Da Cartilha à Gramática: as razões de um colóquio

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 Se considerarmos o subtítulo do ciclo Congeminações: o legado da Renascença Portuguesa: livros e autores, poderá parecer estranho termos incluido a figura de João de Deus no conjunto dos protagonistas, tendo em conta que foi contemporâneo da geração de 70 e que falecera já antes da publicação do primeiro número da revista A Águia, órgão oficial da Renascença Portuguesa. Impõe-se, pois, que se esclareçam as razões pelas quais decidimos a sua inclusão:

 

As razões do fundador da Renascença e d’A Águia. Teixeira de Pascoaes:

“O Desterrado é a saudade amorosa de Bernardim, a saudade religiosa de Frei Agostinho da Cruz e o vulto do Encoberto, visionando, cabisbaixo e triste, a manhã nevoenta do seu regresso…

O verbo lusíada reencarnou. João de Deus restituiu-lhe a fluidez, a graça, o ar luarento em que se formam as mais delicadas formas de amor e da saudade:

Não sei o que há de vago,
De incoercivel, puro,
No voo em que divago,
Á tua busca, amor!
No voo em que procuro
O bálsamo o aroma
Que se uma forma toma
É de impalpável flor…
 
Vai-se a tarde despedindo,
Vai fugindo,
Vai levando a luz do céu…
Vem –se a noite aproximando,
Desdobrando,
Desdobrando o negro véu…
 
Horas são. Desce, ó mistério,
Mistério do meu amor.
Desce, desce, aéra sombra,
Não me assombra
Teu fantasma assustador!
 
Quando a minh’alma nasceu
Para onde olhou primeiro,
E viu tudo um nevoeiro
Foi lá cima para o céu…
Que a alma nunca lhe passa
De ideia a fonte da graça …..
 

Estes versos de infinita suavidade musical, onde o Desejo em flor se orvalha em ternura, e sobe em perfume, ao absoluto êxtase amoroso! Estes versos que são beijos volatilisados numa prece, acesos num luar que se insinua nos mais íntimos e obscuros recantos de um coração enternecido; estes versos, tão frequentes no lirismo de João de Deus, representam as primeiras místicas nupciais da Lembrança com a Esperança, depois de Frei Agostinho.

 

As razões patrióticas do Ensino:

João de Deus é da linhagem patriótica, daqueles homens de cultura e espírito que, além do exercício da actividade literária susceptivel da compensação dos prémios da fama, raramente materiais, se dedicaram ao Outro, e que é ele também, neste caso o povo português, criando métodos de aprendizagem, instituições ou ainda formando docentes. Os frutos destas actividades, quanto mais fundo vão as raízes das suas árvores, mais tarde se poderão colher, não tendo muitas vezes os seus autores o privilégio de os usufruir. Estão neste rol o grande amigo Teófilo de Braga, compilador da sua obra poética, positivista, professor da Faculdade de Letras de Lisboa e, segundo Álvaro Ribeiro, um precursor do movimento da Filosofia Portuguesa; Leonardo Coimbra, fundador da Faculdade Letras do Porto; Álvaro Ribeiro com a sua trilogia de obras de pedagogia e didáctica: Escola Formal, Liceu Aristotélico e Estudos Gerais; e, já contemporaneamente, António Quadros e Lima de Freitas, com a criação do IADE. A lentidão dos processos de absorção e interiorização culturais, até que se tornem aceites e adoptados, envolve às vezes mais de um século, sendo a obra de João de Deus exemplar deste ponto de vista, envolvendo várias gerações tanto culturais como da sua família natural. Aplica-se aqui o dito de Álvaro Ribeiro, que, na ausência de reconhecimento público em vida, comentava com os convivas que era coisa que não o preocupava, porque era seu propósito escrever “para longe”.É pois notável que sendo João de Deus um homem nascido em 1830 e falecido em 1896, e pese embora a sua Cartilha Maternal já fosse ensinada no país pelas Associação das Escolas Móveis, apenas nos números 8 e 9 da primeira série da revista A Águia venha anunciada a construção do primeiro jardim-escola João Deus do país, em Coimbra, projectado pelo arquitecto Raul Lino e promovido pelo seu filho João de Deus Ramos. A notícia é acompanhada pelo já proverbial comentário de dificuldades criadas pelos poderes públicos para a sua concretização. Podemos pois afirmar que o poeta estará na génese Renascença Portuguesa (que nos desculpem a redundância). Estamos em crer que a designação Cartilha Maternal, tendo literalmente a ver com as mães como primeiras responsáveis pelo ensino da língua, se aplica também à língua entendida como mãe e habitação da alma humana, também ela portadora do segredo de um novo nascimento.

 

As razões de hermenêutica e de afinidade com o patrono da associação cultural:

António Telmo, tambem ele distinto professor, no seu decisivo e injustamente esquecido livro  Gramática Secreta da Língua Portuguesa, apresenta  João de Deus como o seu percursor na sagração da língua portuguesa, demonstrando como os seus elementos fonéticos estão completamente harmonizados com a ávore da cabala. Sugere assim, nesse seu livro, o criptojudaísmo de João de Deus, devido à afirmação do poeta de que o que vai escrever vai ser pela primeira vez dito, ou seja, estava oculto e vai ser desocultado: a decomposição da língua em fonemas, pelo comummente designado método analítico, que é coincidente com a consonantização das línguas semitas, que, como se sabe, são consideradas sagradas. Este livro de difícil leitura, e que Álvaro Ribeiro muito prezava, é verdadeiramente uma subida, uma escalada à nascente dos sons, uma viagem do adulto à pureza infantil, um verdadeiro asseio para a alma, pelo inédito de nos confrontar novamente com o soletrar. Dada a visão inovadora e despida de preconceito historicista, não é, portanto, um livro para o exercício cousificado da filologia. Em virtude da sua permanente inspiração poética e musical tornando-o numa espécie de bípede já emplumado e alado. António Telmo considerava João de Deus um ser humano próximo do estado primordial adâmico: era um exemplo vivo e presente da mais alta humanidade.

Luís Paixão 

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