TÉLMICA, 3

ATelmo_1995[na imagem: António Telmo no atelier de Carlos Aurélio, em Vila Viçosa, em 1995]

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António Telmo (1927-2010) e Vila Viçosa

«Negarei que sou cristão perante o galo
Que anuncia o renascer do meu corpo aflito?»
(A. Telmo: de um poema a Leibnitz)

«Entretanto há a Pátria. A Pátria somos todos, os que vivemos e, sobretudo, a cadeia invisível dos antepassados, essa enorme força da espécie que o Anjo marcou na sua génese com uma língua e um determinado sestro histórico, se não transcendente. Não é por acaso que se nasce português e misteriosas são as leis de afinidades pelas quais temos aquele Pai e esta Mãe, estes irmãos, esta mulher e estes filhos. Como é possível abandonar tudo e ficar só?»
(A. Telmo: in História Secreta de Portugal, p. 162)

Em Vida Conversável Agostinho da Silva põe como possível uma certa «teoria nova de se nascer» aventando ter ele nascido no céu das ideias ao ficar atento à rotação do globo terrestre que passava à sua frente, isto assim por escolha consciente e pré-natal no dizer de Platão citando o mito de Er. Quis portanto Agostinho nascer em Barca de Alva, última aldeia do Douro antes de Espanha mas, sendo difícil o cálculo matemático e rigoroso em assunto de acerto entre os corpos sidéreos em movimento como o são Céu e Terra, acabou dado à luz no Porto. Tudo se corrigiu e o erro logo foi reparado pois ao cabo de poucos meses já o infante balbuciava e crescia em Barca de Alva, lugarejo de rio em reflexo da foz do Douro, mais barco aproado ao Génesis ou ao alvor do mundo.

Creio bem possível esta «teoria nova de se nascer» e tenho por certa uma outra teoria, talvez intuição velha, sobre o morrer, pois sem darmos por isso e tal como fazem os elefantes já velhos, andamos boa parte do nosso existir em busca de sítio para morrermos, a acertarmos instintivamente a coisa ao invés, esta Terra com aquele Céu de onde viemos. Chamo-lhe teoria não por necessária demonstração mas por nela significar contemplação, talvez contemplação intuída desse lugar, porta ou portela que nos chama à inalienável passagem, ainda por cima para o que presumo vir a ser a verdadeira vida. Escrevo estas linhas poucos dias depois de António Telmo, escritor e filósofo tão assiduamente presente a Vila Viçosa, ter partido de entre nós.

António Telmo acertou o seu Céu com a Terra na vila fronteiriça de Almeida, na Rua do Convento, pelas duas horas da tarde de 2 de Maio de 1927; refez agora o novo acerto milimétrico e sidéreo entre Terra e Céu pelas nove horas de um sábado, a 21 de Agosto de 2010 no Hospital do Espírito Santo em Évora. Entretanto a infância fê-lo crescer em Angola, em Alter do Chão e em Arruda dos Vinhos, a juventude deu-lhe o mar de Sesimbra e o grande rio da vida em Lisboa, passando a Beja, a Évora e a Estremoz até que a Universidade de Brasília por Agostinho da Silva o chamou, vindo a seguir para Granada e o Alentejo de novo em Redondo e em Borba, por fim, Estremoz. Nunca viveu em Vila Viçosa mas Vila Viçosa muito viveu nele, pelo menos quarenta anos, metade do seu viver. Aqui conviveu e teve amigos, pensou e escreveu, para aqui vinha quase todos os dias como se do Café Framar avistasse o universo, ou então a sua Ilha de Passagem, camoneana e persa em seus três outeiros «Que de gramíneo esmalte se adornavam, / Na formosa Ilha, alegre e deleitosa. / Claras fontes e límpidas manavam/ Do cume, que a verdura tem viçosa.» (Os Lusíadas, IX, 54). Esta terra ou Ilha Viçosa foi talvez para ele um reflexo terreno do contínuo reencontro com as imagens virginais da sua infância e com a natureza, um lugar confessado da sua estima, uma terra propícia à sua tertúlia filosófica. De longínquos pontos do País e do mundo aqui veio gente para o ver e escutar em busca dessa névoa que o desconhecido tece, que o mistério faz ser e viver, aqui palpitou a saudade como ausência e presença do verdadeiro conhecimento ao modo de Pascoaes, interpretando operativamente Camões e Pessoa, interpelando cada conviva em seu acerto entre Terra e Céu. Parecido com isto só no Café Águias d’Ouro em Estremoz.

Se a consciência da Filosofia Portuguesa enraizou em Sampaio Bruno (1857-1915) e depois aflorou pujante em Leonardo Coimbra (1883-1936), foi todavia só com Álvaro Ribeiro (1905-1981) e José Marinho (1904-1975) que se fundamentou em teses e obra que os discípulos continuaram. António Telmo é veio desse rio e ramo dessa árvore espiritual. Desde os seus 22 anos que participou em Lisboa no grupo da Filosofia Portuguesa fundado pelos portuenses Álvaro e Marinho na senda da Revista Águia e da Renascença Portuguesa, erguidas por Leonardo e Junqueiro, Pascoaes e Pessoa, passando por José Régio ou Agostinho da Silva, Almada Negreiros ou Eudoro de Sousa. Nessa tertúlia, fundada na década de quarenta do século passado, se iniciou o 57, movimento filosófico e cultural, e nele despontou o então novel filósofo António Telmo. Outros condiscípulos aí se confirmaram como Orlando Vitorino, seu irmão (1922-2003), António Quadros (1923-1993), Afonso Botelho (1919-1996), Pinharanda Gomes (1939) e outros. A cepa é vigorosa, a ramagem a cobre.

António Telmo, discípulo de Álvaro Ribeiro e de José Marinho, também convivente próximo, profundo e prolongado quer com o poeta austríaco Max Hölzer, quer com o pensador ousado que foi Agostinho da Silva, investigador de correspondências outras com Fiama Hasse Pais Brandão, Natália Correia ou com o cabalista inglês Z’ev ben Shimon Halevi, abriu por si mesmo uma senda particular no pensamento português e na espiritualidade pátria. Pela simbólica da pedra esculpida no Mosteiro dos Jerónimos, pela hermenêutica em Camões e n’Os Lusíadas, pela via iniciática de Pessoa e da Mensagem, pelas sombras de luz na saudade de Teixeira de Pascoaes, sempre o seu labor foi profícuo, o seu pensamento lúcido, as intuições clarividentes, sempre surgiu criador porque em saudável expectativa ao pulsar da portugalidade, à semente imperecível do espírito entre os homens. Fez de si mesmo a vida poética de que tanto falava, e nela traduzia a expressão particular e inalienável de cada um com Deus, por ela se nutria a liberdade movente da alma, no seu caso aberta ao corpo transcendente de Portugal, à inquietação das ideias, ao mundo do espírito. Para António Telmo «a essência cindida da existência é um puro fantasma», um idealismo vazio, uma abstracção insituada e sem sentido. Daí a importância da literalidade, do corpo, da alma medianeira e sensitiva em cujo centro se pode alterar a natureza das emoções, da luz que já é conhecimento e porta do inteligível. A sua vida e a sua obra são metáforas mútuas, reflexos similares da mesma alma inquieta por Deus e por Portugal, a sua criatividade é fértil porque exposta à expectativa do espírito, ao espanto de se estar vivo. Na sua obra está a sua vida, não por solipsismo narcísico mas por verdadeira recriação que só pela imaginação se revela e exprime: Tomé Natanael é António Telmo, não às avessas, mas por corolário das mesmas letras que o refazem espiritualmente no acerto da sua Terra com o seu Céu.

Nestes dias depois da porta ou da passagem da qual nada sabemos conviriam certamente considerações ponderadas e sóbrias sobre este homem extraordinário que passou por Vila Viçosa. Passou por aqui quarenta anos, sempre perto e também ao largo, como se faz à volta de uma Ilha que se encobre sem nunca se alcançar, assim um cometa que nos foge enquanto brilha. Cá veio, pois, sempre como navegante em viagem sem fixação possível no acto de quem busca. Aqui o vimos ora a escrever ou a conversar no Café, ora no bilhar ou a jogar à malha, ou então em filosofia peripatética ao modo do Liceu de Aristóteles dando longos passeios com os amigos pela Vila, pelo Castelo, pelos campos circundantes. Quantas páginas de si aqui terá escrito? Muitas, comprovadas e certas, e aqui viveu pois sem que morasse, como vivem aliás os exilados do espírito que a saudade não lhes dá chão firme. Vila Viçosa, ele que tantas vezes confessadamente a admirou em seu esplendor aberto e urbano e em sua delicada luz, Vila Viçosa terá sido neste seu mundo um dos reflexos encantatórios da Ilha, um catalizador e um apelo dos que buscam entre os homens a nudez infantil do V Império ou, como um dia disse, olhando a neblina e uma serrania de Sesimbra: «Foi na Serra da Achada / Que julguei ter-me perdido / Quem se ganha não é nada / Disse-me Deus ao ouvido». Neste vai-e-vem entre a sua casa e esta Ilha Viçosa nunca ganhou nada no sentido vulgar que o mundo dá ao sucesso e à fama. Apenas se perdeu para que Deus o achasse.

Por Agostinho da Silva «a teoria nova de se nascer» diz-nos onde e quando entramos no mundo para nos ser dada a liberdade de nos perdermos, por António Telmo se faz o regresso à Terra Prometida até nos reencontrarmos, assim o Êxodo dos judeus errantes ao longo de quarenta anos como sina ou Sinai. Arruda deu-lhe a infância na arte da fisga no exímio caçador que veio a ser, Sesimbra a juventude, o mar e a Ilha sonhada, Estremoz a maturidade do pensador que tanto caçou e amou as aves e os céus. Em Vila Viçosa, qual síntese onírica de uma obra sempre a refazer, sobrou-lhe a idade do tempo imponderável, esse que não tem conta nem medida. Daqui, muito avistou do eterno.

Tudo será símbolo pelos olhos dos deuses se sempre houver amor a decifrar. Na véspera da sua partida e neste Agosto de acerto com o Céu, “calhou” que eu tivesse passado toda uma tarde até ao crepúsculo na praia frente à Ilha do Pessegueiro, em Porto Covo. Lá, muito me lembrei do António Telmo que sabia já gravemente doente, enquanto os meus sobrinhos, divertidos, davam piruetas e faziam o pino copiando ginastas ou artistas de circo. Entretanto, e em desconhecimento mútuo, o nosso comum amigo Hélder Cortes estava na mesma praia e até a Ilha do Pessegueiro visitou, montando, ele e a filha, um barco que afinal era um cisne branco que de longe avistei. Tudo isto, assim dito, pode sugerir devaneio ou fantasia infantil e, todavia, quanta possibilidade haveria a conversar com o António Telmo em passeio ou em tertúlia de Café! Vem-me à lembrança, talvez ao coração ou à recordação, toda a hermenêutica camoneana do António Telmo, desde os gestos iniciáticos dos cisnes na «Ilha angélica pintada» dados na iluminura persa do seu Desembarque dos Maniqueus, até ao «pomo que da pátria Pérsia veio» e que pelos Lusíadas sabemos significar o fruto do pessegueiro. Será fantasia, jogo forçado ou simplesmente uma subtil convergência de almas? Falamos aqui de vera imaginação e de fraternidade espiritual. A outros amigos, outros fios foram dados. A Ilha!

Por mim pouco sei mas dei-me a estas considerações em busca do porto covo, cavo ou fundo, desse seu ponto particular de acerto entre Terra e Céu de onde o António Telmo embarcou às nove horas da manhã seguinte. Sei que aqui estaria assunto sério sem nunca ser mórbido, vivo sem cair na superficialidade, tema de sábia conversa a ter com ele numa das mesas do Café Framar, na esplanada da Mata, em passeio por Vila Viçosa, ou mesmo entre amigos no meu Atelier. Estou certo que o mistério seria sondado com ousadia e delicadeza, o pensamento viria como flecha, ou não fosse o António Telmo o filósofo aberto à liberdade, mesmo correndo o risco do erro, acaso nos propuséssemos apontar ao alvo, sabendo que sem alvo perde sentido toda a pontaria. Certa vez escreveu que uma das primeiras histórias que ouvira em criança «era a de um atirador de arco que, ao ir apanhar a única seta perdida para além do alvo, deparou com uma paisagem maravilhosa». Nessa paisagem agora estará, achado depois de perdido, com Deus a falar-lhe ao ouvido. Com ele imagino a Elba, o Mondego, o Nilo, todos os seus cães que já foram, que um dia me disse vir a encontrá-los depois de partir, estrada adiante. E também lá suponho o Álvaro e o Marinho, o Orlando e o Agostinho, o próprio Camões e até o Veloso, o nauta da Ilha dos Amores pintada. Sempre a Ilha!

Dou graças à vida pelo filósofo admirável e pelo amigo generoso, ele que por Florbela, por Pousão e por tudo o resto me falou da gratidão que a minha alma deveria a este meu acerto entre Céu e Terra, por ter nascido em Vila Viçosa. Aqui somos.

Recordo outra vez os meus sobrinhos a fazerem o pino frente à Ilha do Pessegueiro, com as mãos abertas a vincarem a areia, as pernas levantadas e os pés no céu ao modo do que escreveu Leonardo Coimbra sobre a metanóia da posição invertida dos ginastas, ele que tudo fazia depender da transcendência. Imagino o António Telmo com a sua fisga: um ípsilon na mão, não sei se vejo o pino de um ginasta com os pés no Céu, se um Cristo de braços abertos na Terra.

Muito te agradeço, António, ao rapazinho de Arruda e de Sesimbra tão exímio com a fisga, mais ainda ao filósofo que em Vila Viçosa e com tanta pontaria vi acertar nas janelinhas do Céu. Graças a Deus.

Carlos Aurélio, 31 de Agosto de 2010

Arte Poética, Guimarães Editora, 1963; reedição em 1993.
História Secreta de Portugal, Editorial Vega, 1977.
Gramática Secreta da Língua Portuguesa, Guimarães Editora, 1981.
Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões, Guimarães Editora, 1982.
Filosofia e Kabbalah, Guimarães Editora, 1989.
O Bateleur, Átrio, 1992.
O Horóscopo de Portugal, Guimarães Editora, 1997.
Contos, Aríon, 1999.
O Mistério de Portugal na História e n’Os Lusíadas, Ésquilo, 2004.
Viagem a Granada, Fundação Lusíada, 2005.
Congeminações de um Neopitagórico, Al-Barzakh, 2006; Zéfiro, 2009.
Contos Secretos, Editora Tartaruga, 2007.
A Hora de Anjos Haver, (Poemas), Porto, 2007.
A Verdade do Amor, (Teatro) seguido de Adoração (L. Coimbra), Zéfiro, 2008.
Luís de Camões (Obras Completas vol.1), Al-Barzakh, 2010.
O Portugal de António Telmo, Guimarães Editora, 2010.

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Uma resposta a TÉLMICA, 3

  1. Que bela pintura. Só podia ter sido escrita por um pintor.

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