A guerra da Rosa

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Acontece amiúde que uma causa insignificante desencadeie efeitos imprevistos, por aparentemente desproporcionados; sintoma de que apenas estaria represado o que por via de uma circunstância, em si fortuita, se manifesta; qual gota de água que faz transbordar o copo. Muitos episódios da vida portuguesa, dos últimos séculos sobretudo, constituem emergências de uma crise de natureza espiritual, mais precisamente religiosa, mascaradas sob a capa de questões sociais, políticas ou económicas. Razão pela qual reaparecem ciclicamente, qual doença que, atacada sintomaticamente, persiste e, quiçá, se agrava.

Nesse contexto situo o volume de Bruno sobre A Questão Religiosa, surgido na fase amadurecida do combate iniciado em 1872, no Diário da Tarde, e prosseguido na Análise da Crença Cristã, de 1874. Homem que não dissociava o pensamento da acção, tinha no entanto a humildade e a lucidez para arrepiar caminho quando tomava consciência de ter errado, como foi o caso daquele livro juvenil – “má coisa” lhe chamou –, assim como de outras páginas, escritas sob a emoção dos acontecimentos, por quem não era o frio jornalista profissional, mas, como confessou, um sectário das suas convicções. Aliás, o ambiente social era propício ao exacerbar de atitudes, ao romper de laços, numa generalizada conflitualidade, onde era assaz difícil definir campos estáveis.

Compreende-se, assim, que, não obstante as contundentes afirmações feitas acerca da Igreja, de alguns dos seus representantes ou atitudes, José Pereira de Sampaio contasse entre os amigos vários sacerdotes de valor. Entre eles o P.e José Agostinho de Oliveira, polígrafo hoje pouco lembrado, cuja poesia mereceu os elogios do lusófilo Philéas Lebesgue e que, entre muitos outros trabalhos, redigiu os dois volumes complementares da tradução portuguesa da História de Portugal, de Henrique Schaffer, projecto acarinhado, mas não levado a cabo por Bruno. Ainda em vida do filósofo, José Agostinho publicou o primeiro estudo autónomo acerca do seu pensamento, já então definido nas suas linhas mestras.

Outro foi o P.e José Carlos Alves Vieira, salesiano, que anotando o relato da prisão e sevícias que sofrera, com muitos outros religiosos, logo após o 5 de Outubro de 1910, testemunhou: “A amizade e estima que Sampaio Bruno me consagrou é a mais lídima e pura glória da minha vida. Nunca lhe fiz favores, mas ele tratava-me como se lhos tivesse feito. Conservo as suas cartas e cartões como tesoiro preciosíssimo, de inigualável preço.” (De Artilharia 1 a Caxias. Sentido protesto de uma vítima que a demagogia tratou como réu, edição do autor, impressa na Tipografia Minerva, Famalicão, 1918, p. 147)

Não menos significativas me parecem as linhas imediatas: “Não sei como um homem daquela bondade pôde escrever A Ideia de Deus; bom no seu fundo, era a cabeça que o traía. Quero crer que na hora suprema o divino Juiz terá rasgado aquelas páginas, perdoando ao bom coração de José Pereira de Sampaio aquela grande loucura escrita.” Vê-se que o grato sacerdote, que acabaria os seus dias na casa onde nascera, em Vieira do Minho, por sua parte rasgara e perdoara outras páginas, como as ainda recentes de A Questão Religiosa. É aí que, recordando ter-se iniciado no jornalismo em combate contra os reaccionários e o jesuitismo, ele transcreve as que redigira em face da nova manifestação do fenómeno ocorrida em 1901, num pacato Domingo de Inverno, a uns cento e cinquenta metros da sua residência, sem que dele tivesse tido no entanto conhecimento directo, não obstante ser seu costume não sair de casa no Dia do Senhor.

O incidente e o respectivo contexto são objecto de um prestante estudo de Pinharanda Gomes, largamente documentado, sob o título “O rapto da Rosa. O caso Calmon”, que nos dispensa de o rememorar agora (O Tripeiro, Porto, Maio de 2001). Para o que nos interessa, basta registar que em 1907, ao retomar a questão, o publicista ainda se indignava porque, “em Portugal, como em Espanha, como em França, a hedionda Ordem de Jesus, o abominável – e desprezível – jesuitismo procurava levantar uma questão religiosa”. Razão pela qual entendia que religiosos e não-religiosos se encontravam todos “em uma colisão comum. Isto é, na colisão civilista do jesuitismo contra o liberalismo” (pp. 198-199).

Conforme se depreende dos relatos do caso, a presumida tentativa de rapto da filha do Sr. Calmon, Rosa de seu nome (cujo único testemunho registado foi para negar que estivesse doida, conforme alegava o pai, exibindo o atestado médico), despoletara um conflito latente, se não já patente. Com efeito, a ser verdade que, directa ou indirectamente, uma congregação religiosa tentara retirar aos pais uma filha maior, mas sem o pleno uso das suas faculdades mentais, motivo seria para grave escândalo; mas abusivo era ainda assim generalizar a partir dele, tomando-o como resultado de uma orientação comum às instituições congéneres. O que pode surpreender ainda mais é que a questão tenha ocorrido dez anos antes da proclamação da República, sintoma de uma já então notória irredutibilidade entre estratos da sociedade portuguesa, cuja conflitualidade, a bem ver, mais do que para a ordem política, na acepção corrente, remetia para a ordem cultural, mental ou espiritual.

Uma das consequências do que, objectivamente, terá sido um caso menor e nem sequer devidamente averiguado, foi a promulgação – pelo governo monárquico – de legislação restritiva das congregações religiosas, com o encerramento de vinte e tantas casas em diversas localidades. A vida consagrada em comunidades regulares suscitava então a mesma antipatia que em 1834 levara à extinção das ordens religiosas; cuja posterior reintrodução se fizera por vezes através de novas congregações ou diferentes designações e de cidadãos estrangeiros ou formados além fronteiras; o que se prestava a suspeições e melindres. Em todo o caso, mal se compreendia que o governo limitasse o direito de associação para fins religiosos, como fez em 1901, reconhecendo a existência legal apenas das congregações cuja finalidade fosse de ordem assistencial e proibindo a emissão de votos ou a profissão numa ordem cuja finalidade fosse exclusivamente a oração!

Quem verberou esse estranho alinhamento do governo com os adversários da Igreja oficial do Estado Português foi o P.e Sena Freitas, homem inquieto, mas culto e largamente conhecedor do mundo, num opúsculo de título polémico, Quem são os Verdadeiros Reaccionários. A propósito da questão sobre as congregações religiosas, Coimbra, 1911. Sem cair em ataques pessoais, não deixa de apontar o papel do “jornalismo portuenses, sobretudo”, onde maior guerra se fazia contra o jesuitismo e os reaccionários, pelo que decerto teria em mente, a par de outros, os artigos de Bruno, cuja tónica, efectivamente, era essa. Começando por chamar a atenção para o óbvio, ou seja, que não obstante os erros que admite poderem assacar-se à Companhia de Jesus, bem maiores eram os seus méritos, tanto religiosos, como científicos e humanitários; rejeita o absurdo de atribuir a todas as ordens ou congregações os erros que num ou noutro caso seria justo condenar, sem esquecer, contudo, que os consagrados não deixam de ser homens, sujeitos às comuns fraquezas.

Não menos abusivo era acusar de reaccionários os que, pelo contrário, eram as vítimas da reacção, pois não tinha outro carácter a campanha contra as congregações, as quais, apesar do contribuírem para debelar os males sociais, viam negado ou condicionado o elementar direito de associação. Dirigindo-se a Hintze Ribeiro, Sena Freitas aponta na legislação por ele promulgada indícios de que “o governo aspira a reunir em si e a exercer as duas soberanias, temporal e espiritual” (p. 14). E mais adiante, numa estocada directa, acrescenta: “Detestam-se as congregações religiosas, porque se detesta o catolicismo de cujas entranhas brotaram, detestam-se porque, de par com o bem que realizam, ensinam o nome adorável de Jesus,  o amor de Deus e o respeito dos seus mandamentos, condições diferenciais da vida humana, que não é propriamente a da besta […]” (p. 25).

A fim de retirar margem de manobra a qualquer réplica, o ousado clérigo declarava: “Hoje que já conto 60 anos, continuo a ser republicano como em todo o meu passado”; se bem que distanciado do partido, cujas “tendências dissolventes” não podia partilhar. E fazia até a apologia da Revolução Francesa, que teria sido “em muita cousa uma genuína adaptação do eterno Evangelho à sociedade civil”; juízo que matizava, no entanto, ao afirmar: “Pereça a época nefasta de 93 sob o sol meridiano de 89, em tudo quanto os seus raios fizeram pulular da terra para a verdade e para o amor” (p. 16). Apesar de tudo, tinha de concluir: “o conflito está travado entre o governo em colaboração com a imprensa anti-católica, e as congregações passivas, desarmadas, à mercê do quero, posso e  mando de um decreto despótico” (pp. 44-45).

Mal aconselhado decerto pela indignação, acrescentaria ainda um apelo aos fiéis para se reunirem, formando “centros nacionais que orientem a família católica portuguesa na sua acção colectiva e dalguma sorte coordenem esta força viva para a conquista da liberdade, da ordem, do direito e da religião”. Face à reacção anti-católica a solução passaria, pois, pela formação de um partido representativo do povo cristão, que assumisse o poder em seu nome, para o que havia de preparar já as próximas eleições. Assim é que o “Povo soberano” haveria de lançar “parlamentarmente por terra a obra arbitrária que se perpetrou extra-parlamentarmente” (p. 46).

O infeliz alvitre não caiu em saco roto, agravando a partidarização da questão religiosa, que era precisamente o mal que importava combater. Para lá dos episódios mais ou menos bem documentados, porém, ressalta desta brevíssima incursão que no dealbar do século XX, dez anos antes do 5 de Outubro, a linha de fractura da sociedade portuguesa era de ordem religiosa, sem embargo das vertentes política, social e mental. Como compreender, no entanto, que isso acontecesse num País onde nenhuma outra religião tinha representatividade bastante para ombrear com o cristianismo e cujo povo permanecia reconhecidamente católico?

 Joaquim Domingues

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