SOBRE ÁLVARO RIBEIRO, 4

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Apresentação de Álvaro Ribeiro aos Sesimbrenses*

Compreende-se que a organização desta homenagem a Álvaro Ribeiro me tenha escolhido a mim para fazer a sua apresentação, isto é, para tornar o filósofo presente entre nós como um ser vivente e não como forma abstracta de pensamento. Compreende-se, porque de todos os que aqui vêm falar sobre ele e que com ele conviveram eu sou o mais antigo, aquele que durante muitos anos privou com ele e que sempre o procurou seguir em tudo quanto escreveu, embora por caminhos próprios, que não quer dizer que sejam os melhores.

Álvaro Ribeiro é (com Agostinho da Silva) o mais notável discípulo de Leonardo Coimbra. Não o mais notado. O mais notado, embora também notável, é Agostinho da Silva, já um dia homenageado nesta mesma sala. A sua vida decorreu obscura, repartida entre o modesto trabalho de ganha-pão e o estudo, isto é, o desejo que realmente importa satisfazer um dia. Exprimo-me assim, porque estudo, do latim studium, significa o desejo por excelência.

Não tinha o dom da palavra oral, talvez por ser tímido, talvez por ter sido perturbado no sentimento de segurança e de confiança nos seus próximos durante a adolescência, enquanto viveu aprisionado num colégio de padres em França. Dizemo-lo porque o lemos num dos volumes do seu livro Memórias de um Letrado. Mas o que vamos contar e que mostra a extraordinária inteligência que a sua timidez escondia não foi ele que no-lo disse, mas outro discípulo sublime de Leonardo Coimbra, José Marinho. O episódio revela ao mesmo tempo a presciência de Leonardo Coimbra e já diremos ou se verá porquê.

No último exame do seu Curso na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, apresentou-se perante um júri formado por Leonardo como presidente e dois outros professores que não podemos identificar. Durante o interrogatório feito por Leonardo Coimbra, o jovem estudante praticamente pouco disse. Não encontrava as palavras para o seu pensamento, hesitava, tartamudeava, fazia gestos.

Terminado o exame, os três professores conferenciaram, apresentando uns aos outros as respectivas classificações. Duas notas eram, como seria de esperar, negativas e aqueles que as atribuíram nem queriam acreditar quando Leonardo Coimbra lhes comunicou que tinha dado vinte valores.

– Vinte valores!, exclamaram eles. – Mas o rapaz não disse praticamente nada!

E Leonardo Coimbra:

– Não o disse com palavras. E então os gestos?

A verdade é que estava ali a ser julgado um dos maiores pensadores de todos os tempos. Leonardo Coimbra foi quem soube classificar.

Conheci o Álvaro Ribeiro junto ao elevador do Lavra, no Largo da Anunciada, em Lisboa. Subia-se por ali até ao Campo dos Mártires da Pátria. Se soubermos estar atentos, e temos a obrigação de estarmos sempre atentos, verificaremos sem dúvida que o primeiro encontro entre duas pessoas que virá a ser muito importante e até decisivo para ambas, seja um homem e uma mulher que virão a pertencer-se como marido e esposa, sejam dois homens dos quais um deles abrirá ao outro o caminho de união com o conhecimento de Deus são encontros sempre acompanhados de circunstâncias que se podem e devem interpretar como símbolos. Encontrei-me pela primeira vez com o Álvaro Ribeiro no Largo da Anunciada e daí ascendemos até ao Campo dos Mártires da Pátria. Não é difícil ver a significação destas circunstâncias.

O Largo era o da Anunciada, ao anoitecer daquele dia e também do mundo.

Eu ia com o meu irmão mais velho, o Orlando Vitorino, que muitos de vocês conheceram, e foi ele que me apresentou o grande pensador, em cuja tertúlia militava.

Não me estendeu a mão. Acenou levemente com a cabeça cumprimentando-me. Não me prestou a mínima atenção enquanto subíamos no elevador. E lá em cima, depois de uma acesa conversa com o meu irmão, despediu-se igualmente com um ligeiro aceno da cabeça.

Eu sabia que estava ali um dos homens mais inteligentes de Portugal. Fiquei triste pela indiferença que mostrou comigo, mas no fundo de mim continuei imperturbado, pois era dali, desse fundo do meu ser que eu contemplava a estrela sobrenatural que nos conduz a todos na Estrada Régia.

Três dias depois, entrei na Brasileira do Rossio, um café de gente perdida onde Álvaro Ribeiro tinha o seu Liceu Aristotélico de filosofia portuguesa. O filósofo estava sentado a uma mesa a olhar. Nesse tempo ainda se podia olhar imaginando o infinito (exercício que se recomenda), porque estávamos livres desses pequenos écrans ruidosos que se interpõem entre nós e o mundo (de Deus) verdadeiramente real.

Para meu espanto, minha surpresa e minha alegria fez um gesto chamando-me para a sua mesa. Tinha-me reconhecido!

E ainda foi maior o meu assombro quando me tratou pelo meu próprio nome. Assim que me sentei e após um curto silêncio perguntou-me: “O António Telmo o que é que acha que é a imaginação?”

Reflecti e disse: “Bem. Nós olhamos para o que está à nossa volta. Recolhemos a imagem de um objecto, de um ser no nosso espírito e, se somos imaginativos, transformamos essa imagem, tornamo-la significativa de uma ideia, fazemos com ela um poema.”

Sorriu com agrado e pôs em mim aquilo que viria a ser o germe de tudo quanto escrevi, pensei e vivi até hoje:

“Não é exactamente isso. A imaginação não é isso. A imaginação cria o seu próprio mundo, é senhora do seu próprio mundo, não depende do mundo sensível, do mundo que nos rodeia. Não é o mundo sensível que a produz, servindo-lhe de base. É ela que faz que haja o mundo sensível.”

Foi sobretudo esta última frase que se apoderou da minha inteligência e não a deixou mais sossegar. É a imaginação que faz que haja o mundo sensível. Como é isto? Perguntava-me. Até onde terei de ir em viagem da alma para compreender isto?

Nessa manhã, ele disse-me ainda:

“Quando tirar a licenciatura (anda na Universidade, não anda?) lembre-se sempre de que António Telmo há só um e que o título de doutor é como uma alcunha que se põe a muita gente. Há quem tenha vaidade em ser doutor e daí se segue que nunca procurará conhecer-se a si próprio, conhecer o ser que tem o seu nome e não outro, conhecer-se ali onde o seu espírito procura não ser dominado pela sua imaginação, mas fazer dela o seu trono.”

Foi assim que fui recebido como aprendiz de filosofia no Liceu que funcionava na Brasileira do Rossio.

Mas eu não venho aqui falar de mim e, se falei, foi porque, através de mim, mostrei o que num homem superior é o amor ao próximo. Não me propus traçar a biografia do grande pensador, mas, já que fui convidado pelos organizadores desta comemoração para dizer algumas palavras sobretudo àqueles que de Álvaro Ribeiro só conhecem o nome, contarei ainda um acontecimento da sua vida em que de novo se revela o seu amor ao próximo, desta vez não do mestre para o futuro discípulo, mas do filho para a mãe.

Ele via a mãe como uma pessoa angélica e pura. Aliás, o nome de sua mãe dava-lhe razão. Chamava-se Angelina Cândida.

Um dia, em consequência de um abalo interior a que os médicos chamam, não sei se com propriedade, um acidente cárdio-vascular, esta senhora perdeu a língua portuguesa. Eu digo perdeu a língua portuguesa, porque continuou a falar sem a mínima falha a língua francesa que tinha aprendido e praticado durante uma longa estadia em França. A ser verdade que a memória de uma língua está localizada nos neurónios do cérebro como num computador, a rotura vascular foi de uma precisão cirúrgica. Digo isto ironicamente. Quem leu Álvaro Ribeiro sabe que ele não aceitava a hipótese que localiza o pensamento no cérebro e, portanto, também não uma língua, pois ela é essencialmente pensamento.

Sentou-se na cama ao pé da mãe e começou a ensinar-lhe a língua portuguesa. O B a Ba. Durou muitos dias o ensino, mas por fim a língua portuguesa foi recuperada, regressou ao seu trono naquela alma. Só por má vontade não se vê neste acontecimento um sinal de que o pensamento, como o filósofo asseverava, é inlocalizável na matéria. Não há órgãos da fala, repetia ele baseando-se nas mais recentes descobertas da filologia e da fisiologia. Não há órgãos da fala. Do mesmo modo que os joelhos não se fizeram para rezar e as mãos para tocar piano, assim os órgãos pelos quais comemos, bebemos e respiramos não se fizeram para falar.

Álvaro Ribeiro pensou e escreveu numa época em que já se preparava, nos meios culturais, a integração de Portugal na Europa e a consequente servidão que, a pretexto de uma necessitação económica, invadisse todos os domínios de influência popular. Ao postular a existência de uma filosofia portuguesa, ao proclamar que um povo que não pensa por si próprio perde fatalmente a soberania, que a soberania só por extensão reside no poder do dinheiro, que reside sim sobretudo no poder da inteligência e da imaginação, suscitou contra si o ódio dos bem pensantes do país que tudo fizeram para que o seu nome fosse apagado.

Estamos aqui hoje, passados quase setenta anos sobre a publicação d’ O Problema da Filosofia Portuguesa, livro que abriu a estrada para o que é a verdadeira liberdade de pensamento, que é o pensar por si próprio. Passados quase setenta anos, todos começámos a ver que só pelo Espírito que, como disse Camões, os pescadores têm por Santo será possível levantar a Pátria do chão.

Foi com uma secreta intenção que, de entre o muito que conheci da vida de Álvaro Ribeiro, escolhi três acontecimentos apenas. Três e não mais e também não menos. O número necessário para que do silogismo não se decaia na estatística.

O primeiro episódio é o da relação do discípulo com o mestre, isto é, de Álvaro Ribeiro com Leonardo Coimbra; o segundo episódio é o dele, enquanto Mestre, com o seu discípulo; o terceiro episódio é o da sua relação com a Mãe.

Nos três há isto de comum: a relação do filósofo com a língua portuguesa. E o facto de essa relação ter sido tão difícil no plano da oralidade é o que certamente explica que o pensador, fazendo de uma fraqueza uma força, fizesse passar o pensamento pela filologia para que, através dela, se tornasse filosofia, filosofia que é um esplendor da ideia.

Então, para ele, tudo quanto existe, e tudo quanto é, é a criação ou, se preferirdes, a manifestação de uma palavra original e que é luz e vida e que está com Deus no princípio dos princípios, no que em todos os começos é começo. Por isso mesmo, se compreendermos com a profundidade e o respeito e a exactidão que nasce de uma imaginação disciplinada pela arte, se compreendermos só que seja uma língua e essa língua é antes de tudo o mais a nossa, poderemos ver como todo o universo é uma maravilhosa organização sintáctica, em que as formas manifestadas são na relação dos verbos com substantivos e adjectivos, dotados de energias vibrando múltiplas como fonemas no som primordial. O homem é uma palavra, com os seus predicados próprios, a mulher outra palavra de superior predicação, o amor é o verbo que se conjuga pela imaginação infinita de um e de outro. Este exemplo basta, se não é o mais importante, para que utilizemos ao falar e ao escrever e sobretudo ao pensar as palavras fundadas na etimologia que é a de cada uma e, sem desviar das leis de Deus tais como se manifestam na Natureza, levantar de raiz a árvore da imaginação humana pela arte de poetar e pela arte de filosofar, isto é em suma, pela arte de amar.

Há um livro de Oscar Wilde que tem por título A Importância de se Chamar Ernesto. Falou-me Álvaro Ribeiro, quando o ouvi pela primeira vez, da importância de me chamar António Telmo. Direi agora da importância de se chamar Álvaro Ribeiro.

Quem nasce recebe um nome. Apresentar, segundo o uso social, consiste em dizer o nome da pessoa que se apresenta a outra pessoa ou a outras pessoas que também estão presentes. Álvaro Ribeiro não está aqui presente em corpo. Juntaremos ao seu corpo o que ele significa, ele esse nome, para começarmos a ter o filósofo presente em espírito.

Diz-se popularmente que “é pior enganar-se no nome do que na pessoa”. É que o nome em princípio representa a essência sobrenatural do indivíduo, pelo sacramento do baptismo lançado no mundo para se desenvolver naturalmente. Emprego a palavra “desenvolver” no sentido que Fernando Pessoa pensou para o poema Iniciação.

O nome exemplar é o de Wolfgang Goethe. Poderíamos também lembrar os irmãos Lumière que puseram pelo cinema as fotografias em movimento, ou Bell, o inventor do telefone. Mas com o nome de Goethe descemos mais fundo. O autor do Fausto sabia, através de Herder, que lhe serviu de modelo para a criação de Mefistófeles, que o seu salto do lobo (Wolfgang) ligava sobre o abismo pelas cores a treva e a luz. Herder brincava com os fonemas de Goethe, Goetia e Gott.

Devemos, pois, sempre que nos propomos tornar conhecido um autor, alguém que conseguiu ser ele próprio, começar por imaginar no seu nome. Alvaro Ribeiro escrevia assim mesmo o seu nome de autor, sem acento na primeira sílaba da esdrúxula Álvaro, para que a ideia de luz nascente, de alva, de alvor, de alvorada e de alvoroço fosse a enteléquia da corrente filosófica capaz de remover os portugueses, do ribeiro ao rio e do rio ao mar, ligando-os de novo ao seu destino atlântico.

Eis, por este caminho, que não sou eu, mas o filósofo que se apresenta a si próprio. Em vários momentos dos seus livros, ele dá a inquietação como o estado de alma próprio de quem cultiva “a ciência que se procura”, desde que essa inquietação se revista da forma do alvoroço.

Assim, por exemplo, em Apologia e Filosofia: “Quem for dotado daquele senso linguístico que caracteriza os verdadeiros poetas, saberá que muitas palavras portuguesas, como, por exemplo, saudade e alvoroço representam vivências fundamentais que, fenomenologicamente estudadas, abrem caminho para noções ou estimulam a peculiaridade do nosso pensar.”

De alva ou alba e alvor, antes de chegarmos a alvorada, alvoroço e alvorecer, podemos, por movimento de letras, chegar a um feixe de noções vivenciais como valor, lavor e louvar que encaminham o espírito para ora et labora, famoso preceito de alquimia. O ORA ET LABORA poderia figurar como a legenda do brasão de Alvaro Ribeiro, se nestes tempos do fim ainda persistisse a tradição de ser conferida nobreza a quem se distingue na guerra santa da filosofia.

António Telmo

 * Comunicação apresentada ao Colóquio A Filosofia Portuguesa de Álvaro Ribeiro, realizado em 5 e 6 de Março de 2005, no Auditório Conde de Ferreira, em Sesimbra, e publicada em Teoremas de Filosofia, n.º 12, Porto, Outono de 2005.

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