TEORIA DO ENCOBERTO, 2

bruno

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Sampaio Bruno, o “Encoberto”

O problema é o de saber quem é o “encoberto”, quem, durante os quatrocentos anos que decorreram desde Alcácer-Quibir até 1978, viveu encobertamente a nossa história, mas o próprio livro de Sampaio Bruno, tendo o título que tem, é ele próprio um encoberto, obscuro como o pseudónimo do autor, Brunino.

A psicanálise por Américo Castro dos povos peninsulares não convenceu os historiadores (o melhor livro de investigação histórica entre nós publicado nos últimos anos, Portugal, Razão e Mistério, de António Quadros, constitui disso o melhor exemplo), não os convenceu de que, se o nosso consciente é cristão e o nosso inconsciente celta, hebraico é o nosso subconsciente. Logo no prolóquio do seu livro, Sampaio Bruno refuta a tese de Oliveira Martins que interpreta como céltico o mito do Rei encoberto numa ilha. Os primeiros capítulos contêm a demonstração de que o sebastianismo, se não é uma criação dos jesuítas, foi por eles utilizado para estabelecer no trono a dinastia dos Braganças e exercer sobre essa dinastia a sua providencial influência. O Padre António Vieira vê, e faz que vejam, em D. João IV e depois em Afonso VI o Rei regressado da misteriosa ilha para instaurar no mundo o Império de Cristo.

O sebastianismo serviu, assim, para fortalecer o nosso consciente cristão, traumatizado pelo pavor da Inquisição que os jesuítas combatiam. Ao mesmo tempo, o país de Portugal, que tinha sido, sessenta anos antes, negociado nos bastidores pelos jesuítas e por eles entregue à coroa de Espanha, ficava a dever aos mesmos jesuítas o favor da libertação. Tudo isto dito, documentado e explicado por Sampaio Bruno em morosas e pacientes páginas eruditas.

Outro aspecto dominante no livro é o que opõe camitas a semitas, dentro da interpretação étnica que Sampaio Bruno faz dos movimentos políticos marcados por fortes antagonismos. Os três filhos de Noé – Japhet, Sem e Cam – simbolizam três grandes ramos étnicos e uma mesma origem : o dos povos celtas, segundo Sampaio Bruno, detentores de um tipo étnico superior ; o dos povos semitas, entre os quais judeus e árabes ; e o dos povos camitas, inimigos dos semitas até ao mais profundo ódio, desde a origem em que se dividiram. Aquilo que caracteriza psicologicamente os camitas é o horror de verter sangue. Celebravam sacrifícios humanos a Baal queimando as vítimas escolhidas dentro de um forno, exteriormente figurativo do Deus. A Inquisição, conclui Sampaio Bruno, dado que restabeleceu os sacrifícios humanos, e pelo fogo, provocava o júbilo das massas populares que acorriam a festejar os autos de fé. Neste facto se exprimia o fundo étnico e o conflito original. As vítimas eram, na generalidade, judeus.

Sampaio Bruno de si próprio diz ter, pela mãe, origem céltica.

Noutro ponto dá os semitas e os camitas, de que os negros são uma variedade, como as raças inferiores. Isto espanta no democrata e cabalista Sampaio Bruno. O drama português não pode, porém, resolver-se sem ter em conta o nosso subconsciente semita. A imediata relação, estabelecida pelos historiadores, de celtas e cristãos, estes de um cristianismo que, nesta terra, assumiu a forma, na expressão de Oliveira Martins, de um “catolicismo africano”, fazendo suceder à pré-história (isto é, ao que está para trás da fundação da nacionalidade) uma história de clara e firme consciência cristã, é relação que não é legítimo estabelecer depois dos estudos de Américo Castro, aliás corroborados por outros, como, por exemplo, Paulo Mereia, que mostraram haver em Portugal três povos e um só reino, o povo hebreu, o povo cristão e o povo islâmico, com instituições própria   s e distintas entre si, convivendo harmoniosamente durante séculos até se dar a grande e decisiva traumatização política no reinado de D.João II pela obrigatoriedade da conversão dos semitas ao catolicismo. O domínio passaria a ser, em Portugal, o dos camitas, se a formação do cristão-novo não criasse um novo quadro social onde, mais ardilosos e inteligentes, mas mais hipócritas também, os cristãos-novos souberam, a pouco e pouco, apoderar-se das instituições políticas e religiosas. É nesta situação que os marxistas vêem uma luta de classes onde Sampaio Bruno vê uma luta de etnias.

O cristão-novo é um híbrido e é por este hibridismo que se recalcou o seu judaísmo ou o seu islamismo, formando-se o subconsciente encoberto do povo português. Perturbados e divididos entre duas crenças, trouxeram para a vivência da religião imposta três espécies de comportamento: ou o fanatismo que realiza o mais fundo recalcamento da religião que receberam dos seus pais (os mais famosos inquisidores eram de origem judaica) ou a hipocrisia que leva a uma prática automática, sem crença, dos novos ritos e que degenerou, na sucessão das gerações, em materialismo ateu ou o disfarce por continuarem às ocultas a praticarem a antiga religião.

Que é feito entretanto, do outro elemento da intriga histórica, o celta ? Sampaio Bruno nada nos diz. Em vagas alusões aponta para a consciencialização de uma ascendência étnica superior, que nada nos valerá, aliás, se não praticarmos a autognose colectiva, a psicanálise do nosso subconsciente hebraico. Aqui, ele vai determinar uma doutrina superior, capaz de conduzir o enredo e a intriga para o desenlace numa harmoniosa unidade. Nas páginas finais de O Encoberto demora-se a relatar o episódio em que o cabalista David Reubeni e o seu discípulo português Diogo Pires tentaram convencer o Papa a abolir a Inquisição e convencê-lo à ideia de se trabalhar para uma síntese, verdadeiramente católica, das duas religiões. É também nessas páginas que rememora o ensino em França do judeu português Pascoal Martins, que profundamente influenciou o católico ultramontano Joseph de Maistre.

Neste ponto, o ensino de O Encoberto tem de ser completado pelo ensino de A Ideia de Deus. O Encoberto fala-nos apenas do progresso moral do país, pela também progressiva integração da ideia de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, cuja formulação atribui, diz-nos o filósofo, ao mais famoso dos discípulos de Pascoal Martins: Saint Martin. A Ideia de Deus mostra-nos que duas formas de dualismo concorrem para formar obstáculo à libertação pela Cabala. São eles o dualismo de Deus e da sua Criação, de Deus omnipotente e da sua máquina e o dualismo emanatista que dá pelo nome de Gnose. Julgar-se-ia que Sampaio Bruno, defendendo a Cabala, isto é, a sua ideia de Deus, defenderia a Gnose. Aqui é que residem todos os erros de interpretação. A filosofia poderia ser entendida como desenvolvimento, em Portugal, da Enéada de Plotino – Contra os Gnósticos –, se o neo-platonismo não estivesse marcado pela mesma tendência para a desumanização que caracteriza o gnosticismo. Entenda-se a palavra “desumanização” em relação ao homem e à mulher e ao filho de ambos.

O texto capital de A Ideia de Deus é o seguinte: « A evolução orgânica, a superorgânica e, enfim, a hiperorgânica (a superorgânica em segunda potência, a transcendental) não poderiam prosseguir a ultimar-se se o espírito diminuído mas puro não acudisse continuamente ao espírito alterado, que ansiosamente busca sua libertação.

Quer isto dizer que do espírito puro diminuído (em quantidade não na qualidade, na potência não na essência) constantemente se evolam para o espírito alterado, ou seja o Universo, emanações, que o penetram, o depuram  e o avançam.

No conceito dos dois estádios diferenciados, há para o duplo critério (quantitativo, qualitativo), antes da revertência final, alternância discriminante. Quanto às emanações, elas são como os eons da velha gnose. Mas como uma diferença capital. Para o gnosticismo, relembra Amorim Viana que “o Universo decompõe-se em uma série de Eons ou entes distintos, criados por via de emanações, das regiões celestes para as regiões terrestres. Nessa escala de seres, Cristo ocupa um lugar superior ao homem, e está constantemente em elevar Sofia ou Ascansot, representante da alma humana, do lodo terrestre, onde se submergiu, até ao Pleroma ou abismo das perfeições. O Sumo Bem ou Deus reside nesse Pleroma, no Bythos, no Eon primitivo. O derradeiro Eon é a matéria eterna como Deus, mas essencialmente má.”

Nesta nova concepção – continua Bruno –, a matéria não é eterna como Deus e as emanações divinas não vão prevaricando à medida que se afastam da origem. Pelo contrário, vão intensificando, maiores sendo. No átomo primo, a revelação divina é a direcção do movimento, o qual veio logo do anelo do regresso ao espírito puro. No animal, a revelação é instinto. No homem, a revelação é razão. E, do átomo ao animal e do animal ao homem, a matéria desmaterializou-se, espiritualizou-se; aproximou-se do ponto de chegada; libertou-se; tendeu a voltar ao estado puro, anterior à diferenciação inicial do homogéneo infinito. Assim, a relatividade convergiu, novamente, para o absoluto.»

Retenhamos deste texto a anotação da diferença capital entre a gnose e a nova ideia de Deus: « Nesta nova concepção, a matéria não é eterna como Deus e as emanações divinas não vão prevaricando à medida que se afastam da origem. Pelo contrário, vão intensificando, maiores sendo.» Álvaro Ribeiro exprimirá, mais tarde, esta oposição, num escrito de crítica à Teoria do Ser e da Verdade, que caracteriza como obra de um céptico e de um místico, ao afirmar que «o pensamento procede da contemplação para a acção», não para que Sofia, representante da alma humana, se eleve do lodo terrestre, onde se submergiu, mas para organizar esse lodo em sociedade de homens livres. A política é, assim, a primeira das ciências, como para Augusto Comte fora a sociologia. A Cabala não procura, como a gnose, inverter a corrente, mas animá-la da vida do espírito. Pela intriga histórica que constituiu o povo português, cruzando e misturando três etnias, Portugal tornou-se o teatro do mundo, onde no fim, por acção da filosofia, tudo reverterá a Noé ou ao Noús original da humanidade. Esse mesmo povo, como escreveu Leonardo Coimbra, é o lugar de Malcouth, a décima sefira, traída entretanto pelos seus governantes, exilada ou separada, por falta de mediação yesódica, isto é, de uma verdadeira aristocracia do espírito, de Tiphereth, na expectativa de uma revolução política que seja a “obra” do pensamento que imaginou em Kéter, na nova ideia de Deus.

Só o cristão-novo está em condições, enquanto espera por um novo Cristo “cujos milagres são argumentos”, de realizar a síntese das religiões que, por enquanto, o têm dividido, mas para tanto não há que ter medo de reconhecer a aceitar a existência encoberta do nosso subconsciente hebraico. A história não deve ser mentida, embora a história seja sempre um conto.

A interpretação que aqui deixamos d’O Encoberto, numa breve recensão das principais ideias, sendo como é, ao mesmo tempo, um desvendamento da História Secreta de Portugal, não é a que, num livro com este título, nós mesmos demos em 1977. Aqui, o encoberto era a gnose templária. A tese agradou, pois se venderam muitos livros. Foi, para muitos, uma agradável mentira.

Não distinguíamos, então, a Cabala da Gnose, enganados por “ocultistas”, mas também pelos trabalhos de Gershom G. Scholem, a maior autoridade universitária em estudos hebraicos. Não tinha ainda surgido a notável reacção de Charles Mopsik em defesa da originalidade da Cabala, com traduções, comentários, introduções e livros destinados a ampliar e fortalecer as investigações de Ithamar Gruenwald, o único universitário que teve coragem de, isolado, rebater as teses de Scholem. Em Portugal, muitos anos antes, já Sampaio Bruno e Álvaro Ribeiro sabiam, não só dessa originalidade mas da oposição que, desde sempre, lhe moveu a Gnose.

A identificação do “encoberto” com o nosso subconsciente hebraico, durante ainda muitos anos, enquanto o nosso ensino e a nossa cultura forem dominados pelos “gnósticos”, será deixada na sombra e no nevoeiro.

É dessa sombra e desse nevoeiro que emergirá o Rei.

António Telmo

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