O reino dividido

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Por uma daquelas enigmáticas coincidências que é costume atribuir ao acaso – seja lá o que isso for –, as celebrações do centenário da República foram precedidas, em 2009, por um acontecimento de transcendente importância; o Papa proclamou solenemente o que o povo português há mais de quinhentos anos consagrara: a santidade do Condestável D. Nuno Álvares Pereira. Tão poucos têm sido entre nós os heróis da fé reconhecidos pela suprema autoridade da Igreja, que a distinção desta personalidade decisiva na vida nacional merecia ter sido celebrada ao mais alto nível. Contudo, foi notório o constrangimento daqueles a quem competia representar o País na circunstância, decerto incomodados por terem de associar-se a quem não admiram pelo que foi nem pelo que representa.

Como poderiam regozijar-se de veras com a canonização se, praticamente em todos os domínios, têm seguido uma conduta de sinal inverso à do Santo Condestável, cujos feitos e valor a escola nem sequer lembra às novas gerações? Vem-nos à memória, por contraste, que foi precisamente durante uma das fases críticas da vida nacional, em pleno domínio filipino, que surgiu o mais notável monumento porventura até hoje erguido em louvor do herói da guerra da independência contra Castela, mas também do homem que foi o exemplo acabado das nossas melhores virtudes. Em 1610, com efeito, saiu em Lisboa O Condestabre de Portugal. D. Nuno Alvres Pereira, poema em vinte cantos, composto por Francisco Rodrigues Lobo e dedicado a D. Teodósio, duque de Bragança.

Frei António Freire, que o examinou por ordem da Inquisição, não teve pejo em declarar ser “obra excelente; na qual, conforme à diferença do objecto dela aos das mais suas impressas, parece que [o autor] a si próprio se excede. Nem tem cousa que ofenda; se não for na opinião ou desconfiança de alguns, por parte destes nossos tempos, o que diz nos primeiros Cantos, morto El-Rei Dom Fernando, das alterações de guerras de Portugal com Castela, encarecendo em Dom Nuno Álvares aquele zelo da liberdade da pátria e noutros dela o ânimo tão contrário.” Em 1608, que é a data da Licença, o “zelo da liberdade da pátria” merecia o público reconhecimento, não obstante o País gemer sob um poder estranho, para gáudio e proveito dos que tinham dessa liberdade “o ânimo tão contrário”.

O exemplo não se perdeu, pois ainda nos finais do século XIX um poeta maior se ergueu contra a modorra conformista, por sinal evocando também Nuno Álvares Pereira, que constitui a chave da Pátria de Guerra Junqueiro. Explicitando o seu pensamento, exclamava ele: “A metempsicose, em moderno, do grande Condestável, eis o meu sonho. Um justiceiro e um crente. Braço para matar, boca para rezar.” A diferença seria que, na sazão, “Não combateria castelhanos, combateria portugueses. O inimigo mora-nos em casa.”

O modelo do cavaleiro cristão ocorreria a outro grande poeta e patriota, Afonso Lopes Vieira, ao incitar os compatriotas a estarem à altura das suas responsabilidades, com a tese de que os povos mais cultos e “científicos” cobravam a sua energia no culto da tradição. Falava no serão do Teatro República dedicado a Gil Vicente, o do Monólogo do Vaqueiro, “por ironia do Destino” recitado perante o menino que, “mais tarde, se chamou o rei D. João III, o monstro sombrio, o dragão viscoso e aspérrimo que entregou a alma portuguesa às mãos assassinas dos jesuítas e acendeu as lavaredas dos autos de fé!” (Gil Vicente, Lisboa, 1912, pp. 42-43)

Entendia ele que “Nenhum povo é já agora digno de viver, se se não elevar no culto consciente da sua tradição nacional. Porque a tradição é o lar sagrado onde os povos têm de ir buscar o agasalho e a força, com que partam depois mais fortes para o futuro.” (p. 8) Por isso, lembrava “Nun’Álvares, o arcanjo de Aljubarrota, o rei Artur da nossa Távola Redonda, que, já depois de ser um velho monge carmelita, mostrou a um fidalgo espanhol o seu arnês de batalha cingido por baixo do escapulário” (p. 13). É curioso constatar como poetas de mérito superior, apesar do fundo anticlerical (como o deste tradutor de Cropotequine), exaltaram a dupla vertente, religiosa e patriótica, de um dos homens mais representativos da nossa história, agora canonizado pela Igreja.

Embora com diferente acento, a obra de Teixeira de Pascoaes converge para a noção de que o projecto republicano não dispensava uma dimensão espiritual, religiosa, que de algum modo havia de acolher a tradição cristã. Se, como alguns contemporâneos, o poeta se tinha distanciado da Igreja institucional – em nome das intuições pessoais ou de incertas versões de esoterismo, que corriam em livros e pequenos grupos mais ou menos discretos –, a viva noção que tinha da “verdade portuguesa” impedia-o de romper com as formas consagradas pelo povo. Contudo, a dificuldade em encontrar uma solução adequada denuncia-se nas fórmulas vagas a que recorre, como quem sente no coração melhor do que vê racionalmente a relação com o sagrado.

O mais amplo, sistemático e didáctico dos textos que a propósito redigiu durante a fase inicial da Renascença Portuguesa é sem dúvida a Arte de Ser Português, breviário pensado para os estudantes, na idade de descobrir, a par da sua singularidade, o modo português de conceber e realizar o universal. A religião aparece aí em último lugar, ou seja, no topo daquelas “Manifestações da nossa actividade em que melhor se revela a alma pátria”; sem contestar a sua feição cristã, tão-só matizada pela especial relação com a natureza. Nesse contexto é que invoca os teólogos, não a propósito de qualquer questão da doutrina da fé, mas apenas porque teriam reivindicado uma autonomia em relação a Roma que, no entanto, nem de longe nem de perto se assemelhava à da Igreja Anglicana, ao contrário do que diz.

Na verdade, a Tentativa Teológica, do Padre António Pereira de Figueiredo, que cita, desde o título explicitamente limita o seu alcance em termos incompatíveis às ilações que ele pretende tirar. Reza assim: Tentativa Teológica, em que se pretende mostrar que impedido o recurso à Sé Apostólica se devolve aos Senhores Bispos a faculdade de dispensar nos impedimentos públicos do matrimónio e de prover espiritualmente em todos os mais casos reservados ao Papa, todas as vezes que assim o pedir a pública e urgente necessidade dos súbditos. Trata-se de um texto maduramente pensado, em função de um complexo conjunto de circunstâncias, que nem sequer mereceu a censura de Roma, visto o condicional pressuposto de toda a argumentação ser o de estar impedido o recurso à Sé Apostólica.

Está claro que a separação da Igreja e do Estado decretada pela República podia abrir caminho à aplicação da doutrina, se chegasse ao ponto de impedir aos bispos portugueses a regular comunicação com Roma. Contudo, os republicanos instalados no poder desde o 5 de Outubro de 1910 não curavam de autonomizar a Igreja portuguesa; o que desejariam, depois de se apropriarem dos seus bens, era fazê-la desaparecer, assim como a toda a vida religiosa. Pascoaes, que interpretava talvez de modo enviesado a nossa tradição, tinha no entanto em mente o longo rosário de incompreensões, abusos e bloqueios que, desde 1640, se vinham agravando e para os quais não via saída airosa e, sobretudo, capaz de salvar a religiosidade popular autêntica, que resistia a todas as vicissitudes políticas, sociais e culturais.

Julgo que, no essencial, também neste tema o poeta não andaria longe do filósofo que melhor lhe correspondia e não era o seu amigo Leonardo Coimbra, com trajectória muito divergente, como ao depois se confirmou. Havia, com efeito, íntimas afinidades entre alguns aspectos centrais do pensamento do autor das Sombras e o de Bruno; no âmbito das quais julgo caber o modo como encararam o problema religioso, que suscitava à data tomadas de posição assaz desencontradas, pelo que não é fácil orientarmo-nos nele. Apesar disso, é evidente que as perto de quinhentas páginas de A Questão Religiosa não podem resumir-se na defesa do casamento obrigatório dos sacerdotes como a solução brunina para desatar o que era então um verdadeiro nó górdio da sociedade portuguesa.

Julgo que o fito do filósofo teria sido antes o de mostrar, a quem de boa mente o lesse, que as crenças religiosas estavam de tal modo arraigadas na vida portuguesa que absurdo seria, para mais em nome do povo, tentar pô-las em causa. Aliás, para o autor de A Ideia de Deus, o que importava seria, pelo contrário, ajudar a depurar, a elevar, a ampliar até aos limites da realidade a missão religiosa da humanidade, da qual entendia estar pendente a redenção ou reintegração universal. Como era seu uso, porém, não declamou nem argumentou em tom didáctico, preferindo carrear as evidências que a sua erudição imensa colhia nos mais imprevistos domínios, em especial nos bibliográficos.

É possível que no volume sobre A Questão Religiosa tivesse Teixeira de Pascoaes encontrado as referências que lhe chamaram a atenção para a personalidade singular do Padre António Pereira de Figueiredo, de cuja vasta e diversificada obra Bruno faz compreensiva menção, sem esquecer as circunstâncias em que foi elaborada. O tema da relação com Roma, tanto do Estado português como da Igreja portuguesa, é no entanto abordado por Bruno em termos que julgo denotarem a consciência da escassa viabilidade de uma solução voluntarista, como a que estava ao alcance dos políticos, ainda que bem intencionados. Tendo deixado o Partido Republicano por discordar do sectarismo da organização, a seu ver segundo os moldes maçónicos, o filósofo remeteria para mais longínquo futuro a possível solução do problema.

Com efeito, a quem passaria pela cabeça que a questão religiosa pudesse resolver-se a partir de fora, contra a Igreja ou pelo menos sem o empenhamento activo da sua hierarquia? Foi o que se viu, pouco depois, quando o Governo provisório teve o topete de destituir das suas funções o bispo do Porto, D. António Barroso, encarcerado e impedido de governar a sua diocese. Ou quando negou a D. Sebastião Leite de Vasconcelos, bispo de Beja, o regresso ao País, de onde se ausentara, para Espanha, em face da violência com que o ameaçavam ao voltar de uma visita apostólica ao seu rebanho.

Como se compreende, porém, que a questão religiosa fosse já em 1907, que é a data do livro de Bruno, algo de tão dramático e sem aparente solução à vista?

Joaquim Domingues

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