A libertação do sangue

 
Fresco no Palácio de Cnossos Taurocatapsia  1500-1400 a.C.

 Fresco no Palácio de Cnossos: Taurocatapsia  1500-1400 a.C.

ANTELÓQUIO ANALÓGICO

Em certa noite antiga de estio, ao ponderar em roda de amigos um exemplo de analogia, caiu-me no espírito como estrela cadente a intuição de que o toureiro apeado é um dos termos análogos da relação sexual. Dito assim: o toureiro é analogicamente a mulher, quando o touro está pelo homem. O texto presente resulta do que intermitentemente reflecti desde essa faísca nocturna.

Antes de mais convém recordar que uma analogia[1] compara e pondera em paralelo duas relações distintas, equilibrando-se mútua e proporcionalmente termo a termo como entre duas fracções equivalentes de modo que, por cada uma delas, subamos na compreensão da outra e, no caso, dará para dizermos que o toiro está para o toureiro, assim como o homem para a mulher. Dar-se-á pois um progresso de conhecimento antropológico sustentando em imaginação substantiva a arte de tourear como dança nupcial, melhor, como amplexo amoroso em que a semente se derrama e morre para que a vida prossiga. Cosmologicamente será o sol a pôr-se ou a morrer terra adentro. Talvez por isso mesmo as touradas sejam próprias da tarde, “a las cinco en punto”, dito com acerto.

É longínqua e misteriosa a origem das touradas e ainda hoje, na era espacial em que a civilização se parece desintegrar como poeira sideral, ainda hoje persiste entre nós esta festa estranha em que uma figura cingida em seda colorida, adornada de lantejoulas a chisparem ao sol, trespassa à espada um toiro que se entrega sem um gemido, isto num redondel repleto de vozes e aplausos. É caso para espanto. Ou para justificação.

Desde Creta, e falamos de há quatro milénios, que se conhece o que podemos chamar de rito do touro, associado ao Mito do Minotauro e desenvolvido no palácio de Cnossos, o do rei Minos. Tudo passa e acaba em quatro mil anos mas não a lide dos toiros. Em 1924, um diplomata lituano radicado em França, Oscar Vladislas de Lubicz-Milosz, editou Ars Magna,[2] uma arte maior na qual incluiu um texto que muito nos interessa ─ Les Origines du Peuple Juif ─ e, pelo qual, a história migratória dos povos se pode postular ao invés da habitual, isto é, os judeus habitaram primeiro a Ibéria séculos antes da Judeia, foram de ocidente para oriente como disso podem dar testemunho nomes como Rio Ebro que terá dado Iberos e Hebreus, ou de inúmeras palavras em euscaro, coincidentes em étimo com as hebraicas correspondentes. Aliás, algo de similar afirmara antes o nosso Sampaio Bruno em Teoria Nova da Antiguidade,[3] uma nova visão do percurso dos povos antigos seguindo o trilho da Odisseia homérica e que, o notável prefácio de Pedro Sinde à mais recente edição, muito elucida. Ora, Milosz, refere que os terramotos na antiga Andaluzia, dita Tartéssia pelos gregos, conduziram os tartessos a migrarem para oriente, isto depois de descrever similar movimento por parte dos fenícios. No parágrafo seguinte, coloca a hipótese de esses remotos andaluzes terem chegado a Creta, terra pré-helénica onde predominava a deusa Britomartis empunhando as suas duas serpentes, ditas sarap na Ibéria e saraph em Israel. As corridas de touros, admite, podem assim ter sido ibéricas antes de cretenses.

António Telmo ─ que conhecia bem Milosz e a sua Ars Magna ─ veio a publicar em Filosofia e Kabbalah (1989) um antigo texto da sua juventude sesimbrense, os Diálogos com David,[4] duas arrojadas páginas nas quais retoma e avança criativamente o tema da origem das touradas, vislumbrando como era seu timbre o filão mágico, senão teúrgico. Basicamente diz que «as touradas (…) foram feitas não para dominar os touros, porque então seria melhor e mais fácil matá-los a tiro, mas (…) para dominar os tremores de terra». E de facto «as zonas de toiradas e as zonas sísmicas coincidem, na sua generalidade» em Portugal e, a colonização atlântica dos dois países ibéricos fez com que as corridas de toiros existam no Peru, Colômbia, Venezuela e México, também nos Açores, zonas evidentes de terramotos, e não hajam no Brasil ou na Madeira, onde esses desastres naturais praticamente não acontecem.

Redito e concluindo, os antigos povos ibéricos deixaram connosco a arte mágica para se apaziguar a energia telúrica e explosiva da terra, a qual, só não é indómita porque os touros e as touradas contribuem para a dominar. Tudo explícito e lúcido. Iremos ver que a nossa tese segue este trilho sem com ele coincidir exactamente, pois que em contexto paralelo vemos na tourada uma dança nupcial que, antes de magia, será sinal de um antiquíssimo rito de sacrifício animal inerente ao início da era patriarcal da humanidade ou dos heróis gregos, no qual o toureiro significa a respectiva sacerdotisa, isto em sucedâneo à era matriarcal anterior ligada aos sacrifícios humanos. Finalmente, indagaremos da coerência ou da incompatibilidade das touradas com o cristianismo que, afinal, se fundamenta no sacrifício incruento da eucaristia.

Há que pôr o touro a correr. Eis a lide.

PRIMEIRO TÉRCIO

Sai impetuoso o touro dos curros ou da caverna para explodir no sol da arena, o desejo irreprimível da liberdade até levá-lo à antecâmara da morte. Logo, um picador o lanceia de cima de um cavalo cego e resguardado, submete-o à prova do castigo ou “sorte de varas” para lhe refrear tanto músculo retesado, temperar-lhe os ânimos até à elegância de movimentos e investidas, dizem. No fundo, este preâmbulo corresponde ao amplexo amoroso que se quer demorado, a força adolescente deve ser educada em breves instantes até que uma ilusória maturidade a refine. O toureiro, qual mulher experiente de bordel, ensaia e ensina o animal a distender-se pelos movimentos largos do capote róseo a duas mãos, a gola vermelha bem segura enquanto acerta “el temple”. Há nisto uma contínua sedução à distância de forma a suavizar a puberdade entumecida, a humedecer a sofreguidão, a atiçar o desejo, refreando-o. A dança do flamenco insinua o mesmo, a bailarina citando com seus braços em enleio, as castanholas acompanhando o ritmo da virilidade “del taconazo” das botas masculinas no tabuado, as palmas em cadência enquanto, amiúde, ela levanta e agita o vestido longo mostrando os folhos, repuxando, sugerindo. A imaginação voa.

Esta nossa lide em palavras corridas anda ao invés, os sacrifícios humanos primeiro, não sabemos se através de estocadas e matadores. Antes, falemos do touro como símbolo.

Desde tempos imemoriais que o Touro exprime na humanidade símbolos de sustentação da natureza criada, ao ponto de no zodíaco ocupar o céu de Maio, o âmago da Primavera, logo após o impulso de Carneiro e antes que Gémeos disperse o poder genesíaco. Significa o ser fecundante por excelência, viril, esparramado sobre a terra e as flores silvestres das campinas. É visto assim a ocidente desde a Ibéria às pampas argentinas, das estepes europeias à pradaria americana onde seu irmão bisonte tem honras similares. A oriente, tal simbologia recai no elefante, na tartaruga, chega até ao crocodilo já na Oceânia, ainda que na Índia o touro védico suporte o mundo manifestado, aquele que a partir da imobilidade invisível do centro mantém a girar a roda do cosmos, algo aliás, que o liga ao movimento da remota cruz suástica.

O período distante e largo do Paleolítico (entre 100.000 a ~ 18.000 anos a. C.) corresponde ao nomadismo e às grandes migrações, à diáspora dos caçadores recolectores no fim do qual, mormente no subperíodo chamado Madalenense, se demonstra o apogeu da arte rupestre, a móvel e a parietal, na qual o touro surge em iconografia constante. Na caverna, útero materno da natureza, arte e religião coincidiam, e daí, que culto e cultura sejam gémeos. No período seguinte, o do Neolítico, o homem nómada passa a enraizar-se em sedentário, domestica ou traz para casa alguns animais selvagens, mas, acima de tudo cava a terra e cruza sementes, inventa a agricultura, depois a arquitectura e a urbe, civiliza-se. Pela primeira vez as gentes que deambulam podem parar, repousar, chamar sua a terra que tudo lhes dá. Habitam agora sob a grande abóbada do céu, cíclica e imutável. A terra é a grande casa, mãe e deusa, consagrada e dadivosa.

Não se sabe quando mas começaram nesse período os moralmente inconcebíveis sacrifícios humanos, hoje rejeitados, apetece acrescentar que só em aparência, de tal modo o século XX tanto o desdisse objectivamente, mas a irmos por aí a corrida seria outra. Há provas destes sacrifícios desde o Neolítico até ao fim da Idade dos Metais, e estamos a falar até cerca de 1000 anos a. C., diligenciando a humanidade atónita o apaziguamento dos elementos naturais enfurecidos, as tempestades diluvianas, os terramotos, tudo o que violentamente agitasse a Mãe Terra ofendida. Muitas das civilizações modernamente elogiadas quando comparadas com a judaico-cristã, praticavam sacrifícios desta índole particularmente de adolescentes e crianças. E estamos a falar de Maias e Astecas, de Fenícios e de Celtas. Pelo que hoje sabemos, também os Cretenses o fizeram, assim o comprovam as pesquisas no Templo de Anemospilia ou na Casa do Norte em Cnossos, jazida horrenda onde foram encontradas centenas de ossadas infantis.

E como se lida o toiro neste tércio pré-histórico? Precisamente pelo Mito do Minotauro que aqui descreveremos em “capotazos” rápidos. Desde logo começa no Mito de Europa, a filha de Agenor e rei de Tiro, qual doçura feminina raptada por um Zeus disfarçado em toiro branco de cornadura doirada, arrastando-a mar fora até Creta. Nessa ilha, junto à fonte de Gortina, ambos se enlaçam amorosamente e aí, os plátanos nunca perdem por isso a folha, primaveris e pujantes. Europa dá à luz três filhos, um dos quais é Minos. Mais tarde, quando Minos já reinava, sonegou a Posídon o sacrifício de um belo touro e o deus dos mares e das águas subterrâneas vingou-se levando Pasífae, esposa do rei de Creta, a apaixonar-se pelo animal, sendo que deste crime antinatural se gerou um monstro humano com cabeça taurina, o Minotauro. Elidindo passos narrativos, diremos que Minos acabou por submeter os atenienses ao tributo anual de sete rapazes e sete donzelas a serem devorados pelo monstro de Cnossos, habitante central do palácio que era um labirinto desenhado pelo arquitecto Dédalo. Finalmente, Teseu, o herói grego da Ática matou o monstro saindo livre do labirinto, guiado pelo amor e pelo fio de ouro de Ariadne, filha de Minos. Atenas libertou-se assim do domínio de Creta.

Zeus rapta Europa

Zeus Rapta Europa,  obra do autor, 81 x 100 cm, 1986

Entre diversos significados interpretativos este mito culmina em algo fundamental que o irmana com o episódio bíblico de Abraão, quando Deus lhe impõe o sacrifício do seu único filho, Isaac. Parece pois que a humanidade, algures pela Idade do Bronze (entre 2500 a 1500 a. C.), passa dos sacrifícios humanos aos sacrifícios animais o que permite a correspondência conclusiva entre o Minotauro ─ evolui do sacrifício de jovens para o do touro como iremos ver ─ e o marco bíblico de Abraão no Monte Moriah, quando um anjo lhe descobriu um carneiro para sacrificar em vez do filho.

SEGUNDO TÉRCIO

É meio da tarde e a arena arde, já o sol tomba. Na lide intermédia o toiro é sujeito à sorte de bandarilhas, ferros cravados aos pares e envoltos em papéis festivos e coloridos mas, do dorso do animal jorra uma única cor, o vermelho do sangue e da carne rasgada. Também na paixão amorosa há cores de festas ou de carícias, só depois o sofrimento, quando a mulher sorri e cativa, dá e foge, para fazer correr por enamoramento o toiro cego que a persegue. Nos Açores, laça-se um toiro à corda e depois chama-se-lhe enamorado.

Para quem apreciar a elegância do bandarilheiro saltando e arrimado às hastes do toiro que são dois punhais, verá nela semelhanças com a Taurocatapsia ou o célebre “fresco do toureiro”, aguarelado desde 1500 a. C. nas paredes do Palácio de Minos em Cnossos, Creta. Três belas raparigas de seios nus descrevem saltos acrobáticos sobre o toiro, cujo dorso é uma curva suave sem deixar de ser impetuosa, uma elegância longilínea do masculino que vai conhecendo a sabedoria do amor. Aliás, admite-se hoje, que esta espécie de amazonas ou valquírias, quase despidas, citavam e volteavam sobre um toiro, levando como adornos no busto nu pequenas chapas de metal, qual antecipação do “traje de luces” do toureiro actual. Para nós, aqui, serão sacerdotisas de um remoto rito taurino propiciatório ao apaziguamento de Posídon. Veremos.

Desde já diremos que impressiona sabermos hoje que estas touradas ou taurocatapsias cretenses terão surgido depois de 1700 a.C., imediatamente após um violento terramoto que lançou a destruição na ilha, nomeadamente a dos palácios, facto que confirma a tese de António Telmo nos seus Diálogos com David.

Posídon, deus dos mares seria o patrono celeste de Creta, ilha de poder talassocrático, à época dominante e charneira no Mediterrâneo oriental, nomeadamente sobre a Hélade, de Micenas a Atenas. A teogonia helénica a partir de Crono e Reia engendra Zeus como rei dos céus e do Olimpo, Plutão domina os infernos do Hades e Posídon empunhando o tridente e envolto em ninfas, preside aos oceanos. O terramoto de Creta de há quase quatro mil anos deverá ter sido de violência aterradora, quiçá sucedido por maremoto, e deverá ter estimulado os sacrifícios humanos que o neolítico iniciara para pacificar as entranhas da Terra Mãe, quase sempre benévola e dadivosa como por Deméter se veio depois a revelar. Em vez de colheitas trouxera então a morte, destemperada e ensurdecedora, desmoronando os alicerces do mundo. Visto assim, o labirinto que caracteriza os palácios cretenses, nomeadamente em Cnossos, tenderá a perceber-se como um revoltado intestino de vísceras telúricas que veio a ser ordenado ocultamente pela sabedoria sacra transmitida a Dédalo, o arquitecto. O tributo ao Minotauro, um holocausto anual de jovens vítimas, será a flor da vida humana capaz de apaziguar um velho deus armado de tridente, porventura irritado pela disputa que uma ilha faria ao seu poderio oceânico.

Minos, admite-se hoje, em vez de rei pessoal e definido seria antes uma função de poder, em símile com faraó ou imperador. Portanto, o Mito do Minotauro é uma verdade intrínseca a Creta que evidencia enquanto oculta, factores misteriosos repercutidos em imanência metafísica o que, aliás, justifica um mito, uma narrativa humanizada que brota de algo transcendente. Um mito não significa mentira mas silêncio de mistério. Daí a correspondência com ritos. No caso, o Minotauro reflectia uma dialéctica metafísica que foi válida em Creta pelo menos desde 1700 a.C. até cerca de 1450 a.C., isto é, desde o tremor de terra às invasões vencedoras dos aqueus os quais vieram a destruir os palácios/labirintos, quer material, quer simbolicamente. À volta daquela última data, 1450 a. C., se deve situar a lenda de Teseu que, por ser lenda, é para ser lida como verdade narrativa e simbólica. Neste primeiro matador de toiros se significa a heroicidade ateniense, vencedora sobre a tirania de Creta a roubar-lhe os filhos em tributo de sangue. Não deixa de impressionar que em datas algo “próximas”, o episódio de Abraão (1800 a. C.) e o de Teseu (1450 a.C.) se correspondam. Através de ambos a humanidade da Fé, pelo Judaísmo, vai confluir na da Razão, a do gregos, isto na passagem dos sacrifícios humanos aos animais, propiciatórios e ainda assim cruentos.

Porque associada a Minos a arte de Creta denomina-se minóica. Nela prepondera a simbólica da mulher e a do touro, a relação feminino/masculino e terra/céu, agregada a manifestações concretas e diversas das quais emerge a coluna troncocónica invertida e o labrys ou labrix, um duplo machado que se repete em formas e escalas diferenciadas. Talvez similares ao genius loci os templos eram naturais, em cavernas ou no cume dos montes, assim afirmam arqueólogos da arte minóica e, talvez, supomos nós, a sacralização se prolongasse nos palácios, acaso vislumbremos no pátio de Cnossos o ritual correspondente ao Mito do Minotauro.

Sacerdotisa do culto à Deusa Mãe Britomartis (3)

Sacerdotisa do culto à Deusa Mãe: Britomartis

O feminino domina Creta: as linhas sinuosas fluem serpenteando, desde a expressão pictórica às esculturas da deusa Britomartis, a doce virgem significada nos seios nus, braços erguidos segurando duas serpentes. O touro é o outro pólo de dinâmica elemental e metafísica, continuamente presente até chegar à geometria que, quanto a nós, se metamorfoseia nas hastes duplas do machado ou labrys. Aliás, é desta simbólica tão repetida na ilha que aparece o termo labirinto (de labrys), um percurso ou peregrinação como descida aos infernos ou como subida aos céus até à Jerusalém Celeste, assim aparece circularmente no centro da catedral medieva de Chartres. As plantas dos palácios minóicos são múltiplas, dispersas e sobrepostas, algo até irracionais, dominando os espaços interiores cómodos e agradáveis, abertos em frescos parietais, muito pouco ou nada castrenses. Figurativamente surgem polvos e golfinhos, elegantes perfis femininos, cerâmicas de harmonia vegetal, por vezes pequenas pombas e gatos associados a símbolos de índole religiosa como em certos labrys ou representações da deusa Britomartis. E depois, sempre o touro, seja em ritões sacros funerários, seja em hastes geométricas à escala arquitectónica. A mulher e o touro, eis a arte minóica, manifestando-se Creta como arena mágica no meio do Mediterrâneo ou no “meio da terra”.

Labrys ou duplo machado 

Labrys ou duplo machado

Creta é o touro, e a mulher, um toureiro ou sacerdotisa a cultuar Posídon. É neste remoto alinhamento que a tourada existirá na Ibéria, vinda de Creta pelos gregos ou levada para lá pelos tartéssios, os terramotos como causa e o domínio dos mares como consequência. O toureiro actual continua a figuração das valquírias minóicas, o feminino a educar a lava de fogo e o sémen do masculino, tudo em projecção marialva invertida de uma era então matriarcal até que, Teseu, herói e guerreiro, inicie a idade do patriarcado. Assim, o antecipara o primeiro dos patriarcas bíblicos, Abraão, três séculos antes, nas lonjuras que da Caldeia o haviam trazido a Canaã.Não será ilegítimo vislumbrar no duplo machado tão disseminado em Creta e sem nada de fisicamente utilitário, algo referente ao touro, exibindo duplamente as hastes ora erguidas ao céu, ora voltadas para terra, tudo no masculino mas também similar e no feminino a Britomartis que, pelos braços levantados visa a dádiva celeste e, pelas serpentes, propicia essa mesma dádiva até ao reino terrenal. Predomina sempre a pacificação celeste sobre o poder telúrico da terra, capaz tanto de benesses como de tragédias em força descontrolada, relação que a inversão da coluna troncocónica significa e confirma, pois que o diâmetro superior é mais amplo que o inferior, arquitectonicamente inusual e sem fito construtivo. Mais tarde (1250 a. C.), a Porta dos Leões em Micenas dará a este símbolo o estatuto de ícone.

TERCEIRO TÉRCIO

Desce no céu o astro desde “las cinco en punto de la tarde” e o toureiro ergue agora os braços no centro da arena, recortada entre sol e sombra como se fora um quarto crescente lunar derrubado sobre a terra. A figurinha humana de tão esguia e sozinha enche a praça, levanta os braços e volteia sobre os calcanhares com a capa e a espada numa mão, a montera na outra, lembrando uma estatueta de Britomartis empunhando serpentes e a rodar numa caixinha de música. Mas a banda ainda não toca, só o aplauso o incita. O toureiro pede que todos estejam com ele no sacrifício de sangue que há-de caber ao toiro, ainda que o destino nunca deixe de prometer excepções trágicas. O toureiro seria aqui a sacerdotisa deste rito atravessando os séculos, não fosse tudo ser pagão e já trespassado pela altitude suprema de Cristo. O toureiro está de braços levantados e levanta neles a alma capaz de erguer a morte: enverga camisa branca e fita negra pendente do cós, por cima tem o colete e depois a jaqueta com ombreras, a taleguilla repuxada acima dos rins e que logo acaba abaixo dos joelhos, tudo em seda bordada com lantejoulas de oiro, de prata se fora só bandarilheiro, as meias são em cor-de-rosa vivo enfiadas nas sapatilhas pretas, ligeiras como sabrinas e adornadas com um laço. A figura pausada roda, lembra uma qualquer estranha bailarina de ballet, plausível de invocar deuses ctónicos e capazes de beberem sangue derramado na terra.

A montera do lidador volteia no alto da sua mão direita, ainda traz a coleta pendente e que só cortará na derradeira faena, tudo em veludo como metáfora de um dorso de toiro negro que ele pousa no centro da arena, qual motor imóvel da roda que falta correr, agora que o toiro com a língua branca e espetada o observa atónito, talvez porque já veja a morte aproximar-se, vestida em cores de seda por entre os braços de uma virgem. A montera é colocada no centro do redondel por respeito ao animal, lastro de tradição quando o antigo oficial de justiça retirava o bicórneo antes de ser executada a sentença fatal. A tarde flui e arde no terceiro terço que tudo fecha, irrevogavelmente até ao sangue, não sabemos verdadeiramente para que Posídon se aquiete, acaso ainda trate dos magnos assuntos referentes a terramotos, isto para que as placas tectónicas não acordem num mugido cavernoso de morte, o mesmo de que os toiros em sua nobreza prescindem durante a lide que os fere e mata. O toiro sabe morrer em silêncio ou, na excepção que o leva a mugir, passa nele qualquer coisa de ronco da terra a detonar alicerces e fundamentos. O toiro cala-se e morre. A multidão da praça também, porque naquele silêncio estamos todos. Só depois aplaude em trovão porque o céu venceu.

Esta é a tourada actual à espanhola vista aqui por olhos intuitivos, sem sabermos ao certo o que veio de Creta ou o que havia na Ibéria. Como desde há muito vivemos fora do Mito do Minotauro e também do que viemos interpretando de mágico e teúrgico, aquilo a que o rito taurino corresponde é hoje, uma acabada impossibilidade. Resta o espectáculo, o jogo ou o divertimento na morte de um animal majestoso e lindíssimo, morte pública e portanto civilizacional, ainda que porventura possa fazer eclodir em catarse o que socialmente oprime. Talvez.

Tourada à Espanhola, 3º Tércio

Tourada à Espanhola, 3º Tércio

Segundo os actuais antropólogos evoluiu o homem de habilis a erectus, sucessivamente até ao sapiens, sem que nunca seja assinalado o inquestionável: desde a consciência humana existiu desde sempre o homo religious. Os que iludem isto devem ser os mesmos que nos têm conduzido ao homo economicus. A mais larga amplidão humana pressupõe transpor o material e o visível até porque, basta o próprio acto de pensar ou pensamento em si mesmo, para garantir a realidade do invisível e, daqui, perceber a vida para lá das aparências da morte. Por esta ponte de fé mas também de sólida razoabilidade passa o conceito de sacrifício e de sacrificar, ou seja, tornar sagrado algo que de essencial nos faz ser, um certo irredutível que é âmago da existência pessoal e inalienável e que intuímos eterna. Se não, morre o homem e nada tem sentido, a consciência sobra inútil, até adversa, extinguindo-se na entropia cósmica do grande Todo. Estranhamente as touradas como algo de panteísmo mágico têm tanto cabimento no mundo pagão como no actual orientalismo cíclico e falsamente ocidentalizado. Ao invés,o ser profundo que somos escapa à realidade transitória de Heraclito ─ tudo flui e é movimento ─ , antes pesa e pondera na ontologia que do relativo garante o absoluto e a verdade, seguindo Parménides. É dando que recebemos e, neste paradoxo existencial, se revela a personalidade e o Deus pessoal vindo de Abraão pela fé. Pelo heroísmo da Razão helénica terá saído Teseu do labirinto, ao encontrar um fio de oiro amoroso com o qual Ariadne o libertou: fides et ratio.A corrida à portuguesa é mais variada e com menos drama, mais cretense se ficarmos pelas acrobacias exteriores. Anotemos que as actuais corridas ibéricas nasceram no século XVI, já em pleno Renascimento, certamente como canto do cisne e resquício da arte de montaria do fidalgo medieval que lanceava o toiro como antes fizera com ursos ou javalis. Só nos séculos seguintes surgiu o toureio apeado em Espanha e depois os forcados em Portugal, já no século XIX. Pelo cavaleiro tauromáquico passa a arte equestre da antiga nobreza, enquanto nos forcados culmina o engenho do povo agrícola que, com suas forquilhas e forcas maneja os toiros na campina e os agarra apenas com o que tem, braços e corpo, tudo aumentado em muita bravura. Formaram-se os grupos de forcados muito depois da “casa da guarda” palaciana e dos “monteiros de choca” da lezíria, entrando na arena apenas oito homens, para assim se equilibrar no seu peso total a massa corporal média do animal. Seria fair play se este jogo limpo não trouxesse por vezes a morte, crua e honesta. Pelo toureiro apeado passa o cume da arte taurina, nele se vislumbrando um sacerdócio antigo, pagão e cósmico, antes que a comunhão redentora dos seres tivesse em Cristo a cabeça.

Fé e Razão pelas quais a humanidade transitou dos sacrifícios humanos aos animais que, sendo sacrifícios, seriam à época cruentos sem serem cruéis. A eucaristia cristã tudo superou, ao ponto de no próprio desenlace histórico do Judaísmo confluir em estranho significado de datas: os holocaustos animais no Templo de Jerusalém terminaram em definitivo uma geração após a morte e ressurreição de Cristo (ano 70 d. C). O que se sacrificava de forma cruenta passou irreversivelmente a incruento e espiritual. E espiritual não significa mental ou alegórico, como se a relação com o divino se passasse num teatro ou fosse mero cerimonial humano, o que se afirma é o espírito como “sopro” real de Deus penetrando as narinas e a vida pessoal de cada um, um acesso decisivo que animando o sangue também dele nos liberta, a alma em trânsito entre a vida sensitiva e a intelectiva. Quando Jesus encontra Nicodemos propõe a cada homem renascer ou nascer do alto, o que implica que «quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus; o que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito» (Jo 3, 1-21). A água está por purgação e arrependimento libertador, que é algo arredio da falsa espiritualidade moderna que depressa confunde, por exemplo, amor e concupiscência sem que, por aqui, condenemos os sentidos ou a sensualidade; o fogo está em seguir a via de Cristo, percebendo os instintos como inferiores, repondo a harmonia da alma com o Espírito para coincidir em amor puro.

Perante isto, tudo muda, o cristão não pode permanecer pagão.

Sondemos outra geografia com algum melindre. Não deixa de ser espantoso que em Portugal, não sabemos se na Ibéria, ao mapa sísmico corresponda de facto o mapa tauromáquico, mas o que mais inquieta é que o mesmo mapa coincida com o dos autos-de-fé da Inquisição do século XVI, precisamente a era inicial das touradas actuais. São quase nulas as touradas a norte de Coimbra, o mesmo com a sanha incendiária inquisitorial. Mais ainda, a Inquisição sendo um tribunal católico universal, condenou na Ibéria não propriamente apenas delitos heréticos (o que se compreenderia pelo espírito da época), antes perseguiu e se acirrou contra os judeus, enquanto em França ou em Itália, cuja catolicidade não se questiona, sempre existiram sinagogas. Talvez por isto, Sampaio Bruno explica os horrendos propósitos da Inquisição portuguesa dentro do quadro de uma guerra rácica encapotada, porventura instintiva e inconsciente, dominada pois pela vertigem do sangue, no caso, a raça camita perseguindo ferozmente os semitas, prolongando o ódio de cananeus e dos remotos filisteus de Golias contra os judeus de David, tal como ainda hoje assistimos à incompatibilidade mortífera entre a Faixa de Gaza e Israel. Por camitas se significam simbolicamente os filhos de Cam, dos quais vieram os do norte do Egipto, também os Fenícios ou os Cartagineses que, pelo sul, entraram na Ibéria. Por semitas os descendentes de Sem, ambos filhos de Noé.

O certo é que o domínio camita diluído entre cristãos do sul nunca desferiu golpes fatais a norte, tão ou mais cristianíssimo e católico, o que impressiona e interroga, pois que não existiu um único auto-de-fé na cidade do Porto ou em Santiago de Compostela, por exemplo. Se a Inquisição fez o que fez por ser católica porque não queimou gente no Porto e permitiu as sinagogas na Itália católica e papal? A raça que ateou ódio, fogo e carnificina nas praças públicas e que se divertia envergando até, como lembra Bruno, os seus fatos de festa domingueira, essa gente terá a mesma origem do que aquela que acorre às arenas das touradas? Cremos que não porque «as touradas (…) foram feitas não para dominar os touros, porque então seria melhor e mais fácil matá-los a tiro». Ainda assim inquieta que os mapas coincidam, ou talvez, tenha havido um profundo desequilíbrio religioso e portanto espiritual, enraizado na recusa rácica de se renascer em água e Espírito, assim Cristo falou a Nicodemos. A Última Ceia há-de ficar apenas memória histórica e névoa mental, incapaz de agir como fogo espiritual? Nascemos pela carne a fim de, pelo Espírito, fazermos em nós a libertação do sangue.

Festas do Divino Espírito Santo - Açores

Festas do Divino Espírito Santo – Açores

Cada um de nós é um riacho de sangue a fluir de pais e avós até à origem do mundo, um sangue que convém não degenerar, dizem, por filhos e netos. Todavia, talvez convenha regenerá-lo para ser mais fluido e suave sem que nos submeta à ditadura dos instintos e do egoísmo, sem que expludamos em cólera, qual terramoto pessoal capaz de abalar a geologia espiritual no ser de cada um. O sangue é vital e não tem mal em si mesmo, desde que não nos imbecilize até ao insuportável, antes convém misturá-lo com a água que lava e purga, a do arrependimento anunciado desde o deserto por João Baptista. Só nesse aparente vazio incide o fogo, o espírito capaz de amar humanamente aceitando o coração como lugar e luz.A tradição portuguesa, mais universal e menos apaixonada que a espanhola, esbateu as danças ctónicas que impõem bater os pés no chão e assim, por cá, o sensual flamenco quedou-se em ingénuo fandango. O que temos de verdadeiramente telúrico guardámo-lo na grandeza masculina do cante alentejano. Quanto à nossa tourada, retirámos nobreza à morte do toiro, escondendo-a nos curros ou nos matadouros, acrescentando arte ao cavaleiro e bravura popular aos moços de forcados. O sacerdócio do matador não existe. Em vez disso depurámos a tauromaquia no touro enamorado e puxado à corda, isto nas Festas do Divino Espírito Santo, esparsas no continente e correntes nos Açores. É verdade que no fim o toiro morre mas para dar o bodo aos pobres, enquanto é libertado um presidiário e de um Menino se faz um Imperador. Estes três passos significam sucessivamente a pacificação do corpo e dos instintos, a libertação da alma e, finalmente, que se renasça Menino purificado em intelecto espiritual. Aqui sim, o toiro é integrado em algo cristão e deixa de ser o centro, a festa ascende a comunhão, ultrapassando um extemporâneo rito ctónico a fim de apaziguar Posídon. Deus não coincide com a natureza e a sobrenaturalidade conduz o homem à relação pessoal com o divino. Só isto torna decisivo o episódio de Abraão em Moriah o qual ultrapassa em muito a lenda de Teseu: a aliança com Deus entrou na história humana extravasando o cosmocentrismo pagão. E começa com a Palavra pois no princípio era o Verbo.

A analogia sexual com a lide do toureiro a pé não será fortuita ou meramente alegórica. Começa em metáfora mas sobe a símbolo, tal a carga de real que a vitaliza e transcende. Em Outubro de 2011 li nos jornais que morrera em Espanha um matador assaz famoso das décadas de 50 e 60 do século passado, Antonio Chenel Albadalejo, o Antoñete. Ao que parece, em certa entrevista ao jornal madrileno ABC e depois de ter lidado um bravo toiro da ganadaria Osborne, o Atrevido, havia comentado: «Não toureei o Atrevido, amei-o como se ama uma mulher. Quando passava por mim, tremia eu por dentro sentindo um imenso prazer». Antoñete não terá posto a hipótese nada viril de desempenhar na arena a figura de uma bailarina capaz de seduzir, dominando, a impetuosidade masculina de uma fera genesíaca. Talvez não tenha reparado que o seu capote rosa e a sua capa vermelha significariam o drapejar do vestido de uma sevilhana. Certamente não terá sentido o Atrevido abraçar a morte a seus pés, como se fora um homem a morrer cheio de vida no ventre de uma mulher. Não, isto não terá visto. Todavia não há que desistir da ideia redentora de que num dia sem dias, ambos possam rodopiar dançando no meio de uma charneca qualquer feita de flores, de espírito e de eternidade, quem sabe se em Cnossos, mesmo em Sevilha. Por certo “a las cinco en punto de la tarde” que, porém, já não arde.

Julho de 2012

Carlos Aurélio


[1] Analogia = aná + logos: aná, elemento grego que indica ascensão e lógos, ideia de palavra, discurso, inteligência.

[2] O. V. DE L. MILOSZ, Ars Magna, Éditions André Silvaire, Oeuvres Complètes, VII, 1961, Paris.

[3] SAMPAIO BRUNO, Teoria Nova da Antiguidade, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa,2004.

[4] ANTÓNIO TELMO, Filosofia e Kabbalah, Guimarães Editores, Lisboa, 1989, p.21-22.

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Uma resposta a A libertação do sangue

  1. Avelino de Sousa diz:

    Um excelente ensaio, este, seguindo a indicação deixada por António Telmo, a quem se presta a devida atenção, mas indo mais além, pela maestria ou com a agilidade do forcado ou do bandarilheiro que Carlos Aurélio também sabe ser, no uso brilhante das analogias e pelo raciocínio que, a cada passo, se encadeia com o anterior e como que projecta o ulterior. Isso tão bem o sabe fazer Carlos Aurélio, com a arte da palavra que provém da luz da inteligência, do colorido da vivência e da tonalidade da intuição.

    Avelino Sousa

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