à procura de um animal que não é de fiar; que às vezes solta as suas unhas, perversamente escondidas, arranhando-nos, indiferente à nossa dor; que não nos obedece por norma; que só é sensível ao nosso chamamento se nós imitarmos aquele ruído ridículo do bch bch bch… não guarda a nossa casa, não nos defende em situações difíceis; e, quando quer festas ele próprio, trata do assunto, roçando-se em nós.

Não era, como puderam verificar, naquela altura um especial admirador de gatos.

O bicho tinha aparecido lá em casa por iniciativa da Leonor, que gosta de ter animais. Tínhamos casado há pouco tempo, e estávamos ainda no período de harmonização de vontades. O Xarope era uma delas, aceitei a sua presença como um desafio, tinha a vaga suspeita que era preciso vigiar algum estúpido preconceito da minha parte. Era um gato muito bonito, completamente preto, excepto nas patas, que eram completamente brancas. O bicho parecia que andava sempre calçado e dava pulos por tudo e por nada em jornadas de caça completamente inventadas.

O nome com que o baptizámos era aquele, porque simultaneamente era um remédio para as horas de tédio e também porque havia qualquer coisa de louco no gato.

O cão, pelo que se verificava e como tantas vezes o Professor expressou, não era, assim, o animal doméstico da sua preferência.

A ajuda do pastor na orientação e guarda dos rebanhos; a protecção do dono e dos seus bens em outras situações; a condução dos cegos; o acompanhamento e colaboração nas actividades de pesca e caça; a lealdade; a obediência, a submissão não eram decisivas para o levarem a preferir o cão ao gato.

Não me convencia que um homem, que era um declarado seguidor do franciscanismo de Joaquim de Flora, o da Idade do Espírito Santo[1], o dos que tratavam os lobos como irmãos, pudesse, como se fosse um capricho ligeiro, preferir um animal a outro animal. Haveria, pois, que levar o raciocínio mais longe e tentar perceber se não haveria nesta preferência alguma coisa que quisesse dizer sobre aquilo que desprezava ou admirava na condição humana.

O lobo é um animal que vê à noite, ou seja, que vê na mais absoluta escuridão, ou ainda humanamente, e de outro modo: que na maior adversidade não deixa de ter esperança.

Nessa irmandade com a natureza do Cavaleiro da Umbria, ficou mais conhecido por esse diálogo com o irmão lobo. Não um leão ou um leopardo, mas um lobo. Para além do carácter sobrenatural que envolveria uma conversa deste tipo, como facilmente se pode concluir, dois aspectos são especialmente relevantes: 1º a expressão de uma coragem sem limites do monge impassível na presença da fera; 2º o sentimento gregário de paridade expresso pela palavra irmão, pela comum insubmissão e obstinação guerreiras, atributos do bicho, e que só será possível entender como uma referência a um emblema espiritual.

Talvez, e também, nalguma adjectivação relativa a cada um dos animais pudéssemos descobrir alguma coisa. Podemos dizer sobre alguém que se comportou como um cão, e imediatamente temos o sentimento de diminuição, porque esse alguém rebaixou a sua condição humana por excesso de subserviência, ou porque se atolou na lama do mundo.

O cão, deste modo, ter-se-á afastado misteriosamente do seu pai natural, tendo perdido, pelo caminho, algumas qualidades e atributos que lhe conferiam nobreza.

Quanto ao termo gato, apenas se lhe reconhece alguma coisa de negativo no âmbito da magia, e associada à cor preta. Não me ocorre nenhum outro estigma de adjectivação; pelo contrário, a sua nomeação é sempre associada a qualidades: chamar gato ou gata a uma pessoa soa bem.

De um modo geral associado à natureza feminina, tem nele qualquer coisa de intocável, de dignidade esfíngica, o modo como se move, como pára e escuta, como toca o chão. E a elegância do corpo, quando se assanha, é reveladora de uma atenção fortíssima ao presente, que não é concentrada neste ou naquele sentido; antes é completa, envolvendo totalmente a sua presença. Outra coisa não seria de esperar de um caçador exímio.

Facilmente dizemos que é um animal doméstico (da casa); mais dificilmente dizemos que é domesticável; e é impossível dizermos que é subserviente ao seu dono.

Assim, e por comparação, dizíamos que o Professor Agostinho da Silva é um ser humano eventualmente doméstico, impossível de domesticar e de ter dono (humano). Atento como poucos ao presente. Tudo no momento lhe interessa, dir-se-ia um autêntico caçador da vida. Na Idade Média, se não fosse franciscano, seria com certeza cavaleiro templário aristocrata, com um felino rampante ou passante inscrito no brasão respectivo, A sua preferência e admiração pelos gatos ganha, por estas razões, uma dimensão claramente simbólica.

2º TESTEMUNHO

Em 9 de Outubro de 1981, no funeral do filósofo Álvaro Ribeiro.

Não se lhe conheciam muitas deslocações a funerais, dizia-se até na altura que aquele terá sido o único a que foi.

Tinha manifestado ao Rafael Monteiro o desejo de ir connosco, e fomo-lo buscar ao Príncipe Real. Entrou no carro muito bem-disposto e foi todo o caminho a conversar como se não tratasse de uma ocasião triste.

Num funeral, como mandam as convenções sociais, o ambiente deve ser pesado. O sofrimento pela despedida assim o exige. Agostinho, mais uma vez, contrariava uma regra, e, seguramente, não por desrespeito pela memória do defunto, visto que tinha aberto uma raríssima excepção na sua vida, ao deslocar-se àquela cerimónia.

Não se lhe conhecia uma convivência assídua com o filósofo Álvaro Ribeiro, nem tão pouco trocas epistolares. Teriam sido colegas na Faculdade de Letras do Porto e ambos alunos do filósofo e pedagogo Leonardo Coimbra, embora com percursos completamente diferentes. Conhecendo alguns aspectos das suas vidas ou das suas obras, dificilmente, e à primeira vista, encontraremos razão para que houvesse alguma forte comunhão que o levasse a esta atitude. Se num o verbo era fácil, no outro o verbo era difícil, se um era internacional, o outro era nacional, se um era nómada, o outro era sedentário, e por aí adiante.

Onde poderia estar, pois, essa tal comunhão? Seguramente não era pelo lado da alma, que é o do afecto que origina o sofrimento e a tristeza da perda. Então, só poderia ser pelo lado do espírito, que, neste caso, será mais completo dizer o Espírito Santo. Ambos dedicaram completamente as suas vidas à educação e à preocupação com o futuro da humanidade, quer seja pelo ensino por diferentes métodos pedagógicos, quer seja pela extensa obra escrita. Agostinho era irmão pelo espírito de Álvaro Ribeiro, e a sua discreta alegria seria, provavelmente, por considerar que Álvaro iria para uma melhor Vida.

Há pouco tempo, informaram-me que teria comentado com alguém o facto de ter sido avisado em sonho da morte do filósofo. Imagino pelo pouco que vislumbro que só quem viva verdadeiramente as virtudes da fé e da esperança poderá ter este tipo de comportamento.

3º TESTEMUNHO

Por ocasião do final do meu estágio pedagógico no ensino secundário, em 1988, ocorreu-me convidá-lo para uma intervenção na escola secundária de Sampaio. Era uma maneira de encerrar com chave de ouro. Pedi, para o efeito, a ajuda ao saudoso Rafael Monteiro, que estabeleceu o contacto, tendo o Professor acedido de imediato, e de muito bom grado. Havia da parte dele uma exigência permanente de divulgação, sem se poupar a esforços, animado da certeza de um apóstolo ou de um pregador.

A escola tinha acabado de ser criada e respirava-se um ambiente de frescura e vivacidade própria dos nascimentos. A presidente da comissão instaladora, a Prof. Maria do Carmo Serrote, sempre disponível para a inovação, aplaudiu a iniciativa, disponibilizando-se para preparar o que fosse preciso.

Quando chegaram o dia e a hora combinados, entrámos para a sala que nos estava destinada. Os alunos e os professores já tinham entrado e o espaço encontrava-se impecavelmente organizado, tal como estamos hoje aqui. Uma mesa para a comissão instaladora e palestrantes com um belíssimo ramo de flores a meio, em frente à assistência. A professora Maria do Carmo convidou-o para se sentar no lugar que lhe estava destinado. O professor olhou para o conjunto da mesa e agradeceu delicadamente, mas disse que preferia ficar de pé e de seguida começou a contar aquela história da descoberta da gravidade pelo Newton, enquanto passeava, e quando por acaso lhe caiu uma maçã na cabeça. A propósito deste episódio, de seguida passou a fazer a apologia do vadio e, naturalmente, da vadiagem.

Mais uma vez virou do avesso, fugiu à coisa preconcebida, e, só pelo facto de ter ficado de pé, desmanchou a geometria que estava organizada, e na sala soprou uma brisa de liberdade. Quando começou a fazer a defesa do estatuto do vadio a propósito de Newton, verificou-se uma enorme atenção dos alunos e um ligeiro mal-estar dos professores.

É claro que estava a falar de vadios especiais, ele próprio e os franciscanos incluídos, e a preparar terreno para depois introduzir uma magnífica palestra sobre o filósofo da sua predilecção: o nosso Espinosa.

Havia qualquer coisa de jogo e arte, de desconcerto e concerto nesta pedagogia. Vêm-me ao espírito os pescadores de Sesimbra a desembaraçarem os novelos de linha, as machuchas: Esticam a linha para ver onde está o nó, correndo o risco de o apertar, depois de o conhecer folgam o novelo para o desembaraçar. Os nós são os nossos preconceitos, o esticar e o folgar o método pedagógico, e o fio o fio luminoso das nossas almas.

Luís Paixão


 [1] …possible de parler d’une « situation herméneutique » commune, c’est-à-dire d’un « mode de comprendre » commun de part et d’autre, nonobstant la différence issue de la Révélation qorânique et d’autant plus riche en enseignement.

Ce qui anime la doctrine de l’Évangile éternel chez Joachim de Flore (1145-1202), le célèbre fondateur de l’Ordo florensis (S. Johannes in flore), c’est l’idée d’un développement de l’humanité qui est l’œuvre continue de l’Esprit-Saint et dont l’aboutissement final sera le règne du Paraclet annoncé dans l’Évangile de Jean. Le statut de l’homme au terme de ce processus réalise la parfaite liberté de l’Esprit, lequel résulte de l’amour éveillé par l’Esprit-Saint dans le cœur de l’homme131: désormais Adam n’est plus sous l’emprise satanique le portant à se décider «contre Dieu». S’il est vrai que, de siècle en siècle, la doctrine joachimite se fit sentir jusque dans la philosophie de la liberté professée par l’idéalisme allemand, il importe cependant d’éviter toute confusion. Le développement de I’ «histoire du salut» ne consiste nullement dans le développement d’un principe qui serait immanent à I’ histoire, progressant linéairement selon les lois de ce que l’on appelle aujourd’hui la «causalité historique». Loin de là, I’ histoire du salut ne se réalise que par l’intervention active et continue de l’Esprit-Saint, intervention créatrice qui chaque fois brise de nouveau le cours imposé aux choses par la volonté charnelle et l’ambition mondaine. Il ne s’agit pas d’une mutation naturelle amenant, par la disparition de ce qui précède, l’avènement du nouveau. II s’agit chaque fois d’une création de l’Esprit, et les créations de l’Esprit sont continuellement menacées par le monde, et la même la plus grave menace est celle d’une dégradation réduisant l’idée de cette création de l’Esprit à une simple puissance historique immanente au monde. C’est là même convertir la hiéro-histoire (nous dirions «I’ histoire dans le Malakût») en histoire profane, substituer à l’histoire intérieure une histoire objective, et c’est en cela que consiste en propre le processus de sécularisation ou laïcisation métaphysique (par élimination de la métaphysique). Ne peut s’accommoder de celle-ci l’idée que l’Esprit-Saint est a l’œuvre dans le cœur des hommes, comme nous avons vu que l’Imâm-Paraclet est à l’œuvre dans le cœur de ses fidèles.

Et cette œuvre, pour Joachim de Flore, s’inscrit dans le célèbre schéma qui divise I’ histoire du salut en trois époques, chacune portant le Sceau de l’une des personnes de la Trinité divine 132.i) La première est l’époque du «Père», celle de la révélation de la Loi, pendant laquelle s’affirme le péché de I’ homme, tandis que l’idéal de la perfection à venir de la Vita spiritualis s’annonce déjà dans quelques personnalités prototypiques comme le prophète Élie et Jean-Baptiste. 2) La seconde époque est l’époque du «Fils», celle de la révélation de la Rédemption; l’Homme se fait le «Fils de Dieu» et découvre l’affranchissement du péché. C’est l’époque où le type de l’homme spirituel est celui du clerc, ou mieux encore celui du moine tel que l’Église grecque byzantine en conçut l’idéal. 3) La troisième époque est celle de I’ «Esprit»; elle est marquée par l’avènement de I’ Ordre des Viri spirituales, les hommes spirituels en qui se révèle le caractère divin de la nature créatrice de l’homme. …

HENRY CORBIN – en islam iranien

aspects spirituels et philosophiques

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