A crise religiosa

(voltar à página principal)

São grandes os riscos de anacronismo ou de anatopismo sempre que tentamos compreender o passado, mesmo o que nos diz mais directamente respeito, pelo que tenho consciência do que há de controverso nas leituras que faço, sem dispor sequer de licença académica para tal. Ainda assim me reivindico do elementar direito, que assiste a todo o português, de reflectir acerca da razão de ser dessa realidade colectiva em que nasci, penso e vivo. Se invoco este ou aquele autor não pretendo mais do que avalizar a verosimilhança dos assertos, sem daí inferir mais latas consequências, que é como quem diz, sem lhes atribuir a responsabilidade por um discurso a que são alheios.

A minha convicção é a de que, há um século, a tradicional estrutura tripartida da sociedade, em nobreza, clero e povo, deixara de vigorar em Portugal, onde se distinguiam apenas os dois estratos da burguesia e do povo. O processo teve os seus trâmites e se, em rigor, o clero não desaparecera, encontrava-se contudo profundamente dividido, tal como acontecera um século antes, entre os que se mantinham fiéis aos valores consuetudinários e os que alinhavam pela nova pauta, sintetizada no republicanismo. Algo de semelhante sucedia com a nobreza, cujos titulares se repartiam também entre os adstritos a um e a outro dos dois partidos, não constituindo um corpo social minimamente homogéneo.

Esta mudança estrutural resulta tanto mais estranha quanto é certo não ter havido entre nós, até ao século XVIII, conflitos sociais de gravidade e persistência excepcionais. Aliás, só a existência de factores de coesão muito fortes, em face dos quais se abatiam os motivos de conflito, poderia explicar a persistência da nacionalidade e a sua afirmação original no contexto da Europa e do mundo, vencendo condicionalismos assaz adversos. Nem serve de argumento contrário o muito que veio a ser trazido a primeiro plano pelos historiadores dos dois últimos séculos, visto como afinal se pronunciaram em causa própria; como é por demais evidente no, por sinal, mais respeitado de todos, o liberal Alexandre Herculano.

Sem embargo do apreço e admiração que mereceu e merece o homem de excepção que ele foi, não é razoável ignorar ter sido também um combatente, corajoso e pertinaz, pelos ideais que abraçou. Pelo que, não obstante a probidade pessoal e intelectual que geralmente se lhe reconhece, nunca poderiam deixar de interferir na obra historiográfica as ideias, os valores e os preconceitos que moldaram a sua personalidade. Ninguém ignora aliás que, precisamente quando o regime liberal começava a imprimir a sua orientação à sociedade portuguesa, o antigo soldado e eminente intelectual manifestou a sua desafeição pelos rumos por que o País enveredara; como se a luta travada em nome do povo tivesse servido, afinal, para alçar a burguesia e impor ao País uma orientação que ele franca, frontal e amargamente repudiava.

Ora Alexandre Herculano dera um contributo de primeira importância para viabilizar essa revolução social, de longe mais decisiva que os muitos levantamentos armados cujas datas os políticos evocam de bom grado; razão pela qual se exilou no interior do seu próprio País. A célebre polémica mantida com o clero, por quem era aliás um homem profundamente religioso, ilustra um dos aspectos capitais dessa luta, por via da qual a autoridade espiritual entrou em crise, abrindo via a outros protagonistas, designadamente aos antagonistas da Igreja, como eram muitos dos intelectuais, entre os quais ele constituiu uma referência. O caso assumiu especial destaque, visto como, até ao século XIX, os intelectuais se recrutaram quase exclusivamente no clero católico; de modo que uma parte muito significativa dele se viu então confrontada à opção entre duas orientações ou pólos divergentes, senão antagónicos.

Se a questão vinha muito de trás, é contudo indubitável que o perfil do historiador e as circunstâncias epocais deram à polémica um relevo que favoreceu o extremar de posições e trouxe à luz do dia uma surda contenda, que não mais deixou de perturbar a nossa vida colectiva. Sirva-nos mais uma vez de testemunho o Padre Sena Freitas, de quem saiu no Porto, em 1897, a segunda edição (a primeira era de 1878) do folheto Os Nossos Bispos do Continente. A propósito das exéquias da Lapa em honra de Alexandre Herculano. O argumento reduz-se a um protesto pelo despropósito de se “Empurrar, depois de morto, para cima do catafalco duma igreja o homem que, até ao último arfar da vida, quis viver fora da Igreja e a lapidou às pedradas de frase” (p. 9). Escândalo agravado pela presunção de ter sido tramado pela maçonaria, no intuito de dar o máximo destaque a um homem que, embora merecesse o seu mais sincero e rendido culto, “como escritor eminente, como príncipe da literatura contemporânea, como primorosíssimo escultor da língua pátria, como o primeiro dos historiadores portugueses” (p. 11), entendia nada ter a ver com a Igreja.

Numa linguagem assaz virulenta, o ousado sacerdote conduz então o discurso para o fito que o título sugere, imprecando aos “profanadores”: “É forçoso que o clero raso, e por ora são, vos diga as verdades verdes e amargas, que o alto clero trepida em dizer-vos, embuçado no seu silêncio sistemático.” (p. 15) Começando logo pelo orador da circunstância, o snr. padre António Cândido Ribeiro da Costa, que havia pouco dissera “a oração fúnebre do duque de Loulé, ex-grão mestre da maçonaria em Portugal; portanto, actor de comédia já habilitado e perito” (pp. 15-16). Retrato que remata com uma significativa observação pessoal: “Conhece-se de sobra que s. rev.ma tem universidade de mais e seminário de menos”; em suma, que é “um leigo tonsurado” (p. 17).

Tremendos golpes que preparam o assalto ao objectivo principal, o de trazer a juízo os príncipes da Igreja portuguesa que, apesar da profunda veneração que lhe mereciam, teriam de ouvir a sua queixa amarga e solene. “Pois bem: a Igreja portuguesa agoniza, porque lhe escasseia sempre e sempre mais o princípio de vitalidade e de força que lhe havia de vir do Episcopado; não terá sequer o direito do grito da agonia?” (p. 22) Pergunta que, formulada em termos retóricos, mas não de leve pensados, porque de patente insinuação, repete na página seguinte: “Pretenderão os galicanos do Episcopado refusar-nos in limine essa faculdade?”

Invocando a situação excepcional do episcopado português, Sena Freitas acusa-o de falta de resistência e de passividade em face dos ataques de que a Igreja era alvo, para concluir: “A nenhum Bispo aludimos em especial; apontamos ao estado de lastimável decadência da Igreja lusitana, apontamos à escravidão a que a têm deixado reduzir a inacção cadavérica dos nossos prelados.” (p. 28) Os quais, a seu juízo, se limitavam a cumprir as suas obrigações formais, abdicando do múnus doutrinal e consentindo, pelo silêncio, tanto nos excessos do poder político, como no “enorme sudário dos escândalos clericais” (p. 30).

Um dos tópicos em que mais insiste é o da formação dos futuros sacerdotes, cujos seminários, não estando de todo mal servidos em condições materiais e humanas, lhe suscitam no entanto significativas interrogações: “Porém, a educação da consciência? E a formação dos costumes? E o espírito clerical? O espírito de fé, de zelo, de dedicação, de perfeita continência, inoculado no coração do jovem candidato pela mão hábil, experiente e virtuosa de um director espiritual, vivendo em contacto íntimo e constante com o seminarista?” (p. 32)

Tema retomado mais adiante, quando aponta, entre as causas da triste situação que se propôs denunciar, “não terem tido os nossos bispos uma formação eclesiástica conveniente em um seminário digno desse nome”. Para acrescentar: “Muitos dos nossos bispos não foram educados em seminários, mas nas universidades, nos salões e nos gabinetes… Outros em seminários que mais eram liceus teológicos e oficinas de misseiros que outra coisa.” (p. 41)

O libelo, decerto um dos mais duros que alguma vez foi proferido em Portugal, do interior da Igreja, contra os seus pastores, culmina com a sentença de que “O clero, entre nós, não passa em grande parte do paralítico do Evangelho. Se se lhe pergunta a causal da sua inércia, desta moléstia endémica e fatal que o inutiliza até certo ponto, acosta-se ao exemplo de inacção do alto clero”. “Falta-lhes um homem, e esse homem é o bispo.” (p. 46)

O P.e Sena Freitas não era um clérigo qualquer, nem dos que abandonaram a Igreja ou o ministério sacerdotal; foi ainda há pouco objecto de uma volumosa publicação, com estudos consagrados ao homem e à obra no âmbito da Universidade Católica (Homem de Palavra, Roma Editora, Lisboa, 2008); e viu até reeditada, com prefácio também de D. Manuel Clemente, a sua tradução, muito ampliada, de A Alta Educação do Padre (Roma Editora, Lisboa, 2003). De modo que, mesmo com as compreensíveis reservas, merece atenção o seu testemunho sobre a profunda crise religiosa do País, em pleno século XIX. E, no caso, de quanto ela decorria, não tanto do afastamento do povo ou das fraquezas do “baixo clero”, mas em grande parte da falta de exemplo e de orientação, do conformismo do “alto clero”; o qual, pelos vistos, mais prezava a ciência do que a piedade, a universidade do que o seminário.

O opúsculo, esquecido nas estantes de algumas bibliotecas, não faz prova, mas condiz a outras evidências, sinais e sintomas de que o clero português estava dolorosamente dividido e, sobretudo, de que, maugrado as razões externas que para isso tinham concorrido, grande parte delas, talvez as principais, eram do foro interno. Nem admira, se nos lembrarmos que, afinal, sendo o clero a classe intelectual por excelência, que conduzira durante séculos a vida mental do povo português, era por isso mesmo o terreno propício ao surgimento e à proliferação de doutrinas novas ou renovadas, de desvios, quiçá bem intencionados, perante os quais o povo estaria indefeso, se não fosse o bom senso da fé que o animava.

Não menos elucidativo, porém, será constatar que um escritor tão bem informado e independente como era o P.e Sena Freitas, atribuísse às instituições da nossa sociedade, em plena monarquia, uma atitude hostil em relação à Igreja e mesmo, senão principalmente, em relação à crença religiosa. Decerto os campos estavam ainda muito divididos, o assalto ao último patamar do poder não se fizera ainda, mas um sacerdote corajoso, arejado e culto sentiu a obrigação de clamar bem alto contra a passividade dos bispos e contra as razões profundas de uma patente crise. Clamaria no deserto?

Joaquim Domingues

Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s