Lápides, II

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Em São João de Gatão, na casa de Pascoaes. É o dia do aniversário de Dalila Pereira da Costa. Do de minha mãe também. Na véspera, acompanhara o corpo da escritora à sua sepultura, sob o céu elegíaco de uma cinza quase chuva pendendo sobre Agramonte. Há na cidade do Porto, arrabalde de si mesmo, esta paz poética da morte, esta impressão delicada e bucólica que só a Saudade, com as suas mãos de veludo, nos pode dar. Velha quinta de outrora, chega-se ao cemitério vetusto por uma Rua da Meditação; e no outro lado do burgo o campo-santo, venerando, é  um Prado do Repouso.

Agora, a Senhora Dona Maria Amélia trata-me por “senhor doutor”, devolvendo de súbito ao restauro provincial o prestígio vago e desusado de se ser advogado; mas recebe-me numa efusão cúmplice e tocante, com seu quê de familiar, para logo se condoer da passagem da portuense ilustre. Rara e fina leitora de Pascoaes, Dalila fora-lhe sobretudo a amiga.

Na sala de estar, discreteio o reencontro ao cabo de quatro anos. Ouço mágoas, queixumes: a degradação que se abate sob o edifício do solar, o oblívio em que o legado do vate tende a imergir, certa surpresa ante indiferenças inesperadas; retenho, porém, o denodo zeloso que a guardiã, inquebrantável no seu posto, protesta manter até ao fim.

Breve entramos no escritório do poeta. Visita lustral à luz suspensa da eternidade, num trânsito rarefeito de pó doirado. Nem a luz da luz, nem a do Sol; talvez o misto indizível dum istmo. Ainda na primeira sala, comento com a minha anfitriã os motivos maçónicos e templários visíveis nas peças do mobiliário, desenhado pelo próprio Pascoaes: deltas que rematam as costas das cadeiras, a cabeceira do catre; a esquadria de triângulos rectângulos difusos pela madeira; cruzes da Ordem de Cristo inscritas nos armários e rematando as pegas das chaves.

Em silêncio, ingressamos na sala próxima. No momento preciso em que aí me apresto a indagar da existência, naqueles aposentos, de documentos que esclareçam o maçonismo do escritor, a sua sobrinha como que se antecipa, para me perguntar:

– A Zézinha, irmã do Pascoaes, disse-me que não queria que se alardeasse que ele era maçom. Eu não concordo. Que pensa o senhor doutor disso?

Digo-lhe que não vejo motivo para se ocultar essa condição. Que é bem possível interpretar a teoria da Saudade à luz da doutrina maçónica. Que o casamento do Céu e da Terra patente no Maranos me surge prefigurado pelo esquadro e pelo compasso, entrelaçados sobre o Evangelho de João. Mas não explano o que então poderia ter desenvolvido. Que António Cândido Franco viu muito bem a encriptação da palavra marranos no título do livro que encerra o genial poema mítico. Que, a meu ver, na Saudade de Pascoaes, onde se lê paganismo se pode ler judaísmo (só assim, creio, se ilumina a síntese ali oculta do marranismo), se, com audácia, aceitarmos a esquecida tese alvarina da Saudade como uma alegoria da Tradição, e bem assim as recentes asserções de André Benzimra sobre as essências diversas, porém harmonizáveis, das três religiões abraâmicas. Que o politeísmo triunfante do canto Maranos e os Deuses evoca poderosamente Elohim (termo que Fabre d’Olivet traduz por lui-les-Dieux), aspecto ou atributo divino que o judaísmo, religião do Deus da Criação, sobremaneira cultua. Que, de um prisma lusíada, o marranismo pode subjazer, predispor e conduzir ao maçonismo. É ler-se António Telmo e o seu fogoso, genial prefácio a A Miragem Marrana, livro de Alexandre Teixeira Mendes sobre Artur Barros Basto, que, uma hora antes, eu acabara de rever, como um lembrete, ali em Amarante, depois da ponte, numa montra da Rua do Covelo. É perceber-se a identidade da síntese verificada num e noutro caso.

Tais desmandos e sacrilégios haveria eu de os cometer, afirmando-os em público, mais de um mês após, em Sesimbra. E mesmo então não me ocorreria ainda o que só depois pude verificar: que o primeiro canto do Maranos,  todo feito, no seu início, de lágrimas, jejum e desolação, lembra irresistivelmente certas técnicas místicas de pranto, peculiares à cabala hebraica, destinadas a provocar a visão angélica e a revelação profética.

Ora quase tudo isto ficou por dizer junto à estante de onde, acto contínuo, num repente, Maria Amélia de Vasconcelos retirou um volume ricamente encadernado.

– Veja! É o único livro que aqui há sobre maçonaria…

Era, numa edição oitocentista, a Histoire Pittoresque de la Franc-Maçonnerie et des Sociétés Secrètes Anciennes et Modernes, por F.-T. B.-Clavel. Curioso, folheio ao acaso o miolo do volume. À terceira ou quarta página percorrida, detenho-me, surpreso, na seguinte passagem:

En 1806, un Portugais, appelé Nunez, essaya d’introduire à Paris une societé qu’il assurait être la même que l’ordre du Christ, formé en Portugal, en 1314, des débris de l’Ordre du Temple, et qu’il se disait autorisé à établir en France. Son système était divisé en plusieurs degrés d’initiation, dont les formes étaient copiés sur celles des hauts grades de la maçonnerie templière. On ne tarda pas à decouvrir que cet étranger n’était qu’un intrigant, et qu’il avait fait de son ordre prétendu une spéculation toute mercantile. Denoncé à la police par quelques unes des ses nombreuses dupes, il reçut l’ordre de quitter la France.

Devolvo o livro, aberto nesta mesma página, à Senhora Dona Maria Amélia. E digo-lhe:

– Depois do que há pouco lhe frisei, na outra sala, sobre os móveis do Pascoaes, creio encontrar-se aqui a resposta à sua dúvida…

Ao fundo, na derradeira sala, escavada na pedra, fronteira à lareira, uma banheira incrustada no granito testemunha as experiências alquímicas do poeta, pela óbvia relação da água com o fogo, como lucidamente viu Luís Paixão de uma das vezes que veio a Gatão. Não foi de certo a deriva burlesca do Nunez compatrício a tolher Pascoaes de pôr por claro a sua filiação maçónica. Simplesmente, por um motivo qualquer, não chegara ainda a hora de tal se poder fazer. Essa hora viria depois, como nos mostra o caso de António Telmo.

Pedro Martins

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