António Telmo e Mário Cesariny

 

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Ao Carlos Aurélio, querido Amigo

na esperança de que ele desenhe a Cabra

Ainda não se reparou na importância da imagem da Cabra no primeiro texto que António Telmo deu à estampa sobre Mário Cesariny, “A Cabra”, e que resultou do encontro entre os dois no cemitério de Gatão, nas alturas do Tâmega, em Dezembro de 2002, encontro que Pedro Martins recriou agora na sua primeira lápide.

Talvez a imagem passe despercebida, porque, apesar de estar no título, ela apenas volta a aparecer nos dois últimos parágrafos do texto. De qualquer modo, mesmo sem mais, a imagem irradia a partir do título a todo o texto e tem por fim nos dois parágrafos finais um momento de explosão, que merece a melhor atenção do intérprete.

É numa frase de Cesariny sobre Pascoaes que pela primeira vez se alude à Cabra no miolo do texto. Que diz Cesariny – citado por Telmo? Compõe com as palavras uma analogia entre Bernardim e Pascoaes, a partir de dois termos tirados da natureza, a cabra e o elefante.

A analogia é um jogo de poetas, como viu Aristóteles. Cesariny a lidar com Pascoaes e Bernardim, chamando ao primeiro elefante e ao segundo cabra, é poeta e poeta altamente imaginativo – como de resto são todos os que trabalham o pensamento por analogias. António Telmo, que também era poeta, não resistiu à analogia, pegou nela e desenvolveu-a, desta vez para comparar Cesariny e Pascoaes, ficando o primeiro a ser a cabra e mantendo ao segundo a analogia do elefante.

Parece claro que o texto “A Cabra”, até pelo seu título, só pode ser entendido como o diálogo de dois poetas. No núcleo do texto o que se encontra são dois humanos que se entretêm a jogar as imagens entre si, num passatempo próprio de poetas e de jogadores. Um tira da manga uma dupla comparação e o outro volteia com ela, metamorfoseando-a.

De resto o primeiro momento captado por Pedro Martins, no cemitério do Tâmega, é já um diálogo de dois poetas – ou se quisermos o frente a frente de dois cabalistas ou de dois jogadores de palavras. Segundo o retrato de Martins, lavrado no melhor mármore, no centro do diálogo entre os dois, e não por acidente, esteve a arte poética – a de Horácio, quer dizer a de Cesariny, e a da Telmo, quer dizer a de Aristóteles.

“A Cabra” é a continuação do jogo que começou no cemitério de Gatão. É por esse motivo um texto capital, quer para Pascoaes, quer para o entendimento da Poesia e das relações desta com a Filosofia, porque é de questões cruciais e transcendentes como estas que o diálogo havido no cemitério de Gatão trata.

Acredito que também no texto posterior ao encontro do cemitério, e que lhe deu a seu modo continuidade, são questões superiores que estão em jogo. Mas só será assim se por um momento formos capazes de suspender o quadro exterior de valores e de juízos em que tudo surge na aparência – Surrealismo e Filosofia Portuguesa – para nos concentrarmos apenas nas imagens analógicas postas em jogo no texto.

Acompanhemos então as imagens, que diga-se desde já não são neste jogo meros enfeites de adorno, mas arcanos fortes. Respeite-se pois o seu mundo, aceite-se o seu modo e siga-se por dentro o seu valor poético.

A imagem que mais importa, a que se impõe do princípio ao fim, é a cabra; o elefante faz a vez do termo morto da analogia e a girafa e o gato, também citados no excurso de Cesariny, mas não no de Telmo, são apenas um caso de generosidade. Se repararmos bem, a cabra é a única imagem viva, que corre dum lado para o outro, de Cesariny para Telmo e de Bernardim para Cesariny.

Neste exercício de dar à cabra um lugar central do jogo analógico começado por Cesariny, eu próprio poderei acrescentar uma nova jogada. Dos três poetas em jogo – Bernardim, Pascoaes e Cesariny – dois tomam por analogia a imagem da cabra e um fica de fora, como elefante, Teixeira de Pascoaes.

Ora a minha jogada é dizer que Pascoaes é mais cabra que elefante. Vou mais longe: dos três poetas postos na mesa, o mais digno da analogia caprina é Pascoaes.

Com isto não digo que o elefante saído do delírio de Cesariny, e aceite por Telmo, não seja animal de Pascoaes. Basta dizer que ainda hoje as paredes da casa de Pascoaes estão recheadas de sinais alusivos a ele. Tenho para mim porém que o verdadeiro elefante de Pascoaes é João Teixeira de Vasconcelos, que escreveu um livro chamado Memórias dum Caçador de Elefantes, e não o seu irmão, o poeta Pascoaes, cujo sinal é caprino.

Alguém seria capaz de ver no retrato de Pascoaes feito por Columbano, que é o melhor retrato da sua alma, um elefante? E quem não vê o bode a rir nessa pincelada de lume?

Desenvolva-se um pouco mais esta analogia caprina de Pascoaes. Comecemos pelo lugar e por uma memória que da casa de Pascoaes nos deixou Maria José Teixeira de Vasconcelos, que nela cresceu e viveu, filha que era duma irmã do Poeta: Ângelo César vinha também com a família. Trazia os quatro filhos. Estes quatro juntavam-se aos três meus primos, filhos do Tio João, e formavam um grupo encantador e perfeitamente endiabrado. Basta dizer que um dos seus divertimentos favoritos era passear as cabras pelos telhados da casa. (Na Sombra de Pascoaes, 1993, p. 61)

Note-se bem: cabras a passear nos telhados da casa de Pascoaes. A imagem é tocante. É possível a partir dela fazer da cabra um totem do lugar, ver nela um pára-raios da casa, um relâmpago de luz, uma imagem viva e irradiante.

Só que essas cabras parecem pertencer a uma nova fauna zoológica, que aspira mais às estrelas do que à erva dos pastos. Não é o caso das peças de elefante que decoram o interior da casa.

Cruzeiro Seixas quando procurou, através da colagem de vários materiais, concretizar no papel os seus delírios com a casa de Pascoaes, que visitava há anos, fixou-se por natural inteligência da sua sensibilidade nos telhados.

O que daí resultou foi uma fotografia da fachada, com um segundo nível, acima do telhado, não fotográfico, povoado por uma fauna psíquica. Essa fauna que povoa o segundo estrato é a multiplicação da cabra astral, de rabo de peixe, no pináculo do mundo, essa cabra totémica, supra-zoológica, mais interessada na luz das estrelas do que nas pedras da terra.

Não custa nada associar esta cabra trepadora, este bicho de quatro patas que se empoleira nos telhados duma casa, para ganhar asas no dorso e estrelas nos olhos, ao próprio Pascoaes, a escalar com os pés o Marão, na ascese de Marános, embalado pela embriaguez da luz do amor e do amor pela luz.

Ver no poeta do Marão a cabra trepadora é por sua vez lembrar aqueles anjos de pés fendidos que Pascoaes tão obsessivamente modelou com o pincel e que parecem ser a sua fauna psíquica mais característica – é a mesma que baila em tantos dos seus livros. É espantoso que essa criação poética seja a mesma que as crianças do lugar – João Vasconcelos e os filhos de Ângelo César – se entretinham em tempo simultâneo a viver nos telhados da casa.

O encontro de Mário Cesariny e de António Telmo ao pé das cinzas de Teixeira de Pascoaes, foi o encontro de duas correntes psíquicas poderosíssimas, volitando ambos na vizinhança do autor do Verbo Escuro. Pedro Martins electrizou no seu retrato certeiro a tensão fortíssima que se criou naquele campo psíquico.

O resultado dessa tensão foi como sabemos “A Cabra”. Se formos capazes de abstrair do grau de perturbação moral em que o texto foi escrito, perceberemos porém nele outra coisa que não é juízo nem valor: a captação dum símile poético duma força extraordinária para compreender o território de forças de Pascoaes.

Visto a esta luz, o texto de António Telmo não tem qualquer desprimor para com Cesariny – e, com menos ou mais cama, pouco importa, ele mesmo afirma este sem desprimor no final, o que confesso me passou despercebido em primeiras leituras.

Telmo nesse texto faz-se um parceiro de jogo de Cesariny e põe-se a jogar com ele. De resto, sabemo-lo agora pelo retrato de Pedro Martins, já o mesmo fizera no cemitério de Gatão. Os jogos que os poetas jogam nunca têm fim, não morrem e estão sempre em aberto. Para se desenvolverem só necessitam da imaginação do jogador que entretanto chega e se junta ao jogo.

O jogo que António Telmo e Mário Cesariny se puseram a jogar – e sabe-se muito bem porquê, ou não estivessem eles no campo de forças de Pascoaes – é um jogo que está em aberto. Parece haver muitas cartas ainda por sair, qual delas a mais surpreendente. Eu limitei-me a pegar no baralho existente e a introduzir uma nova carta, a da figuração caprina de Pascoaes – a mais evidente. Convenço-me porém que as cartas de maior valia ainda estão neste jogo por sair.

Os jogos que os poetas jogam parecem aos olhos dos adultos brincadeiras tontas de crianças sem juízo. São jogos às vezes altamente perigosos, como o de Telmo-Cesariny parece ter sido, com a inteligência luciferina do primeiro e o treinadíssimo automatismo psíquico do segundo (capaz de furar paredes), mas é por eles que se vive a vida do espírito, que é avida admirável das imagens e das ideias.

Respeitemos pois o grave e perigoso jogo que esses dois altos espíritos começaram a jogar em campo santo e, se possível, entremos nós na roda e façamos surgir um novo arcano.

 António Cândido Franco

3 de Junho de 2012

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