PROJECTO

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A quem chega, esfomeado de sol que não seja apenas uma entidade de cálculo astronáutico; de mar que não seja somente o das velhas imagens de cinza e chumbo; de céu que não evoque fatalmente todos os pessimismos prognósticos de uma poluição em que a humanidade se suicide; a quem vem de todos os medíocres países humanos cujo ideal mais alto parece ser o de constituírem um mercado comum que, dados os pontos fundamentais em que assenta não será mais do que um supermercado de excesso de produção e de consumo em que o que vale é o dinheiro de que cada um dispõe e não a fome que tem para satisfazer; aos que atravessam os Pirinéus, não com as incomodidades e os desastres de quem, por não ser rei em terra própria, vai ser na alheia escravo, mas com os confortos que mais rápida do que lentamente lhes estão destruindo a alma, pelo pecado mortal de ter sempre mais do que precisam e menos do que desejam; a esses tais, indo-europeus, brancos e pragmáticos, que dominaram o mundo e cujo afã é o de organizarem o trabalho de tal modo que ele os obrigue a trabalhar mais; àqueles que estão inquietos pela existência de nações em que ainda o indivíduo existe, as atraem a seu supermercado e já tentam a Espanha, e em que apesar dos desesperos se espera que volte o Rei Artur ou O de Alcácer; a esses todos oferece Sesimbra sol, céu e mar; que os ilumine, os proteja, os embale.

Homem, porém, nunca pode ser grande na medida em que recebe; as ascensões se fazem pelas curvas da dádiva, e pouco dão do que vale os que apenas nos deixam suas moedas fortes; porque isso neles não é dar, é desembaraçar-se do que, bem sabem no fundo, os está destruindo; de seus bolsos o tiram, não de si mesmos; e o que deles fica entra muito bem numa estatística dum país que recebe, o que não é a mesma coisa que uma estatística de país que ganha; cada dólar turístico é preço de uma nação que se vende; abaixa os dois termos da troca; e o que fica quando fica, de comércio feito, é apenas o que pode ter havido de realmente divino no puro humano que é seu aspecto exterior; no caminhante que chega alguma lembrança daquele São Francisco que reinventou o ser itinerante, percorreu com alegria a inteira Itália e ainda tentou converter o maometano, descobrindo no fundo de si próprio que o catequista que de Deus vem só tem de operar uma real conversão, a de si próprio àquilo que diz ser; no sedentário que o recebe, o que por dinheiro se não deu, aquele acolhimento que não obedece a políticas económicas e sobrevive neste nosso povo português apesar de tanta tentação de ser fechado, defensivo e duro; mas ignorar o Diabo é talvez o único ponto luminoso que se pode descortinar na ignorância; os outros sabem tanto que nem ao Diabo desconhecem; mas pescador, lojista, empregado de Sesimbra tanto não sabe do que não vale e tanto é o que importa que as artes demoníacas, no pior, se lhe escapam.

Creio, no entanto, que estamos ou entramos num tempo em que se tem de ir para além do franciscanismo; ou, se franciscanos temos de continuar, atentemos em dois pontos essenciais: seja o primeiro de que só vale ser franciscano quando o franciscanismo é voluntário, não se esquecendo que o pregador inicial e seus primeiros amigos ricos eram, fartos de sua riqueza, e que nenhuma santidade vem de se ter falta, mas decorre toda ela de um sentido excesso; seja o segundo o de que São Francisco, além do Santo que a Igreja a si tomou e com que Portugal tentou santificar o mundo a seus discípulos levando nos primeiros navios, era poeta, tanto nas imaginações de sua vida quanto nos versos que cantou, e que, inventando o presépio, pôs a claro que valor máximo para ele era o da criança, que toda nasce poeta e que o mundo a quase toda a gente mata como poeta, pronto, porém, a celebrar, mas já bem morto, seguramente enterrado, inofensivamente desfeito em cinza, o que, afrontando-o, a ele mundo, sua infância salvou, para escarmento e exemplo de adultos. A que tempo dizíamos então que estamos pelos menos entrando? Pois a um em que o mais importante de toda a santidade seja a poesia que nela há. Deus se mostrou na história do mundo já poderoso e já piedoso; já organizou cidades e já consolou os que choravam de haver cidades; já constituiu o direito romano e esteve nas prisões construídas pelo direito romano; já foi Jeová e já foi Jesus; creio que está agora de novo examinando sua obra, achando bom o que fez, apesar de todas as linhas tortas que os homens, instrumento e fim de Deus, em seus textos descobrem, e parecendo-lhe que se ruma a outro capítulo: que só agora verdadeiramente as trevas se vão separar da luz; que só agora ao homem se vai comunicar o pleno dom da criação; que todos vão poder ser poetas, acrescentando beleza à beleza do mundo. E que nisso Portugal, redivivo, resgatado para sempre Alcácer, reencontrado Dom Sebastião não num Messias salvador, mas no homem que todos morremos na batalha, tem papel de guia, de condutor do mundo, de moço de cego de todas essas nações que nada vêem; utópico sonho? Oxalá o seja, pois, como já se disse, “amanhã é dos loucos de hoje”; melhor, além de tudo, que só o manter fazendo prudentemente suas continhas de fim de mês ou só o ver, para o futuro, como nova encarnação da Dinamarca, de que já há uma; pelo menos uma, tão descuidado vai o mundo de ser monótono e sem esperança.

Portugal, porém, é grande demais, e se pensamos em Portugal, e no que tem a fazer, acabamos por lhe entregar como tarefa aquilo de que nós outros nos deveríamos encarregar. Vai, pois, o meu discurso, não àquele Portugal, e só esse vale a pena considerar, que inclui Corumbá na fronteira da Bolívia e Macau na fronteira da China, Lourenço Marques na fronteira da segregação e Chaves naquela fronteira que traçaram políticos esquecendo-se do preceito de que não separem os homens o que Deus juntou, mas ao Portugal que se concentra em Sesimbra, que em Sesimbra tem seu perfeito resumo com litoral de alcantil e praia, com seu castelo e seu porto, suas encostas e seus plainos, seus ocres e seus verdes, seu arreigamento no concreto e sua pronta partida para as nuvens, e que, dentro de Sesimbra, é ainda rijo núcleo em meus amigos de pesca ou pensamento, de mar ou alto, esses tais grandes em que o entusiasmo significa estar calmo e o cepticismo quer dizer, etimologicamente, não se cansar da busca. Para lhes dizer que estrangeiro que chega não tem apenas de deixar dinheiro para o orçamento da nação, mas de contribuir com o que sabe – e muito se sabe para além-Pirinéus, muito se ignora dos Pirinéus para cá – para que possamos viver um dia numa nação sem orçamento; para lhes dizer que em Sesimbra devem surgir os primeiros núcleos em que o poder de criação que está oculto em Portugal desde o século XV desperte, ganhe forças e ajude a tirar Europa e América dos becos em que se meteram, os de se julgarem superiores, e ajude a tirar pretos, amarelos e vermelhos dos outros becos, os de se julgarem inferiores, em que a ciência volte a ser humana e de todos, como nas caravelas o foi; para lhes dizer que tem Sesimbra de pensar em que nunca mais portugueses deixem sua terra, a não ser por franciscanamente o quererem, e que, fazendo-o, não apareçam em Paris ou Los Angeles como os escravos que deles fazem os homens, mas com a fidalguia que Deus lhes deu ao nascerem. Que Sesimbra e os Amigos acordem e aprendam com quem vem e tem obrigação de ensinar o muito que ainda têm, temos de aprender; que despertem e insuflem na sensatez do mundo a loucura que lhe falta e exorcismem de vez as múmias da prudência, da sabedoria linfática e do deixa estar como está para ver como fica; e que, ressuscitados eles próprios, passem a fazer de todo o emigrante um missionário, o missionário daquela missão de tornar fraterno o mundo que Portugal não cumpriu outrora, peado como se encontrou por uma Igreja que só o Vaticano II passou a ver como história; por um sistema económico que só o socialismo liberal poderá mitigar e só a automação lançará também aos armazéns do passado; por um sistema político, o dos Césares de Roma, que só verdadeiramente poderá desaparecer do mundo quando renunciar cada homem a ser ele próprio, em sonho ou realidade, dentro de sua casa ou de sua nação, para seu empregado ou para seu cão, César pior que o de Roma.

Agostinho da Silva

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