A teologia que Queiruga quer

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1. Não sou teólogo, antes fora tão só e adjectivamente teófilo ou, então, um justo, que era o que mais convinha ao que venho: alinhavar algo ajustado a propósito da polémica recente sobre a Ressurreição de Cristo a qual, só polemiza, porque parte de dentro da Igreja, ou melhor, porque levantada por teólogos católicos sujeitos à cultura moderna vigente. Sendo polémica não deve descer a guerra mas precisa ser combate, o qual começa na obra do padre galego Andrés Torres Queiruga, agora clarificada e rejeitada através de uma nota da Conferência Episcopal Espanhola datada de 29 de Fevereiro de 2012.[1] Entretanto, e à liça por Queiroga vieram, entre nós e entre outros, alguns dos que o nosso jornalismo dominante dá voz repetida, os padres teólogos Anselmo Borges e Carreira das Neves.

Antes de mais Andrés Torres Queiruga pretende, julgo que honesta e seriamente, que o cristianismo se integre na modernidade, diria eu de forma absolutamente total e aqui começa o que se rejeita pois sempre os cristãos perceberam este mundo, profano e humano, distinto do Criador ainda que o sagrado, em última instância, tudo sustente. Queiruga não quer ver-se excluído culturalmente como cristão, propõe mover-se em expressão de um Deus “todo amor”, ao invés desse outro que, no passado próximo, parecia suscitar medo. Sendo o propósito em aparência louvável logo se adivinha que, tais vias interpretativas do teólogo galego, possam decair a jusante na mais óbvia falácia moderna, precisamente aquela que conduz a negar o Absoluto como transcendente, absolutizando o relativismo, levando a fé cristã a ceder «às categorias da cultura dominante», assim refere o documento dos bispos espanhóis. Acresce que, da obra de Queiruga, se pode deduzir incompreensão quanto ao bíblico “temor a Deus”, traço que o irmana com vastos sectores religiosos da modernidade. O “Deus é amor” joanino não tem que coincidir na demagogia temerária dos que não temem Deus, excluindo-se, claro está, o sentido justiceiro do divino, antes porém propõe, justamente, que se tema e anule a auto-suficiência dos que tudo sabem, permitem e decidem em mero sentimentalismo humanizado de Deus, o metem no bolso, o apreendem e analisam como objecto teológico, sem que o vivificante conceito de Mistério lhes inquiete a alma perante a magnitude insondável da transcendência. Ficam, pois, a um passo de negarem a menor intuição e abertura ao sobrenatural. Ora, o Deus Revelatus (o Filho) não tem que anular o Deus Absconditus (o Pai) e, sempre o “temor a Deus” há-de permanecer como fonte da Sabedoria e dom do Espírito Santo ensino, aliás, que o Livro de Isaías cedo comunicou aos que aprenderam a não julgar pelas aparências.[2] É, por tais interstícios de silêncio, aberto e temente porque anulante da vã subjectividade, que a intuição sonda o Mistério pelo qual tudo o que foi, é e será possa caber na asserção definitiva de que “Deus é amor”.

2. Se nos dispusermos a ler o documento emitido pelos bispos espanhóis veremos, sucessivamente aclaradas e dirimidas através dos fundamentos doutrinais da tradição da Igreja Católica, cinco das teses de Queiruga susceptíveis de obscurecerem o crente mais distraído: o seu novo paradigma da Criação, os seus conceitos de Revelação e de pluralismo teológico assimétrico, a Ressurreição de Cristo e o problema da Escatologia. Não cabe aqui a sobreposição ao referido documento episcopal mas, convém, afirmar similar combate face a posições interpretativas que notoriamente colidem não só com a tradição e a essência de Igreja, como até com uma filosofia religiosa que mantenha coerência com o conceito de Verdade Revelada, sem a qual, deixa de se entender o que venha a ser a teologia. Diga-se, aliás, que a referida nota dos bispos é de uma frontal elegância a toda a prova, onde nem sequer cabe a palavra condenação, ao contrário do que afirma Anselmo Borges[3] e, muito menos, se vislumbra o mínimo ataque de argumento ad hominem. Ainda assim, não farão mossa alguns alinhavos de um teófilo que, sem ser teólogo, apenas se propõe ajustar-se ao que deve.

Queiruga, inapelavelmente, obriga o Criador a sujeitar-se à autonomia das leis da natureza, um pouco como se proibíssemos, por analogia, que Camões corrigisse as gralhas com que a edição debilitasse Os Lusíadas. Os milagres ficam portanto impedidos, facto agradabilíssimo a qualquer positivista ou ateu, preconceito que obsta o vislumbre do que venha a ser o sobrenatural perante o qual a modernidade se esvazia e ri, enquanto enfatiza o infranatural em vampiros de cinema ou em feitiçariazinhas de Harry Potter. Por cá, basta abrir os livros de Saramago para neles se perceber a mesma amputação da integridade humana quanto à relação com o transcendente, o qual, paradoxalmente, tanto se insiste em combater. Se não existe, porquê estar sempre a negá-lo? Não havendo milagre ou indício de sobrenatural, toda e qualquer bem-aventurança que remeta para a graça perde o sentido, a não ser se inclusa em potencialidade humana, falácia que tanto inebria a modernidade, pois por aqui se reduz o divino a imanente, se idolatra o humanismo e se nega o Espírito Santo como Paráclito na história dos homens. O divino é-nos sempre interior, asseguram. Esta tese recorrente em sua origem gnóstica, antes parece reduzir a alma a capacidades naturais susceptíveis de nela se exercitarem técnicas mediúnicas de meditação e, das quais, Deus e a oração podem e devem ser excluídos. Deus criou o mundo e ausentou-se para férias noutra galáxia.

Dito isto, desaparece a oração propiciatória em seu exemplo sublime que é o abandono ou fiat de Maria em sua virgindade edénica perante o problema do mal manifestado pelo voluntarismo egoísta. Na alma que se entrega ao Espírito é que se vive a liberdade suprema dos que se realizam em Deus. Os sacramentos nisso colaboram como meios ininterruptos do milagre do Deus da relação pessoal e, se decaem em cerimónia humanizada, o protestantismo surge. Aí chegaremos pela teologia que Queiruga quer.

3. No que diz respeito à Revelação o teólogo galego prossegue a sua amizade com a infértil e inconsequente filosofia vigente: o conhecimento, entregue em absoluto à ciência, recolhe-se às migalhas que sobram desta perspectiva única em época de falaz pluralidade. Neste contexto, não é possível o espaço para a Revelação divina através da palavra sagrada, assim reduzida a cultura datada. O Mistério da Encarnação em Cristo, inteiramente homem e inteiramente divino, sendo só por si paradoxo poderosamente criador, decai na mais rasa vacuidade. Para Queiruga a revelação é um “dar-se conta” da centelha divina no íntimo de cada um, propósito louvável, diga-se, mas que uma vez mais, bem pode prescindir da fé como virtude teologal e dádiva de Deus. Por esta maiêutica perpassa um certo neoplatonismo mal adaptado pois nunca os inteligíveis deixaram de habitar no conceito de Deus transcendente a precisar revelar-se, amoroso, em sua imanência no mundo. A revelação cristã em Queiruga jamais ganha foro de Verdade, antes subjaz em subjectivismo onde todas as culturas participam em pé de igualdade e, deste igualitarismo, nascem todos os desajustes promotores do pluralismo assimétrico que este teólogo tanto enfatiza. Uma vez mais o relativismo volta a absolutizar. Para o autor não há pois plenitude na revelação cristã. Mas, então, que sentido terá a afirmação de Cristo: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por Mim?»[4] Esta religiosidade ecléctica que visa ser ecuménica na base do maior denominador comum impede o salutar diálogo inter-religioso, pela simples razão que nela se diluem os pólos necessários para conversar e convergir.

4. Outro decisivo aspecto prende-se com a Ressurreição de Cristo que em Queiruga se pode escrever com letra minúscula, pois não foi acontecimento único, tão só passagem espiritual e imediata à morte de Jesus, similar ao comum dos mortais. Para este Autor, sendo a ressurreição real ela é integralmente sustentada pela fé dos apóstolos, isto é, não aconteceu literalmente, num daqueles processos mentais em que a teologia coincide com a racionalidade mais rasa. Cristo ressuscitou “apenas” em espírito sem a necessidade primária do corpo, isto num assomo neodocetista que assim transforma o Corpo de Glória do ressuscitado em fantasma ou em superior metáfora que os apóstolos aceitaram experimentar. Tudo é meramente testemunhal como para aí acarreta o Padre Carreira das Neves, sem que haja correspondência com a ressurreição do corpo. Todavia, recordemo-lo, os Evangelhos mostram a dificuldade dos apóstolos em crerem na ressurreição como que reagindo a algo fora dos limites da positividade física, culminando na exigência de Tomé até que este metesse a mão na ferida do lado do Senhor (não se percebe como pode haver ferida sem corpo!), ou de como os dois de Emaús só o tivessem reconhecido ao partir do pão ou, também, quando o corpo ressuscitado se veio impor às testemunhas comendo peixe nas margens do lago em Tiberíades. Eis pois um espírito que passa o tempo a querer provar que também é corpo, certamente que corpo de glória, incorruptível e eterno, mas corpo.

Ora, tudo isto vem nas Escrituras e ninguém obriga, fora da fé, a que creia. O problema é como alguém, de dentro da fé, faz por artifício desaparecer o corpo do ressuscitado em passes de teologia cujo logos, tão fraco em conhecimento crente, nega a Palavra de Deus. Prefiro ser teófilo. Apetece ainda afirmar como São Paulo: «(…) se Cristo não ressuscitou (…) é vã a nossa fé».[5] Ou talvez, seguir o desafio de Miguel de Unamuno que, perante a proposta de se resgatar D. Quixote dos incréus como o foram o bacharel, o cura e o barbeiro na terra do cavaleiro da Mancha antes invectivou que «(…) deveríamos ir em demanda do sepulcro de Deus e resgatá-lo de crentes e incrédulos, de ateus e deístas que o ocupam, e esperarmos ali, dando voz ao supremo desespero, derretendo o coração em lágrimas até que Deus ressuscite e nos salve do nada».[6] Se a teologia de Queiruga tivesse ido por aqui, ainda iria eu com ele, reactualizando uma Ressurreição que para além da história é também meta-histórica em sua necessária vitória sobre como suicidamos em nós o divino nesta vida sanguessuga e insistente com que depositamos Deus no sepulcro sem que ressuscite.

5. Urge terminar. Os teófilos não têm que falar muito, antes deixam perguntas:

─ Se André Torres Queiruga pensa o que pensa e, nisso parece apontar a uma certa expressão plausível de protestantismo, porque não seguir por aí?

─ Todo o crente pode às vezes dizer: «E se Deus não existe?»; pode o ateu cismar: «E se afinal Deus existe?». É legítima a dúvida que é sinal de humanidade, a fé, também. Pode um católico interpretar teologicamente, mas poderá anular toda a tradição exegética da Igreja como se a teologia começasse em si próprio?

─ Como corolário da cultura vigente muitos jornais que dão voz aos teólogos do costume (Anselmo Borges, Carreira das Neves, etc.) têm veiculado as legítimas opiniões de quem neles escreve, mas nunca informaram em detalhe e cabalmente sobre o notável documento dos bispos espanhóis. Porquê?

─ Há um ponto nevrálgico em Queiruga que tomo por incompreensível: como é que a um Deus Criador, transcendente e “todo amor” lhe pode estar vedado intervir amorosamente na obra criada ainda que decaída, não obstante a passível “arbitrariedade” do ponto de vista humano quanto ao milagre e à graça?

Outras perguntas ocorreriam. Entre o largo e suposto conhecimento humano, teológico ou científico, tanto nos falta! Como essa coisa simples que um dia Salomão pediu ao Senhor ─ «Dai (…) ao Vosso servo um coração sábio (…)»[7]─  isto, em vez de um cérebro abstracto, uma carreira académica ou uma erudição inútil, facilmente suplantados pela sabedoria infusa de uns tais pequenos pastores de Fátima ou de uma qualquer e desconhecida veneranda mãe camponesa. Como ficaríamos angustiados, não fora a asserção do próprio Cristo perante a pedra sobre a qual fundou a sua Igreja confirmando que as portas do inferno, nada poderiam contra ela![8] Ou, como responder em afirmação convicta à pergunta evangélica do Senhor Jesus Cristo: «Mas, quando o Filho do Homem voltar, encontrará fé sobre a terra?»[9]

Por fim, um auspício de alívio: ainda bem que a nota episcopal, assinada pelo bispo de Almeria, D. Adolfo Gonzalez Montes, traz a data de 29 de Fevereiro do ano presente, 2012 e bissexto. No ano próximo o aniversário deste documento nem sequer existirá e, com um pouco de sorte e melhor vontade, até poderemos supor que nada disto aconteceu. O Padre Andrés Torres Queiruga poderá teologar dialogando de novo, talvez um pouco mais teófilo e, quem sabe, na graça de que o Ressuscitado lhe faça o milagre de vir a crer no sobrenatural.

Abril de 2012, Carlos Aurélio[10]               


[1] Ver: www.forumlibertas.com de 3-04-2012

[2] 1 Is 11,1-3

[3] ANSELMO BORGES, Teólogo condenado: da criação à ressurreição, in Diário de Notícias, 7-Abril-2012.

[4] Jo 14,6

[5] 1 Cor 15, 14

[6] MIGUEL DE UNAMUNO, El Sepulcro de Don Quijote in Vida de Don Quijote y Sancho, Catedra, Letras Hispânicas, 3º Edición, p.152.

[7] 1 Rs 3,9

[8] Mt 16,18

[9] Lc 18,8

[10] Declaração: o autor deste texto nunca leu nenhum livro de André Torres Queiruga e, portanto, faz fé na honestidade intelectual de quem redigiu o documento dos bispos espanhóis, tal como crê na seriedade de propósitos do teólogo galego. Temeridade? Nem por isso. Se não fosse assim, não nos sentiríamos autorizados a abrir a boca sobre um milionésimo do que falamos.

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6 respostas a A teologia que Queiruga quer

  1. Espantoso! Uma tal chusma de juízos sobre o que assumidamente se diz desconhecer!… Digno dos melhores acólitos inquisitoriais! Ficamos a saber que a verdade está no bolso dos bispos espanhóis! Lamentável e deplorável.

  2. Espantoso! Uma tal chusma de juízos preconceituosos sobre o que assumidamente se declara desconhecer! De tudo isto apenas se fica a saber que para o autor a verdade está no bolso dos bispos espanhóis. A filosofia pelas ruas da amargura da ideologia religiosa. Profundamente triste.

    • João Azevedo diz:

      Sr. Paulo Borges, onde estão os juízos preconceituosos? Ou será que, seguindo o senhor o Budismo, nada percebe de Cristianismo? Os juízos feitos neste texto são inteiramente pertinentes do ponto de vista de alguém que crê na ressurreição de Cristo. Ela – e a Encarnação – é o núcleo da crença do cristão. O teólogo em causa, como bem diz C.A, tem uma visão totalmente deformada do acontecimento da Ressurreição. Cito: «Para este Autor, sendo a ressurreição real ela é integralmente sustentada pela fé dos apóstolos, isto é, não aconteceu literalmente, num daqueles processos mentais em que a teologia coincide com a racionalidade mais rasa. Cristo ressuscitou “apenas” em espírito sem a necessidade primária do corpo, isto num assomo neodocetista que assim transforma o Corpo de Glória do ressuscitado em fantasma». Assim sendo, faz todo o sentido a nota dos bispos.
      O Sr. Paulo Borges, com a sua filosofia de trazer por casa, livresca e acumulando erudição – como se deduz de muitos dos seus livros – é que não parece ter o sentido do sagrado e do espiritual que caracteriza a civilização em que vive. A sabedoria é um atributo das crianças, dos simples, dos santos (leia Gil Vicente) e daqueles a quem o Espírito Santo entender dá-la, não dos eruditos, dos professores e dos teólogos como o Sr. Queiruga, ervas secas agitadas pelos ventos.

  3. Carlos Aurélio diz:

    Já passou uma semana e, por isso, vou falar “baixinho” para dizer 3 coisas:
    1 – Para quem ler o meu texto verá que conheço o que ATQueiruga diz. Como? Lendo os seus apologistas (Anselmo Borges e Carreira das Neves) e não apenas os seus detractores. Quem, até hoje, leu no original a obra de Sócrates ou de outros clássicos?
    2 – Quanto à substância do que escrevo PBorges não diz nada. Só adjectiva.
    3 – Duvido que o espírito possa pairar sobre um ringue de boxe.

  4. Elísio Gala diz:

    “41. Decidi libertar das paixões o mundo inteiro, nas dez direcções do espaço, mas nem sequer me libertei a mim!…”
    Capítulo IV – Aplicar o pensamento da iluminação, in O Caminho para a Iluminação

  5. Lígia Cerqueira diz:

    Com toda a humildade, coloco uma simples questão: será que Cristo foi um doido, ao dizer-se filho de Deus e, por isso condenado a uma morte terrivelmente penosa e agonizante? Será que foi um masoquista? Será que os que com Ele conviveram e, o voltaram a ver depois da crucificação assumiram o martírio, porque também eram doidos? Como diria Camus, o suicídio ou a nossa própria existência é um PROBLEMA filosófico e, não apenas sociológico ou psicológico. Afinal de contas, é inerente à condição humana querer viver nesta terra e neste mundo. Parece uma verdade óbvia! Acredito que uma das grandes provas da verdade da ressurreição de Cristo, foi o facto dos seus Apóstolos darem a sua própria vida, em martírio, por essa mesma verdade.
    Um Abraço fraterno e, cheio de Paz para todos.

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