TEORIA DO ENCOBERTO, 5

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Páginas sobre José Marinho de um livro que não foi escrito 

Constitui, por certo, uma surpresa para muitos, que conheceram e privaram com José Marinho e se habituaram a ver nele um “espiritualista”, verificar, pela leitura atenta de alguns passos dos seus livros, quanto o obsidiou o mistério do corpo humano, isto é, do corpo que habitava ou alguém habitava nele. A noção de “corpo subtil” ou, noutros termos, de “corpo astral”, indicada apenas na Teoria, aparece mais pensada em Filosofia: Ensino ou Iniciação? E, mais tarde, em Verdade, Condição e Destino. Dir-se-á que o filósofo foi ao longo dos anos aproximando-se de um conceito cada vez mais cingente daquela noção.

Na Teoria do Ser e da Verdade, escreve assim: “Não o corpo interroga da boca e na palavra sem íntima garantia, não o corpo interroga, mesmo quando seja dado já apreendê-lo na profundidade secreta, naquilo que o corpo nunca ou raras vezes é para nós.” Alude-­se aqui a uma experiência ou vivência, não exterior ou mecânica, mas interior e secreta do próprio corpo, que José Marinho não nos diz ou não nos quer dizer qual seja, mas haverá leitores da Teoria que não deixarão de evocar, neste momento, o que ficou escrito, na mesma Teoria, algumas páginas atrás: “… não é o espírito pura actividade e obstinação activa, mas também subtil segredo da relação à humilde e suave passividade da contemplação, no mais intenso e opulento mas quase inapreensível agir”.

O que é que o corpo é raras vezes para nós?

Resposta possível parece ser esta de Filosofia: Ensino ou Iniciação?: “… a palavra não é apenas coisa extrínseca da boca ou do corpo. Nem a boca está apenas no que dela nos aparece visível ou sensível, nem o corpo na figura aquém da mais íntima forma. A relação do pensamento e da palavra não é, pois, coisa extrínseca, mas bem íntima e profunda. Ousaria acrescentar que a palavra é na intimidade do nosso ser o que se manifesta como carne sensível e corpo visível. Só assim o pensamento e a filosofia pela qual se cumpre todo o penar podem consistir numa actividade plena, concreta, totalizante, ínsita na profunda intimidade do homem, tal que o nosso mais autêntico ser está ela ou é dela indiscernível, só assim sendo possível pela palavra e nela alcançar transparência de comunicação – enquanto pudermos admitir, e até onde pudermos admitir, que o homem é sujeito da filosofia. Como não acrescentar aqui que ao que filosofa ou ensina a filosofar, até onde tal tem sentido, está reservado auscultar e por vezes discernir, sob o sujeito humano, outro sujeito mais profundo?”

Aquela mais íntima forma da qual o corpo é a figura aquém dela lembra, sem qualquer dúvida, a forma subtil ou forma de luz dos gnósticos, forma que “outro sujeito mais profundo habita”. Em lugar de “forma” pode dizer-se “corpo”, na condição de se entender por “corpo” não “matéria” na vulgar oposição a espírito, mas uma imagem, mais ou menos consistente em si, mais ou menos movente nos seus limites. Pois o que é uma imagem sentida por dentro?

Quando se fala em imagem, logo surge como dada do exterior, pelo paradigma obsidiante do visível. Daqui o supor-se, quando se fala de corpo subtil ou astral, um corpo justaposto ou sobreposto ao corpo físico e, neste sentido, é até possível “imaginar” corpos sucessivos, cada vez menos densos, pelo abuso de uma estreita visão materialista do mundo invisível. É na consciência que eu tenho do meu corpo que este mesmo corpo se revela e realiza como corpo subtil. É pelo modo como se sente, a partir de dentro, a imagem que esta se altera e potencia, “quando seja dado […] apreendê-la na profundidade secreta.”

Se assim é, os sensos ou sentidos possuem nesse corpo as suas raízes, as suas formas subtis, agora adormecidas. Toda a diferença está em serem passivos no corpo físico, mas, activados interiormente, devêm por isso mesmo sentidos subtis. Daqui a importância que José Marinho atribui ao acto da sensação, do que falaremos daqui a pouco.

A boca é o órgão da palavra. Todavia, na “mais íntima forma” do corpo, ela é a própria palavra numa harmonia de luz com os sentidos tornados activos. E não só o corpo humano, “como carne sensível e corpo visível”, a manifesta, mas todos os corpos e todo o universo, na sua mudez verbal aparente.

José Marinho tenta assim responder a esta pergunta: “Como é possível a comunicação pela palavra?”. A resposta é outra pergunta: “Como seria possível transmitir o que sinto e penso e compreender o que me dizem, se o “logos” ou “verbo” não fosse o oculto taumaturgo das almas e dos corpos?”.

É o que vem de novo interrogado em Verdade, Condição e Destino: “O filósofo não é um escritor. Antes de escrever, e no sempre subtil processo de traduzir por escrito seus secretos pensamentos, pois sempre secreto é em todo o homem o pensar – sonda o filósofo a funda e misteriosa relação entre silêncio e palavra, mudez e linguagem, expressão e comunicação. A palavra e o vínculo significativo das palavras, ou do que cinde e subsiste da palavra impossível ou só virtual, não surgem apenas na relação alma-corpo. Surgem do êxtase interior e do diálogo taciturno na relação projectada do espírito e do ar que respiramos e por que ouvimos.”

O filósofo alemão Jacob Boehme, que José Marinho cita admirativamente, escreveu que o ar, este ar que respiramos e no qual vivemos e convivemos, é a manifestação terrestre do Espírito Santo. Convém não esquecer o atributo de santo quando se fala, em sentido filosófico, de espírito.

A consciência de existirmos, “o autêntico e subtilíssimo sentido do existir consciente”, é capaz de assumir vários modos, mas, antes de mais, consiste no saber vivente, no saber que somos no divino e pelo divino, em modo concreto e não simplesmente imaginado ou pensado e, muito menos, suposto. Um dos caminhos deste saber, luminoso caminho, no-lo indica Jacob Boehme.

Se a alma não é o ser que respira ou, como diria Hegel, o sopro em si, a sua sobrevivência à morte do corpo seria impensável. A quem tiver já o sentido do enigma, o acto de respirar e a vida que dele resulta ou nele é, aparece como algo de absolutamente incoercível. A imaginação química dobra-se de intuição alquímica e as acções e reacções supostamente materiais aparecem como relações de elementos viventes. De qualquer modo, se o corpo deixa de respirar e nele não subsiste a respiração, a morte é definitiva e total.

José Marinho, para quem a ideia de uma “imortalidade opaca”, imaginada segundo o princípio de Lavoisier, se afigura absurda, vê um misterioso entendimento entre o espírito e “o ar que respiramos e por que ouvimos”. Mas aqui, como noutros lados, põe como condição de consciência, que não de existência, “o êxtase interior e o diálogo taciturno”. Que não de existência, pois sempre o espírito sopra onde quer, até ali naquilo que parece negá-lo.

O interesse do leitor deve agora ser conduzido para o espanto de verificar que o mundo sensível é ele mesmo o mundo subtil, se disso obtemos consciência real. É e não é, como diria o autor da Teoria do Ser e da Verdade. Eis por que a sensação, tantas vezes utilizada contra a alma pelo espírito que nega, tantas vezes, por outro lado, desprezada pelos pensadores espiritualistas, se torna de súbito uma via de gnose da alma que o verdadeiro espírito inspira: “… tudo quanto como periférico e extrínseco nos aparece no finito pensar das distinções finitas é, de outro, por outros modos, central e intrínseco. E a sensação, como que saindo da sua comum humildade para inesperada nobreza, se dilata e aprofunda já para além da actual extrinsecidade e evanescência…”

Numa primeira fase do seu percurso filosófico, perturbava-o a imensidade do mundo sensível e a exiguidade da nossa sensação e do nosso mundo interior, quando confrontados com essa infinitude. Verifica, depois, como se assistisse a um milagre, que na instantaneidade da sensação visual se acende toda essa imensidade.

Aqui, deve observar-se quanto é enganosa a expressão corrente “não tem vida interior”, aplicada às pessoas limitadas e aparentemente práticas, que vivem mecanicamente, se não automaticamente. A expressão acertada seria a inversa, a de que não têm vida exterior ou a têm em modo reduzido. É necessário ver que perspectiva interior e perspectiva exterior dependem uma da outra, como se a todo o mergulho na profundidade a alma correspondesse uma dilatação e um aprofundamento de tudo aquilo que ela é fora de nós. Há uma arte de sentir o mundo, talvez ensinável às pessoas perdidas no devaneio, nas preocupações, nas angústias, nas pequenas e grandes ambições, nesse mundo próprio de gente que se julga prática, mundo sinistro, não reconhecido como tal, porque é o comum. Tais pessoas nada vêem, nada ouvem, nada fazem de essencial. Passam a vida inteira sem se aperceberem das cores enquanto cores, dos sons enquanto sons, das palavras enquanto palavras. Para elas nunca há nascer do sol, porque se levantam tarde ou, mais exactamente, atrasadas em relação a si próprias. Demasiado lentas, deixam sempre passar o instante em que a luz auroral cria a variedade infinita das cores; mas desse instante só se apercebe quem o realiza em si.

Raros terão o sentido do tempo que decorre do instante, como o rolar do trovão no deflagrar do relâmpago. É o conteúdo repentino desse instante de luz que fecunda a alma, como o raio a nuvem, e nela faz eclodir a imaginação activa. José Marinho distingue entre imaginação activa e “imaginação encadeada” ou, como ele gostava de dizer aos amigos e conviventes, “imaginação a ferros”. A representação actual do mundo é uma consequência da imaginação que não é capaz de ver para além de si, através de si. Só pela imaginação activa é possível romper essa “suspensão do ser e do saber que é a representação actual do mundo”, pois ela é “a difícil via do espírito sem a qual não se cumpre no homem o pensamento”.

Se, por um lado, ao exprimir-se por aquele modo entre os amigos e conviventes, significava a hostilidade que a imaginação defronta no “declínio dos tempos”, hostilidade tão eficaz que se tornou perigoso imaginar, por outro aludia à sua queda nas malhas do pensar finito. O mundo é imaginação. E a imaginação presa é também a que prende – a magia negra. Libertá-la é um dos solenes deveres da filosofia em diálogo com a poesia, porque, se a imaginação não é o pensamento é a sua forma subtil e seu subtil poder. Livre é também a imaginação que liberta – a magia da luz.

José Marinho renova o antigo escândalo de trazê-la para o seio da filosofia, arriscando-se sem temor ou vaidade a ser dado como um pensador místico ou lunático.

António Telmo

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UMA HERANÇA INCONSCIENTE

bruno

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O pressuposto essencial da vida em sociedade é o da mútua dependência, a qual, sem embargo dos eventuais aspectos negativos, possibilita e condiciona o desenvolvimento das virtualidades de cada um; mesmo quando se traduzem na crítica, mais ou menos agressiva, dos valores em cujo horizonte a pessoa veio à luz da vida, dos afectos e da razão. Com efeito, é no modo como recebemos, assimilamos e aperfeiçoamos essas influências que nos assemelhamos e distinguimos uns dos outros. Daí resulta que, conforme se ascende na escala humana, mais subtis sejam as formas de comunicação; razão pela qual se fala em congenialidade a propósito das afinidades entre homens superiores; as quais, no limite, escapam aos métodos positivos da análise.

Isso me dispensa de tentar demonstrar algumas aproximações, que não estou à altura de esclarecer, em especial quando se trata de movimentos espirituais, cuja verdadeira razão de ser apenas posso inferir de textos e testemunhos, susceptíveis no entanto de diferente exegese. Assim, por exemplo, se está documentada a relação de amizade que Mário Saa manteve com Teófilo Braga nos últimos anos da vida do professor, já afastado das lides públicas, nada posso alegar de semelhante quanto a Bruno; ainda que, tanto por via do velho professor, como de Fernando Pessoa e até de José Leite de Vasconcelos, possa presumir que conheceria bem a invulgar personalidade do autor de O Encoberto. Cada vez mais desligado da vida partidária e política, a sua atenção polarizara-se na decifração dos enigmas da nossa história próxima e remota, sobretudo desde que, em 1909, passou a dirigir a Biblioteca Pública e o Museu Municipal do Porto, pelo que não poderia deixar de despertar a curiosidade do autor da Erridânia.

O que se me afigura evidente é que, descontadas as diferenças de estilo, tanto pessoal como de geração literária e mental, as teses enfeixadas no volume A Invasão dos Judeus recebem inesperada luz, assim como ilustram, as do inacabado Plano de um Livro a Fazer, que Álvaro Ribeiro aproxima da Historia de los Heterodoxos Españoles, de Menéndez Pelayo, e nós da História Secreta de Portugal, de António Telmo. O judaísmo fora objecto da persistente indagação de Bruno, atento ao que ele representou na história universal e sobretudo na de Portugal, apesar de pouco sabermos do que nesse interesse influiu, durante o exílio de 1891 a 1893, a estadia em Paris e a passagem por Amesterdão, em cuja comunidade sefardita, ainda não esquecida das raízes portuguesas, teria colhido importantes revelações. A verdade é que, tal como n’O Encoberto se afastara de algumas noções correntes acerca do messianismo, assim também n’Os Cavaleiros do Amor se propunha desvendar uma história secreta, não apenas de Portugal; tarefa que a morte, no entanto, deixou interrompida, como em suspenso ficara entretanto a Teoria Nova da Antiguidade, de que conhecemos apenas os primeiros lineamentos.

A reflexão sobre o tempo e a historicidade, mormente os temas atinentes à génese e fenomenologia das revoluções, fossem as súbitas e sangrentas ou as de largo fôlego e quase imperceptíveis, tinha primacial importância para quem considerava o movimento a essência da realidade. Mas compreende-se que, ao postular a queda no homogéneo, em consequência da qual se destacara o mundo, onde reina o mal e o erro, prestasse especial atenção à agência dos factores subtis, dos movimentos ocultos e das sociedades secretas, num devir de sua natureza misterioso. Na série dos volumes que tencionava publicar, o último intitular-se-ia, em simetria com o primeiro, a Síntese da Crença Cristã; infelizmente, porém, nem mesmo os amigos mais próximos, como Teixeira Rego, ousaram suprir a enorme perda que, nessa como em outras vertentes, a morte do filósofo significou.

Por isso continua a valer como derradeira expressão do seu pensamento o artigo que, pouco antes de ser internado na Ordem do Terço, onde faleceria, entregou para publicação n’A Águia, com a indicação expressa de que seria o último… No tom de tantos outros textos eruditos, nele deixou uma mensagem a que por certo atribuía grande importância, mas que, como era hábito num escritor que amiúde ocultava o essencial sob a capa do banal, deixou ao nosso cuidado decifrar, com a quota-parte de responsabilidade que isso implica. O título, “O ‘Judeu’”, remete ostensivamente para o controverso autor das peças do teatro de fantoches que, aliás sem provas concludentes, como mostrou Claude-Henri Frèches (Bulletin d’Histoire du Théatre Portugais, n.º 1, Lisboa, 1950, pp. 33-61), se tem identificado com António José da Silva; mas o que está em causa, como se depreende da leitura atenta, é o modo pelo qual os judeus, ou antes, uma camada social de progénie hebraica, combatia os valores tradicionais, mormente nos séculos XVIII e XIX e não só em Portugal.

As poucas páginas de um artigo redigido quando a doença o constrangera ao último recurso, a que sempre se furtara, apenas lhe permitiram chamar a atenção, com a objectividade que era seu timbre, para o modo como, a partir das instituições da sociedade onde se acolhia e prosperava, um determinado estrato lhe minava as crenças e os valores. Que Bruno achasse importante deixar esta última mensagem, na sequência do Plano que vinha publicando desde os fins do ano anterior, a um ritmo cada vez mais espaçado, dá que pensar. Tanto mais que tinha já redigidos e mais ou menos prontos para o prelo outros vinte e quatro textos, que ficaram inéditos por muitos anos.

Homem de génio foi como Álvaro Ribeiro qualificou o autor de A Ideia de Deus, livro onde leu o que Bruno entendia por tal e, por isso, com a perfeita noção do que significava. Por isso, tal como em outros passos da vida arrepiara caminho, corrigindo o erro cometido quando, da primeira vez, no “casino”, resistiu à voz que lhe indicava o número da sorte, é de presumir que agora também se decidira a abrir um pouco mais o jogo. Com efeito, o último texto oferece uma chave para ler o Plano de um Livro a Fazer, que talvez não estivesse na sua mente quando o iniciou.

Não sendo um pensador apolíneo, como observa José Marinho, mas inspirado pelas constelações invisíveis, fizera ele de Bruno um nome de combate pela luz, não pelo ocultismo; de modo que o livro de que traçou o Plano se intitularia, bem a propósito, Os Cavaleiros do Amor ou a Religião da Razão. Compreende-se a preferência editorial pela primeira parte do título, tal como saiu no volume de Guimarães Editores, mas importa prestar igual atenção à segunda parte, que evoca aliás a Defesa do Racionalismo ou Análise da Fé, de Amorim Viana, e de algum modo antecipa A Razão Animada, de Álvaro Ribeiro. Numa linhagem consentânea ao amplo racionalismo da nossa tradição que, sem excessos nem exclusivismos, sempre buscou ver claro, na senda de um iluminismo integral, que não o de restrita feição físico-matemática.

Seria isso, porventura, o que Bruno pretendia distinguir, ao mostrar a feição corrosiva dessoutra linhagem que, impondo-se já então nos meios prestigiosos da Cidade Luz, tivera bem modesta génese, em meios como o do Bairro Alto lisboeta do século XVIII?! Um rebate me levou a aproximar o texto brunino do livro que nem sequer o cita; para mais assaz díspar no estilo e nas circunstâncias em que surgiu, como é A Invasão dos Judeus. Admitida a hipótese, porém, tenho hoje como assente que, mesmo que nada devesse à leitura de Bruno, o livro de Mário Saa nele poderia encontrar a perfeita epígrafe para uma das mais penetrantes tentativas de compreensão da nossa história moderna e contemporânea.

Faltaria à verdade se dissesse que, por minha vez, nada lhe fiquei a dever também, pelo menos no domínio da informação que prodigaliza e até de algumas ilações. A verdade, porém, é que chegara por mim a idêntica conclusão, ainda que interpretando de forma mais ampla e vaga o que Mário Saa explica, em termos categóricos, como obra judaica ou, antes, judaico-portuguesa. A distinção é importante, pois tem a ver com a tese de que os homens de nação acabaram por se fundir na sociedade onde se acolheram, mas como um elemento heterogéneo que, em vez de ser o fermento renovador, corrompeu o corpo social de que se assenhoreou.

No seu característico jeito polémico, julgo no entanto que demonstrou demais, visto o ascendente da comunidade judaica não poder explicar, por si só, a decadência da nobreza e do clero, que abriu via à subversão da escala dos valores sociais. Em todo o caso, julgo fecunda e pertinente, desde que corrigidos alguns exageros retóricos (para já não falar nas gralhas), uma abordagem que permite compreender o que, de outro modo, se não entende; em especial uma sanha destruidora da herança cultural e da estrutura social, que só por equívoco se atribuiu ao povo, de sua natureza conservador, ainda que fácil de iludir pelos demagogos. Se admitirmos, porém, que houve uma mudança dos detentores do poder, não só isso resulta lógico, como a notória desafeição do povo aos seus dirigentes e a consequente crise da identidade nacional.

A pulsão auto-destruidora, suicida, como diria D. Miguel de Unamuno, ganha foros de compreensível, apesar da sua insanidade, se admitirmos que a vida colectiva – do ponto de vista mental, económico e político – passou a ser dirigida por uma camada social marcada pelo ressentimento, cujas causas entretanto esqueceu ou ignora. A irracionalidade, já apontada por Basílio Teles, de muitas das decisões tomadas pelos dirigentes em certos momentos decisivos, resultaria, nesse caso, duma tão irreprimível como inconsciente atitude de retaliação contra os que teriam oprimido os seus antepassados. Com efeito, Mário Saa insiste na ideia de que nem os protagonistas teriam consciência das razões do seu procedimento, até porque se trataria de pessoas de todo desprendidas já da tradição religiosa e da pertença étnica.

Passado quase um século sobre o diagnóstico e ultrapassados os aspectos mais datados da argumentação, justo será reconhecer que o essencial da tese se mantém válido, se não foi mesmo reforçado pelo que nem o autor podia prever. Ele, que refere o sintomático projecto republicano de construir em Angola um estado judaico, não imaginaria talvez que passados cinquenta anos todos os territórios portugueses de além-mar, à excepção dos arquipélagos dos Açores e da Madeira, seriam alienados sem especial sobressalto da consciência política, aliviada por se libertar de um fardo incómodo e sobretudo incompreensível para os seus critérios. O que por certo não estranharia seria que, sucedendo-se os governos e os titulares dos órgãos políticos, económicos e culturais, tenha no entanto permanecido a directriz do combate aos valores cristãos; os quais o povo continua a prezar, não obstante o permanente desgaste a que são submetidos pelos meios de condicionamento social.

O que distingue um povo é precisamente a fidelidade a um sistema de valores, que ora é potenciado ora reprimido por quem domina as instituições, formais e informais, onde se concentram os meios de acção e de reacção social. É inegável que a relação dos portugueses com essas instituições e os seus detentores se alterou radicalmente nos dois últimos séculos. Não foi o povo que mudou, por certo.

Joaquim Domingues

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AGOSTINHO DA SILVA EM SESIMBRA, 15

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Prof. Agostinho da Silva: «A Península Ibérica deveria ser guia do mundo!»

Entrevista de: Pedro Martins, António Ladeira, José Pedro Xavier

 Agostinho da Silva2.

Diz que o Guia e inspiração do Mundo deveria ser uma Comunidade Internacional de Línguas Ibéricas. Diz ainda que a Comissão dos Descobrimentos deveria planear novos descobrimentos em vez de comemorar os antigos. Que a Escola deseduca as pessoas já todos desconfiávamos embora nunca ninguém, como ele, tenha sabido aumentar-nos assim a suspeita. Tendo sido aluno de vultos do pensamento português como Teixeira Rego, o Prof. Agostinho da Silva continua a suscitar o aplauso entusiasta dos que o consideram o último dos filósofos portugueses e o silêncio condescendente dos que nele mais não vêem do que um sonhador dotado de uma perícia verbal apuradíssima.

Dificilmente alguém se terá esquecido das suas «conversas» polémicas há alguns anos atrás na Televisão, a figura surpreendentemente mediática de Agostinho da Silva fascinava pela vontade e eficácia na árdua tarefa de convencer. Para dizer o menos, o «Raio de Luz» ouviu um poeta que agora transcreve, o que – para quem se habituou a ouvi-lo – não é dizer pouco.

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A MISSÃO DE PORTUGAL NO MUNDO É MAIOR COM A ENTRADA NA COMUNIDADE EUROPEIA

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Raio de Luz – A missão de Portugal no mundo, a que o Professor se tem referido nos seus livros, ainda é a mesma depois da entrada deste na Comunidade Europeia?

Professor Agostinho da Silva – Espero que seja maior. E que Portugal varra a casa! Que ponha aquilo em ordem. E que leve o mundo a uma convicção muito importante: é que essa Europa foi toda construída através da Península, com um papel muito largo por parte de Portugal. Portugal realmente sabia Cartografia, sabia Astronomia… e o Colombo, que era um homem extraordinário, supunha que sabia, o que não chega para navegar… Ele nunca teve uma segurança científica como tinham os portugueses. E é por isso que ele – num documento que deixou – acha que D. João II era o único rei do mundo capaz de navegar. E nunca quis sair da ideia de que aquele mundo de que D. João II lhe podia falar era mais mundo do que o que lhe podiam ensinar os geógrafos alemães. 

R.L. – O Sebastianismo em Portugal ainda faz algum sentido no final do século XX?

A. S. – No Brasil fez até há pouco tempo. Em São Luís do Maranhão, os pescadores da Costa vêem de vez em quando aproximar-se a Armada de D. Sebastião. Está como que perguntando se o Brasil se encontra bom para ele desembarcar ou não. Depois vai-se embora: ainda não sabe. Podia não estar lá gente para D. Sebastião. Mas em S. Luís, na capital, o que corre é que se houver um homem bastante corajoso para, numa missa de Domingo, no momento mais solene da missa, dizer «viva El-Rei D. Sebastião!», S. Luís desaparece e as pessoas encontram-se todas na ilha encantada onde D. Sebastião vive.

Toda a gente diz que o Filipe II, depois crismado em Filipe I, veio para Portugal e governou Portugal. Governou Portugal coisa nenhuma! Esteve no Estado português. Foi parceiro do Estado português. Mas nunca governou o povo. O povo foi sempre governado por D. Sebastião.

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O QUE DEVERIA GOVERNAR O MUNDO ERA UMA COMUNIDADE INTERNACIONAL DE LÍNGUAS IBÉRICAS!

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R.L. – O que pensa do Iberismo? Seria capaz de viajar um dia na «jangada de pedra»?

A. S. – Penso uma coisa gravíssima. Aquilo que pode um dia inspirar e guiar o mundo (desde que os passos sejam certos, lentos e pensados) é uma Comunidade Internacional de Línguas Ibéricas! Você já viu a extensão de mundo que isso é?

A última conferência Ibero-americana foi na Baía, terra do Candomblé… E correu tudo muito bem, com grande serenidade e com grande certeza de que o futuro é possível. A este respeito, eu estou sempre insistindo com os meus amigos brasileiros que é uma comunidade de povos, não quero que eles acabem um dia fazendo uma comunidade de governos ou uma comunidade de Estados. 

Acho que o erro que houve com as Nações Unidas já chega. As nações Unidas não são Nações Unidas. São governos unidos. São Estados Unidos. Deviam chamar-se O.G.U.!

Voltando ao Iberismo, acredito nisso. Acredito que o que é preciso é a gente tirar da cabeça que a Península Ibérica é composta de um Estado chamado Portugal e de um Estado chamado Espanha. Já para começar pela Espanha, volta D. João II à cena: quando os reis católicos constituíram a Espanha e comunicaram que havia um país novo denominado «Espanha», D. João II protestou. Disse que Espanha não é um país. Espanha é a Península. Nós, portugueses, somos «portugueses de Espanha». Que ideia é essa de vocês arrebatarem o nome e ficarem sozinhos com ele! A península que está diante de nós é um conjunto de repúblicas de várias línguas, de várias espécies de culturas, governadas por um presidente, de um lado, e por um monarca, do outro… Então, como a Península vai ser tudo, temos de pensar de outra forma. E, provavelmente, não há outra solução senão a solução que houve na Idade Média relativamente aos Municípios portugueses. Portugal até D. João II era uma colecção de repúblicas municipais governadas por um rei, governadas no sentido de se «ir ao leme». De modo que, provavelmente um dia, a solução será uma colecção de repúblicas interdependentes coordenadas (neste sentido de «ir ao leme») por um «mono-arca» que pode ser um rei ou presidente de república.   

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A EUROPA VAI DESAPARECER!

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R.L. – O Prof. pensa que hoje em dia faz sentido usar o conceito de «nação» na Europa; a Europa é uma entidade em crise?

A. S. – Eu acho que a Europa é uma coisa que vai desaparecer! Se nós entendermos a Europa como um conjunto cultural que vem directamente do Império Romano, que dá o Direito (o Direito, afinal de contas, vem todo da Filosofia que os Romanos entendiam mal…) e dá a Engenharia… Os gregos não tinham conseguido fazer a Engenharia. Os gregos fizeram a Geometria de Euclides, que ainda pensaram como Física porque o Euclides achava que na natureza havia cones, havia círculos, havia tangentes, e não há… Mas os romanos não se importaram nada… O que viram no círculo do Euclides foi o modelo de uma roda… E aí têm a Engenharia!… Uma terceira coisa me parece importante: os gregos tinham uma coisa que os romanos tiveram que reconhecer: a «lógica no pensar». Os romanos, no entanto, não eram capazes de se dedicar a este tipo de lógica, era muito complicado para eles. Então introduziram a «lógica na vida». Eu diria que foram os gregos que edificaram as escadas para se chegar ao terraço.

Hoje o mundo está farto de «lógica na vida» e de «Engenharia na vida»: quer outra coisa!

R.L. – O Prof. é um acérrimo defensor do culto do Espírito Santo… é um homem que vive em pleno o culto do espírito Santo… O que tem a dizer-nos sobre isso?

A. S. – Bom, eu acho que ninguém é capaz de viver em pleno o culto do Espírito Santo, e eu muito menos…

R.L. – Porquê?

A. S. – Eu posso fazer uma enumeração de defeitos bastante razoável. Ou de coisas erradas que fiz na vida… E, portanto, ainda tenho e passar por muita coisa para um dia poder ser isso, poder entender isso. O que eu procuro é entender a coisa em si própria. Não há propriamente, nem no que se vê no Brasil, nem na Califórnia, nem na documentação portuguesa, o culto de Deus na festa do Espírito Santo; há o culto do Divino, o culto da obra de Deus. E há a atenção ao concreto. Qual é a primeira coisa desta «atenção ao concreto»? É coroarem um menino o «Imperador do Espírito Santo». Na Ilha Terceira, por exemplo, um menino corado Imperador quando tinha 4 anos foi Roberto Carneiro, o ex-ministro da Educação. Eles julgariam que o menino era capaz de governar o mundo? De jeito nenhum! O que eles achavam é que o menino é o exemplo maior que vemos do homem, e que o homem é a coisa suprema do Universo.    

É curioso que eles tenham escolhido o menino para coroar Imperador… é como se eles desconfiassem, como eu desconfio, que na maior parte das vezes as escolas deseducam as pessoas. Matam o poeta que cada um nasceu para o lançar numa profissão. Um sujeito hoje pode fazer a P.G.A. com distinção se meter uma Enciclopédia toda na cabeça! Mas se o mandarem fazer uma pergunta a respeito de «requeijão» ele diz o que é o requeijão e depois mais nada! É incapaz de fazer Filosofia sobre requeijão… A  propósito disto, uma amiga minha foi a uma escola e encontrou os meninos sentados no chão e ficou impressionada por os ver tão quietos. Perguntou: «Vocês não vão brincar?», e eles responderam: «não, estamos de férias». Estão a ver uma escola toda ao contrário?

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VIVEMOS NUMA DEMOCRACIA CLANDESTINA!

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R.L. – O Prof. concorda com a regionalização?

A. S. – Porque não? O que eu acho é que as regiões não devem ser decretadas no Parlamento de Lisboa. Devem ser construídas pelos povos. Se uma terra aqui tem uma boa relação com uma terra ali e esta com outras, a certa altura este conjunto forma qualquer coisa de separado ou de diferente do resto de Portugal. Então, é uma região.

R.L. – O processo deve então partir dos Municípios?

A. S. – Deve partir do povo, deve partir das pessoas. Por isso é que eu, quanto à acção, estou partindo da Junta de Freguesia, com muito cuidado em não ser de nenhum partido… A Junta de Freguesia é o organismo administrativo mais próximo do povo, que pode não só distribuir junto dele o que é preciso distribuir, como colher elementos que lancem para cima, para os que mandem mais, e assim ter uma ideia do que o povo quer. Não é a Junta em véspera de eleições em que os grandes políticos andam por todo o país comprando gente, se for necessário comprar gente, para eles ganharem aquela autarquia…

R.L. – Acha que vivemos  uma democracia?

A. S. – Sim, clandestina! Porque toda a maioria absoluta cria uma democracia clandestina. É preciso muito cuidado! Estamos a ver a cada passo gente da maioria absoluta a criticar o governo, a mostrar-se diferente. Vemos o exemplo dado pelo Gonzalez, ao lado, que não tendo desta vez a maioria absoluta, viu-se obrigado a uma grande abertura. Para poder ter uma maioria de coligação, ele abriu o Ministério aos catalães e aos bascos!  Aos bascos, que têm uma organização terrorista que vocês conhecem… Se o Gonzalez, ou outro qualquer, escolher este caminho, um dia teremos de facto as tais repúblicas autónomas de que falava há pouco.

Talvez um dia Portugal possa fazer parte disto dando aos espanhóis o bom-senso, a habilidade e mesmo a «manha» de que eles não parecem estar munidos.

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O VERBO «SER» É O VERBO PORTUGUÊS POR EXCELÊNCIA

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R.L. – O Prof. concorda com os que dizem que o escritor português é eminentemente lírico, mau romancista e mau filósofo?

A. S. – Provavelmente o português tem mais acentuado o carácter poético. Aquela coisa de fazer romances é uma espécie de classificação zoológica, que o Eça fez à grande, em que o Saramago anda com bastante mais largueza, mais do que fez o Eça de Queiroz… O povo tem umas histórias que talvez criado, no entanto, a poesia popular em Portugal é qualquer coisa de realmente extraordinário…  

R.L. – E quanto à filosofia portuguesa, pode dizer-se que existe uma «filosofia portuguesa»?

A. S. – Existe, mas não é a dos homens que fazem a Universidade. Porque esses não detêm a filosofia portuguesa. Escolhem um bocadinho de Platão, um bocadinho de Kant, e juntam aquilo tudo… citando este ou aquele fulano que diz qualquer coisa de comum… Não há, de facto, nenhuma filosofia portuguesa que se distinga das outras. Em Portugal a filosofia não é importante, o que é importante é o comportamento. O «ser». Não o «saber», ou o «ter», esses verbos não têm grande importância em português. O verbo português por excelência é «ser». O que é ser filósofo? É olhar a vida e pensar sobre ela. Toda a gente em Portugal é filósofo. Mas se nós empregamos a palavra «filósofo», pomos logo o sujeito num panteão em Atenas. 

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EXPO 98: «EXPOR PARA QUÊ? OUTRA VEZ A ESPADA DO D. AFONSO HENRIQUES?»

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R.L. – Acha que a Expo 98 e o facto de, no próximo ano, Lisboa vir a ser a capital europeia da cultura poderão ser boas oportunidades para Portugal se afirmar?

A. S. – Eu acho que Portugal podia fazer outra coisa: afirmar-se, e o resto do mundo considerá-lo capital europeia da cultura. Em lugar e ser ele próprio a dizer que é a capital da cultura. Quanto à Expo 98, expor para quê? Outra vez a espada de D. Afonso Henriques? Chega! Já tem havido exposições a mais sobre a espada de D. Afonso Henriques…

Mas eles surgiram agora com a ideia – que pode ligar-se à Europa e ao resto do mundo – que é uma exposição sobre os Oceanos. Seria muito interessante que se pensasse sobre este problema: foi da costa portuguesa que se fez a exposição ao mundo do Império Romano; tem, a costa portuguesa alguma coisa de particular? Eu acho que tem. Não é nenhum golfo. É uma costa aberta para um mar amplo. Daqui se pode sair, dar a volta ao mundo, sem estar preso por nenhuma terra. Talvez fosse bom pensar-se nisso: nos Oceanos.

R.L. – O que é que o Prof. tem a dizer da ideia do Miguel de Unamuno de que o povo português é um povo melancólico, triste, suicida?

A. S. – Não era nos Descobrimentos. Isto é, quando aparece a oportunidade de uma proeza à altura de Portugal o povo português não é nada melancólico…

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RAFAEL MONTEIRO FOI DO MELHOR QUE TENHO CONHECIDO

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R.L. – Rafael Monteiro, para além de um grande amigo, foi um homem que morreu sem cumprir vários itinerários da vida. O que tem o Prof. a dizer, que conviveu com ele, deste grande sesimbrense?

A. S. – Rafael foi do melhor que tenho conhecido. Podia ter tomado certas posições de distância e orgulho para com os outros e nunca o fez. Reuniu uma documentação impressionante sobre Sesimbra que passou depois em parte para o Reis Marques… Sobre os pescadores, sobre  Sesimbra como vila marítima, etc. Para além disso, também se ocupou da «vida por dentro». Ele era um homem não só atento ao que se passava fora da pessoa, mas também ao que se passava dentro. Nas circunstâncias em que viveu, fossem complicadas ou difíceis, ele fez o máximo do que estava ao seu alcance. Há muita coisa agora a fazer com base no que ele deixou, muita coisa a fazer a partir dele.

Foi com o Rafael que eu fiquei dividindo Sesimbra em duas partes diferentes. Uma – a praia; outra – o Castelo. Neste momento, o que era necessário era que as pessoas tomassem atenção ao Castelo. O que é que se fará daquilo? Não sei quem foi lá um dia destes e achou aquilo maltratado…

R.L. – Está agora em vias de ser recuperado…

A. S. – Se me fosse dado escolher uma Junta escolhia a do Castelo, lá em cima, e não a da praia, cá em baixo. Como dizia, devemos ter atenção ao Castelo, averiguar sobre o que o Castelo nos poderá dar. Eu não gosto muito da praia. Agora só serve para as pessoas irem lá bronzear-se ou nadar, quando a água deveria ser para a pessoa aprender a flutuar. A vida tem sido muito estragada por gente que nada. E talvez muita gente devesse aprender a flutuar. A deixar que a vida o vá conduzindo a isto ou aquilo… Voltando ao castelo, penso que a partir dele se poderia fazer uma cosia notável para Sesimbra que seria entender a sua história – mas uma história que se fizesse com vista a uma acção futura – e averiguar que elementos dela servem ao mundo.

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A ORDEM DOS TEMPLÁRIOS VISTA POR AGOSTINHO DA SILVA

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R.L. – Quer falar-nos um pouco sobre a história da Ordem dos Templários?

Prof. Agostinho da Silva – Foi uma ordem muito importante, com uma origem, no entanto, muito humilde. A dada altura, S. Bernardo colocou uma questão aos Templários: “vocês abriram caminho aos fiéis para que pudessem chegar a Jerusalém… porque não pensam agora em converter ao cristianismo os mouros que repeliram? Podiam começar por lhes ganhar a confiança com presentes…” Assim se fez, começaram a trocar-se ofertas e a Ordem dos Templários, para ter capital para presentes e em resultado dos presentes aos mouros, tornou-se rica. Quem estava à frente da Ordem, S. Bernardo, um homem prático, um homem precavido, lamentou-se de ter poder. Ele dizia: “acho que me aproximo de Deus na medida em que tenha poder sem o ter”.

Com a riqueza do Templo, imediatamente apareceram reis e grandes senhores – e até gente da Igreja – que queriam tomar conta desse dinheiro. E inventaram ou souberam (porque não é fácil saber o que de facto aconteceu…) que dentro da Ordem havia muita coisa que não era lícita. Daí, a dissolução da Ordem. Tendo ela escapado na Península Ibérica e sobretudo em Portugal com D. Diniz. E é um dos actos que, em D. Diniz, revela o poeta, não só no sentido de criador, mas também no sentido daquele que adivinha o futuro: D. Diniz, com o dinheiro da Ordem, financia as viagens do Infante… Ele já tinha tido outra iniciativa poética: a dos pinhais de Leiria. O pinhal tinha como objectivo segurar as areias batidas pelo vento Oeste e permitir a construção de caravelas. Era esta a capacidade que o D. Diniz tinha de adivinhar o futuro, de o construir a partir do presente.

R.L. – Recentemente, a Ordem dos Templários tenta reimplantar-se. O responsável pela Ordem a nível internacional, depois da sua grande identificação com Roma, depois do período da guerra, cedeu toda a documentação do arquivo da Bélgica a um homem do Porto. Agora, um filho desse senhor está encarregado do arquivo. Devido a algumas modificações relativas à organização administrativa da Ordem, criou-se a Comendadoria de Santa Maria do Castelo em Sesimbra, cuja sede funciona nas instalações do Centro Cultural “Raio de Luz”. O Prof. acredita que um projecto desta natureza poderá fazer sentido em Sesimbra?  

Prof. Agostinho da Silva – O que se terá de fazer primeiro é definir objectivos. Muitos políticos reúnem-se em grandes cimeiras e, por vezes, gera-se a confusão porque não existe uma grande definição de objectivos. Veja o que aconteceu com a Atlântida… O problema pode ser posto assim: Mito ou não? No entanto, não existem objectivos muito claros em relação à resolução deste problema. Não há nenhuma definição de acção, é tudo muito vago…

Voltando aos Templários, e à recente criação de uma Comendadoria em Sesimbra, uma boa estratégia de acção será, por exemplo, procurar saber muito bem o que foi, o que é, e o que poderá ser a Ordem do Templo. Possivelmente, sobre esse assunto, poderá retirar-se informação do castelo de Sesimbra… O que interessa realmente é que a organização averigue a importância que determinada informação poderá ter na sua própria vida, nos seus próprios objectivos, não na vida dos outros, não nos objectivos dos outros… O castelo não está lá onde está por acaso, nada na vida acontece por acaso…

 

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AGOSTINHO DA SILVA EM SESIMBRA, 12

AGOSTINHO

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Três testemunhos pedagógicos

Calhou-me ficar nesta mesa sobre o tema da educação em Agostinho da Silva com duas pessoas que são autoridades sobre o assunto, cada um com a sua tese: o professor Manuel Patrício sobre a pedagogia em Leonardo Coimbra; e o professor Joaquim Domingues sobre a pedagogia em Álvaro Ribeiro.

Difícil a tarefa pois, porque não sendo eu uma autoridade sobre este assunto punha-se o problema de como poderia o meu discurso acrescentar alguma coisa que valesse a pena para este informado e esclarecido auditório. Talvez tirando partido do meu estatuto de indígena, e dando-lhe um carácter testemunhal, pudesse motivar algum interesse. Não que tenha sido um visitante assíduo na casa da Travessa do Abarracamento de Peniche, onde o filósofo bondosamente disponibilizava o seu tempo a quem lhe pedia. Mas os encontros que tive com o pedagogo assumiram tal ressonância no meu espírito, que se transformaram em marcos aos quais volto com frequência. Em qualquer desses encontros misturavam-se vários sentimentos contraditórios, entre a admiração do homem superior, a honra de estar na sua companhia, a sua simpatia, o agrado pela elevação dos seus pensamentos e o desconforto, a inquietação e a interrogação que provocavam o seu exemplo, as suas atitudes e a manifestação de algumas das suas preferências. Havia sempre implícita na conversa uma ligeira ironia; um convite à revolução, à mudança radical do indivíduo. Talvez por isso, com medo da vertigem, nunca arrisquei ser seu visitante, não fosse dar-se o caso de alguma loucura libertária acontecer.

Vou, portanto, contar três episódios à laia de testemunhos, e talvez a partir deles se possa decifrar algum método pedagógico implícito. Daquela pedagogia que nos faz ser seres humanos e não exclusivamente técnicos, como ele gostava de referir. Mas antes de passarmos a esses relatos gostaria de tornar claras duas coisas:

Primeira – agrada-me muito a ideia de que na palavra pedagogia está envolvido o conceito de extrair, como se o pedagogo fosse uma espécie de mineiro, que a golpes de cinzel descobre, iluminado pelas chispas produzidas, o diamante escondido, que o mesmo é dizer, com o filósofo, a tal estrela de ímpar brilho que cada um de nós é.

Segunda – a impiedade do tempo vai cumprindo a erosão, arrastando o pó sobre a sua memória, e afligia-me a ideia de, nalguma opinião pública, o filósofo ser apresentado um pouco como um velho louco e cómico que não deve ser levado a sério como se a sua existência fosse uma espécie de ornamento ou enfeite no banal decorrer da nossa vida burguesa. É estranha esta quase obrigatória necessidade de adormecimento em relação à profundidade dos seus pensamentos e às suas propostas de vida.

1º TESTEMUNHO

Visitante frequente de Sesimbra, Agostinho da Silva passou várias temporadas nos finais dos anos 70 aqui mesmo em frente neste conjunto de apartamentos designado por Bloco do Moinho.

“É aqui que mora um gato chamado Xarope?” Foi esta a primeira frase que ouvi ao Professor, quando um dia bateu à porta de nossa casa, um apartamento do mesmo Bloco, com a inocência, a ingenuidade e a franqueza própria das crianças que ficam como que hipnotizadas pelos bichos e os seguem por todo o lado, entrando em qualquer sítio, indiferentes às convivências sociais, com o único objectivo de se aproximarem e, quem sabe, talvez poderem fazer-lhes uma festa.

Também havia um cão lá em casa, mas não perguntou por ele ….

Se um adulto bate à porta de uma casa de pessoas crescidas, é para ir falar com elas, não é para saber onde mora um gato, não fica bem. Ainda por cima à procura de um animal que não é de fiar; que às vezes solta as suas unhas, perversamente escondidas, arranhando-nos, indiferente à nossa dor; que não nos obedece por norma; que só é sensível ao nosso chamamento se nós imitarmos aquele ruído ridículo do bch bch bch… não guarda a nossa casa, não nos defende em situações difíceis; e, quando quer festas ele próprio, trata do assunto, roçando-se em nós.

Não era, como puderam verificar, naquela altura um especial admirador de gatos.

O bicho tinha aparecido lá em casa por iniciativa da Leonor, que gosta de ter animais. Tínhamos casado há pouco tempo, e estávamos ainda no período de harmonização de vontades. O Xarope era uma delas, aceitei a sua presença como um desafio, tinha a vaga suspeita que era preciso vigiar algum estúpido preconceito da minha parte. Era um gato muito bonito, completamente preto, excepto nas patas, que eram completamente brancas. O bicho parecia que andava sempre calçado e dava pulos por tudo e por nada em jornadas de caça completamente inventadas.

O nome com que o baptizámos era aquele, porque simultaneamente era um remédio para as horas de tédio e também porque havia qualquer coisa de louco no gato.

O cão, pelo que se verificava e como tantas vezes o Professor expressou, não era, assim, o animal doméstico da sua preferência.

A ajuda do pastor na orientação e guarda dos rebanhos; a protecção do dono e dos seus bens em outras situações; a condução dos cegos; o acompanhamento e colaboração nas actividades de pesca e caça; a lealdade; a obediência, a submissão não eram decisivas para o levarem a preferir o cão ao gato.

Não me convencia que um homem, que era um declarado seguidor do franciscanismo de Joaquim de Flora, o da Idade do Espírito Santo[1], o dos que tratavam os lobos como irmãos, pudesse, como se fosse um capricho ligeiro, preferir um animal a outro animal. Haveria, pois, que levar o raciocínio mais longe e tentar perceber se não haveria nesta preferência alguma coisa que quisesse dizer sobre aquilo que desprezava ou admirava na condição humana.

O lobo é um animal que vê à noite, ou seja, que vê na mais absoluta escuridão, ou ainda humanamente, e de outro modo: que na maior adversidade não deixa de ter esperança.

Nessa irmandade com a natureza do Cavaleiro da Umbria, ficou mais conhecido por esse diálogo com o irmão lobo. Não um leão ou um leopardo, mas um lobo. Para além do carácter sobrenatural que envolveria uma conversa deste tipo, como facilmente se pode concluir, dois aspectos são especialmente relevantes: 1º a expressão de uma coragem sem limites do monge impassível na presença da fera; 2º o sentimento gregário de paridade expresso pela palavra irmão, pela comum insubmissão e obstinação guerreiras, atributos do bicho, e que só será possível entender como uma referência a um emblema espiritual.

Talvez, e também, nalguma adjectivação relativa a cada um dos animais pudéssemos descobrir alguma coisa. Podemos dizer sobre alguém que se comportou como um cão, e imediatamente temos o sentimento de diminuição, porque esse alguém rebaixou a sua condição humana por excesso de subserviência, ou porque se atolou na lama do mundo.

O cão, deste modo, ter-se-á afastado misteriosamente do seu pai natural, tendo perdido, pelo caminho, algumas qualidades e atributos que lhe conferiam nobreza.

Quanto ao termo gato, apenas se lhe reconhece alguma coisa de negativo no âmbito da magia, e associada à cor preta. Não me ocorre nenhum outro estigma de adjectivação; pelo contrário, a sua nomeação é sempre associada a qualidades: chamar gato ou gata a uma pessoa soa bem.

De um modo geral associado à natureza feminina, tem nele qualquer coisa de intocável, de dignidade esfíngica, o modo como se move, como pára e escuta, como toca o chão. E a elegância do corpo, quando se assanha, é reveladora de uma atenção fortíssima ao presente, que não é concentrada neste ou naquele sentido; antes é completa, envolvendo totalmente a sua presença. Outra coisa não seria de esperar de um caçador exímio.

Facilmente dizemos que é um animal doméstico (da casa); mais dificilmente dizemos que é domesticável; e é impossível dizermos que é subserviente ao seu dono.

Assim, e por comparação, dizíamos que o Professor Agostinho da Silva é um ser humano eventualmente doméstico, impossível de domesticar e de ter dono (humano). Atento como poucos ao presente. Tudo no momento lhe interessa, dir-se-ia um autêntico caçador da vida. Na Idade Média, se não fosse franciscano, seria com certeza cavaleiro templário aristocrata, com um felino rampante ou passante inscrito no brasão respectivo, A sua preferência e admiração pelos gatos ganha, por estas razões, uma dimensão claramente simbólica.

2º TESTEMUNHO

Em 9 de Outubro de 1981, no funeral do filósofo Álvaro Ribeiro.

Não se lhe conheciam muitas deslocações a funerais, dizia-se até na altura que aquele terá sido o único a que foi.

Tinha manifestado ao Rafael Monteiro o desejo de ir connosco, e fomo-lo buscar ao Príncipe Real. Entrou no carro muito bem-disposto e foi todo o caminho a conversar como se não tratasse de uma ocasião triste.

Num funeral, como mandam as convenções sociais, o ambiente deve ser pesado. O sofrimento pela despedida assim o exige. Agostinho, mais uma vez, contrariava uma regra, e, seguramente, não por desrespeito pela memória do defunto, visto que tinha aberto uma raríssima excepção na sua vida, ao deslocar-se àquela cerimónia.

Não se lhe conhecia uma convivência assídua com o filósofo Álvaro Ribeiro, nem tão pouco trocas epistolares. Teriam sido colegas na Faculdade de Letras do Porto e ambos alunos do filósofo e pedagogo Leonardo Coimbra, embora com percursos completamente diferentes. Conhecendo alguns aspectos das suas vidas ou das suas obras, dificilmente, e à primeira vista, encontraremos razão para que houvesse alguma forte comunhão que o levasse a esta atitude. Se num o verbo era fácil, no outro o verbo era difícil, se um era internacional, o outro era nacional, se um era nómada, o outro era sedentário, e por aí adiante.

Onde poderia estar, pois, essa tal comunhão? Seguramente não era pelo lado da alma, que é o do afecto que origina o sofrimento e a tristeza da perda. Então, só poderia ser pelo lado do espírito, que, neste caso, será mais completo dizer o Espírito Santo. Ambos dedicaram completamente as suas vidas à educação e à preocupação com o futuro da humanidade, quer seja pelo ensino por diferentes métodos pedagógicos, quer seja pela extensa obra escrita. Agostinho era irmão pelo espírito de Álvaro Ribeiro, e a sua discreta alegria seria, provavelmente, por considerar que Álvaro iria para uma melhor Vida.

Há pouco tempo, informaram-me que teria comentado com alguém o facto de ter sido avisado em sonho da morte do filósofo. Imagino pelo pouco que vislumbro que só quem viva verdadeiramente as virtudes da fé e da esperança poderá ter este tipo de comportamento.

3º TESTEMUNHO

Por ocasião do final do meu estágio pedagógico no ensino secundário, em 1988, ocorreu-me convidá-lo para uma intervenção na escola secundária de Sampaio. Era uma maneira de encerrar com chave de ouro. Pedi, para o efeito, a ajuda ao saudoso Rafael Monteiro, que estabeleceu o contacto, tendo o Professor acedido de imediato, e de muito bom grado. Havia da parte dele uma exigência permanente de divulgação, sem se poupar a esforços, animado da certeza de um apóstolo ou de um pregador.

A escola tinha acabado de ser criada e respirava-se um ambiente de frescura e vivacidade própria dos nascimentos. A presidente da comissão instaladora, a Prof. Maria do Carmo Serrote, sempre disponível para a inovação, aplaudiu a iniciativa, disponibilizando-se para preparar o que fosse preciso.

Quando chegaram o dia e a hora combinados, entrámos para a sala que nos estava destinada. Os alunos e os professores já tinham entrado e o espaço encontrava-se impecavelmente organizado, tal como estamos hoje aqui. Uma mesa para a comissão instaladora e palestrantes com um belíssimo ramo de flores a meio, em frente à assistência. A professora Maria do Carmo convidou-o para se sentar no lugar que lhe estava destinado. O professor olhou para o conjunto da mesa e agradeceu delicadamente, mas disse que preferia ficar de pé e de seguida começou a contar aquela história da descoberta da gravidade pelo Newton, enquanto passeava, e quando por acaso lhe caiu uma maçã na cabeça. A propósito deste episódio, de seguida passou a fazer a apologia do vadio e, naturalmente, da vadiagem.

Mais uma vez virou do avesso, fugiu à coisa preconcebida, e, só pelo facto de ter ficado de pé, desmanchou a geometria que estava organizada, e na sala soprou uma brisa de liberdade. Quando começou a fazer a defesa do estatuto do vadio a propósito de Newton, verificou-se uma enorme atenção dos alunos e um ligeiro mal-estar dos professores.

É claro que estava a falar de vadios especiais, ele próprio e os franciscanos incluídos, e a preparar terreno para depois introduzir uma magnífica palestra sobre o filósofo da sua predilecção: o nosso Espinosa.

Havia qualquer coisa de jogo e arte, de desconcerto e concerto nesta pedagogia. Vêm-me ao espírito os pescadores de Sesimbra a desembaraçarem os novelos de linha, as machuchas: Esticam a linha para ver onde está o nó, correndo o risco de o apertar, depois de o conhecer folgam o novelo para o desembaraçar. Os nós são os nossos preconceitos, o esticar e o folgar o método pedagógico, e o fio o fio luminoso das nossas almas.

Luís Paixão


 [1] …possible de parler d’une « situation herméneutique » commune, c’est-à-dire d’un « mode de comprendre » commun de part et d’autre, nonobstant la différence issue de la Révélation qorânique et d’autant plus riche en enseignement.

Ce qui anime la doctrine de l’Évangile éternel chez Joachim de Flore (1145-1202), le célèbre fondateur de l’Ordo florensis (S. Johannes in flore), c’est l’idée d’un développement de l’humanité qui est l’œuvre continue de l’Esprit-Saint et dont l’aboutissement final sera le règne du Paraclet annoncé dans l’Évangile de Jean. Le statut de l’homme au terme de ce processus réalise la parfaite liberté de l’Esprit, lequel résulte de l’amour éveillé par l’Esprit-Saint dans le cœur de l’homme131: désormais Adam n’est plus sous l’emprise satanique le portant à se décider «contre Dieu». S’il est vrai que, de siècle en siècle, la doctrine joachimite se fit sentir jusque dans la philosophie de la liberté professée par l’idéalisme allemand, il importe cependant d’éviter toute confusion. Le développement de I’ «histoire du salut» ne consiste nullement dans le développement d’un principe qui serait immanent à I’ histoire, progressant linéairement selon les lois de ce que l’on appelle aujourd’hui la «causalité historique». Loin de là, I’ histoire du salut ne se réalise que par l’intervention active et continue de l’Esprit-Saint, intervention créatrice qui chaque fois brise de nouveau le cours imposé aux choses par la volonté charnelle et l’ambition mondaine. Il ne s’agit pas d’une mutation naturelle amenant, par la disparition de ce qui précède, l’avènement du nouveau. II s’agit chaque fois d’une création de l’Esprit, et les créations de l’Esprit sont continuellement menacées par le monde, et la même la plus grave menace est celle d’une dégradation réduisant l’idée de cette création de l’Esprit à une simple puissance historique immanente au monde. C’est là même convertir la hiéro-histoire (nous dirions «I’ histoire dans le Malakût») en histoire profane, substituer à l’histoire intérieure une histoire objective, et c’est en cela que consiste en propre le processus de sécularisation ou laïcisation métaphysique (par élimination de la métaphysique). Ne peut s’accommoder de celle-ci l’idée que l’Esprit-Saint est a l’œuvre dans le cœur des hommes, comme nous avons vu que l’Imâm-Paraclet est à l’œuvre dans le cœur de ses fidèles.

Et cette œuvre, pour Joachim de Flore, s’inscrit dans le célèbre schéma qui divise I’ histoire du salut en trois époques, chacune portant le Sceau de l’une des personnes de la Trinité divine 132.i) La première est l’époque du «Père», celle de la révélation de la Loi, pendant laquelle s’affirme le péché de I’ homme, tandis que l’idéal de la perfection à venir de la Vita spiritualis s’annonce déjà dans quelques personnalités prototypiques comme le prophète Élie et Jean-Baptiste. 2) La seconde époque est l’époque du «Fils», celle de la révélation de la Rédemption; l’Homme se fait le «Fils de Dieu» et découvre l’affranchissement du péché. C’est l’époque où le type de l’homme spirituel est celui du clerc, ou mieux encore celui du moine tel que l’Église grecque byzantine en conçut l’idéal. 3) La troisième époque est celle de I’ «Esprit»; elle est marquée par l’avènement de I’ Ordre des Viri spirituales, les hommes spirituels en qui se révèle le caractère divin de la nature créatrice de l’homme. …

HENRY CORBIN – en islam iranien

aspects spirituels et philosophiques

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ENCONTROS COM GENTE NOTÁVEL, 6

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Carlos Aurélio, pintor de arte

Os mapas foram para os portugueses – chamavam-se então cartas geográficas – de uma importância muito grande durante os descobrimentos dos mares e das terras que ficam para além deles. Com um mapa do mundo eu posso, andando ou fazendo-me andar, ir até onde o finito toque o infinito. Claro que estou a falar de um mapa que considere todo o finito, isto é, que abranja, com o terrenal, também o sideral.

Mas há também outras espécies de mapas a que de boa mente se deve dar o nome de cartas transcendentais. Os mapas traçam-se, depois de se terem conhecido as terras, os mares ou os céus, com maior ou menor rigor, rigor que vai crescendo na medida em que se vão sabendo aplicar os segredos matemáticos e geométricos da topografia. Ora, parece que é possível viajar por outras terras, mares e sob outros céus, se deste mundo em que nos movemos a custo nos soubermos alhear para contemplar em espírito e verdade. Só assim se explica que haja, para lá dos mapas vulgares, outros em que se figura o desconhecido, ou se preferirdes, que haja roteiros que indiquem, para quem saiba interpretá-los, como é o mundo à luz do sol divino. Este mesmo mundo.

Um destes mapas ou roteiros, talvez o mais famoso, é o das sephiras. Os esoteristas, os falsos e os verdadeiros, conhecem-no pelo nome de árvore ou balança das sephiroth. É preferível designar as sephiroth, palavra hebraica, por sephiras, um neologismo que cabe aceitar porque, pela forma e pela matéria ou, como dizem os anti-aristotélicos, pelo significante e pelo significado, é analógico da palavra safiras.

Foi esta carta transcendental, este mapa do invisível que Carlos Aurélio sobrepôs ao mapa da Europa e assim por esse modo o pôde ver como um mapa metafísico.

Já o tinha feito com o mapa de Portugal, mas dessa vez através de telas pintadas interpretando o país de Norte a Sul como uma manifestação das sephiras.

Carlos Aurélio [na foto, à direita do observador] é um pintor de arte, nascido em Vila Viçosa, terra natal de Florbela Espanca, de Henrique Pousão e de Espiga Pinto. Viveu, como todos nós, uma fase ingénua, fase dos versos líricos e dos diários íntimos, com tentativas infantis no domínio das artes plásticas. Passada essa fase, descobriu Carlos Aurélio, na hora certa, que entre a figuração do visível e a sua desfiguração, entre a pintura fotográfica e a pintura desfocada e disforme, não há que escolher, porque, em boa verdade, a suprema arte de pintar consiste na transfiguração da natureza, na sua sobrenaturalização. Então, deixou para trás aquilo que até aí o embaíra  e aparece-nos em Tomar, no Convento de Cristo, com uma série de imagens pintadas, compondo e recompondo a figura de Portugal pelos seus aspectos essenciais, série essa de imagens que se poderão caracterizar por este lema : exigência de realidade para tudo o que seja do domínio do espírito ; de irrealidade para tudo o que seja do domínio da matéria, para que a ideia de Deus esteja presente num Portugal transfigurado.

O catálogo da exposição em Tomar, como o leitor pode ver em apêndice ao livro, tem, além das reproduções fotográficas dos quadros, explicações, pela palavra, de cada um deles e do seu conjunto, pondo em plena luz o mapa de Portugal como um mapa místico ou metafísico pela sua relação com as sephiras da Santa Cabala. A contemplação do autor torna-se prece. E é assim que surge, alguns anos depois, a realização, mais uma vez na forma de procissão ou de teoria, de uma exposição, mas agora o espírito do pintor imaginando na oração ensinada por Jesus Cristo aos seus discípulos e, através dos discípulos, a toda a humanidade. O que faz desta aventura no perigo uma experiência venturosa são as oito meditações que acompanham cada um dos quadros, em palavras que libertam as imagens da sua fixidez. Estas meditações constituem uma das obras primas da prosa portuguesa, digna de figurar numa antologia do nosso pensamento místico. Cumpre-se em Carlos Aurélio aquilo que é pouco comum entre os pintores, a de serem simultaneamente com a pintura artistas da palavra e do pensamento. Almada Negreiros e Lima de Freitas constituem, entre nós, os melhores exemplos de tão rara associação.

Enquanto estes dois mestres, companheiros na arte de pensar, se preocuparam com determinar as relações secretas da aritmética com a geometria, quarta e quinta ciências na escala pitagórica septenária, Carlos Aurélio, mais fascinado pela beleza do mundo terrestre, pelo mistério dos rios e dos mares, dos vales e das montanhas, das estepes e das florestas, prefere utilizar a sabedoria pitagórica, que bebeu na mesma fonte, pelo estudo metafísico da geografia, isto é, ligando a quarta e a quinta ciências à sexta e à sétima.

Voltamos assim ao ponto de partida desta apresentação. Mas uma surpresa nos espera. Pela magia do desenho, o mapa da Europa, olhado como por Fernando Pessoa e Luís de Camões do Oriente para o Ocidente, transforma-se numa bailarina e essa mesma bailarina, tocada pela magia de um alemão, transforma-se numa princesa coroada em que a coroa é Portugal. Por fim, eleva-se da terra ao céu como Nossa Senhora da Esperança.             

A esperança na salvação do mundo pela Europa nada tem que ver, no espírito de Carlos Aurélio, com finanças ou economia. Como a ciência económica nada tem resolvido até agora, das duas uma: ou a ciência económica não é ciência ou aqueles que dedicaram toda a vida a estudá-la ainda não conseguiram penetrar nos seus misteriosos segredos, muito bem guardados pelo companheiro de Fausto. A surpresa a que me referi é que a salvação do mundo terá de ser procurada na literatura.

Verdadeiramente, só na Europa existe literatura, entendendo por literatura as criações literárias individuais no domínio do romance, do conto e da novela, dos vários géneros poéticos, do teatro e da filosofia, sobretudo da filosofia em que um homem, só perante o mundo tem a inteligência e a coragem de o pensar. A literatura nasceu na Grécia, como se sabe. Até aos gregos e longe deles, nunca houve nada de semelhante. A superioridade que, hoje, sobretudo por influência de René Guénon, se atribui ao Oriente pela metafísica é até explicada por ali não haver literatura e isto porque para o francês e seus sequazes, como para as demais correntes de orientalismo, o indivíduo não conta espiritualmente para nada. A negação do valor do que é individualidade espiritual coexiste, nessas correntes, com a negação de Deus pessoal, cuja ideia é completamente massacrada pela ideia do Nada (de um Nada que se supõe ser Tudo) como raiz do Universo. Quando tais negações estão pressupostas no facto de que Deus é aquilo de que nada se pode afirmar, nem sequer que é o Ser porque isso seria já uma afirmação, que é o indeterminado susceptível de receber por emanação todas as formas, porque uma e outra coisa seria fazer dele um ente finito, o que é contraditório, o que se está pondo no conceito é a ideia de matéria, tal como a deduziram Platão e Aristóteles. E há ainda outro pressuposto, o de que a realização espiritual do indivíduo só pode consumar-se pela autonegação. Neste sentido fala-se de abandono ou de entrega do ser ao nada, do que se poderá chamar um suicídio ontológico. A difusão do orientalismo, que beneficia das sucessivas concessões do catolicismo às doutrinas materialistas, tem contribuído em grande parte para o estado demencial que está ao fundo do túnel para o qual nos encaminhamos.

Carlos Aurélio pôs no frontispício do seu livro uma oração escrita por Fernando Pessoa, onde roga a Deus; “Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.” Claro que o poeta, não obstante a utilização que dele têm feito para combaterem as quatro religiões monoteístas, não pede a libertação do eu que divinamente se oculta e se manifesta em cada um de nós, mas de um eu envolto em escórias. Diferem os indivíduos uns dos outros pelo seu ser profundo e casto, porque Deus, que os criou, não se repete, não é um deus tecnológico, é simplesmente Deus. O nosso primeiro filósofo, Álvaro Ribeiro, aperfeiçoando a doutrina que trouxe do ensino de Leonardo Coimbra, onde este punha que o homem é um obreiro de um mundo a fazer, onde está obreiro pôs criador. O filósofo aristotélico, dizia ele, é o que pratica a contemplação, mas não para se dissolver em qualquer homogeneidade mística, mas para receber do mundo sobrenatural o sopro inspirador das palavras que fazem ver, das palavras criadoras de pensamento.

Também para Carlos Aurélio o que conta é o indivíduo que se ama a si mesmo, pois só assim, na condição de saber-se amar, poderá amar o próximo. Nos homens representativos, pela literatura, da Europa ordenada segundo a árvore das sephiras, o que é cada um deles no que têm de profundo e de verdadeiramente positivo realiza-se na mais significativa das personagens por eles criadas e imaginadas. Assim em Malcuth que corresponde à Rússia, Dostoiévski é o Príncipe Nikoláevitch Míchkin, o Idiota; em Iesod, que corresponde à Alemanha, Göethe é o Fausto; em Netzah, que corresponde à Escandinávia, Balzac é Serafito (o eu verídico do francês Balzac está realmente na Escandinávia, junto a Swedenborg); em Hod, que corresponde à Grécia, Homero é Ulisses; em Tifereth, que corresponde à França, Victor Hugo é Jean Valjean; em Hesed, que corresponde à Inglaterra, Shakespeare é Próspero, o rei taumaturgo; em Gueburah, que corresponde à Itália, Dante é Dante, pois na Divina Comédia Dante é uma criação de Dante; em Hochmah, que corresponde a Castela, Cervantes é D. Quixote; em Binah, que corresponde à Andaluzia, Ibn Arabî é Xerazade; finalmente e superiormente, em Kether, que corresponde a Portugal, Camões é Camões.

Eis o único caso em que o criador é a sua própria criação, em que, portanto, o eu exterior reflecte inteiramente o eu profundo ou como se o mesmo tivesse duas faces.

Esta correspondência de Portugal com a mais alta das sephiras, com a Coroa, que é como em português se diz Kether, não é originalmente do autor do Mapa Metafísico da Europa. Tem por base a figura da Europa na forma da Virgem Coroada tal como foi traçada pelo alemão Heinrich Bünting (séc. XVI).  Se fosse um português que tivesse posto Portugal como coroa da Europa, a coisa ia de si. Mas ter sido um alemão dá-nos alguma esperança.

A primeira pessoa que me falou de Carlos Aurélio foi Luís Paixão, o nosso primeiro arquitecto, o arquitecto da filosofia portuguesa. Indicou-mo como alguém que devíamos receber entre nós na tertúlia que, em Estremoz, nos reunia todos os sábados pela manhã. Foi, no entanto o acaso que o trouxe a conversar comigo.

Falámos das imagens préhipnóticas, de que ele tinha alguma experiência. Mais tarde, seria no domínio do sonho que o seu espírito viveria no seu elemento. Desde as visões premonitórias de acontecimentos até àquelas em que dir-se-ia Deus estar presente, muita verdade tem passado pela alma do nosso escritor enquanto dorme. Não digo que alguma vez tenha atingido o estado de alma de que nos fala Salomão: “Durmo, sed cor meum vigilat”. Todavia, durante a noite, o seu espírito é habitado por imagens tão significativas que podemos dizer delas que são metáforas poéticas, daquelas que somente visitam os grandes espíritos.

Nesse mesmo dia em que o conheci, pediu-me que fosse com ele a sua casa ver uns quadros que tinha pintado, pois gostaria de saber a minha opinião sobre eles. Estava no início de uma vida dedicada à arte do desenho e da cor e necessitava de aplausos. Limitei-me, porém, a dizer-lhe: “Gostaria muito de saber o que tem feito de si como artista até agora.”

O que ele fez de si como artista até hoje (já lá vão vinte anos) deve ser avaliado pelas fases progressivas da sua pintura, pois nele são indissociáveis, como o valor de X e de Y numa função, a arte e a vida. Esta relação está sempre presente em tudo quanto pensa, imagina ou faz . E vê-se, acompanhando os momentos por que tem passado o que pinta, acompanhando, isto é, compreendendo, que Carlos Aurélio se vai libertando da dependência de si próprio, sem deixar de ser leal ao eu que pelo nascimento lhe foi confiado.

Há quem procure dirigir, enquanto dorme, os próprios sonhos, como é o caso de António Cândido Franco, o insigne autor da Arte de Sonhar. Quando disse atrás que é no domínio do sonho que o espírito do Carlos Aurélio vive no seu elemento, não empreguei, como se viu, a palavra sonho figurativamente. Falava mesmo de sonhos, daqueles sonhos que se revelam na luz interior de quem dorme, luz tão real como a luz física, mas sem sombras. Carlos Aurélio não procura dirigir os sonhos, a não ser que se entenda por dirigir criar um estado de alma durante a vigília que pela sua religiosidade prática seja propícia à descida dos anjos.

 António Telmo

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UM ENSAIO INÉDITO DE RUY VENTURA SOBRE A REGIÃO DA ARRÁBIDA

risco

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O EIXO E A ÁRVORE: notas sobre a sacralização do território arrábido

 

 

A Arrábida é que é o altar da Saudade.

Eu pu-lo no Marão porque sou do Norte.

Teixeira de Pascoaes

dirigindo-se a Sebastião da Gama

 

[…] saudade […] é a projecção espiritual

de formas corpóreas presentes.

António Cândido Franco

 

[…] não pretendo legislar, mas encontrar.

António Maria Lisboa

 

Deveria ser obrigatório entrar em Sesimbra pela serra da Achada. Subir ao Facho de Santana, parar nesse lugar e aí, em contemplação, estender o olhar na direcção de todos os pontos cardeais, só depois descendo à vila pela estrada dos Argéis. A única alternativa possível consistiria na subida, a pé, até ao lugar abandonado – e tão belo e sublime – da antiga vila medieval, entrando nela pela Porta do Sol e dela saindo pela Porta da Azóia, não sem antes subir à mais alta torre do castelo. Só nesses dois lugares é possível obter a apreensão plena do espaço que, sucessivamente, foi chamado “Akra Barbarion”, “Cempsicum Iugum”, “Espichel” e “Arrábida”.

 *

Para quantos, de fora, se aproximavam há dois mil anos do espaço que hoje podemos designar como “Península da Arrábida”, esta terra singular, finisterra ou “fim do mundo”, era o “Barbarium Promontorium” e a sua serra o “Mons Barbaricus” (cf. Marques, 2009: 46 – 47). Estrabão, no século I antes de Cristo, em grego, chamou à região do Espichel “Akra Barbarion” (cf. Serrão, 1994: 33- 35), enquanto Avieno, por seu turno, lhe chamou “Cempsicum Iugum”, o que indica uma cadeia montanhosa e, talvez, uma povoação estabelecida na região com nome da mesma família, “Cempsibriga” (cf. Serrão, 1994: 32).

Não excluo de todo as explicações latinas do vocábulo mais antigo. Para os romanos, esta terra deveria ser, de algum modo que desconhecemos, “terra estrangeira” (ou “terra estranha”, que a raiz é a mesma) (DLP, 99). Mas, tendo em conta os vestígios materiais e imateriais que comprovam – inequivocamente – uma forte presença semita, sobretudo fenícia e púnica, na região (fonte ou modelo de muita da cultura local, que diversas civilizações posteriores não conseguiram ou não quiseram apagar), tenho a obrigação de olhar os termos à luz das línguas e dialectos falados por esses povos vindos do Próximo Oriente e do Norte de África antes da nossa era. Sigo com escrúpulo a metodologia de análise toponímica que já apresentei noutras publicações (cf. Ventura, 2011: 15 – 19).

Subjacente a “terra” ou “país estrangeiro / estranho” parece estar o temor provocado nos falantes pela situação de finisterra. Recordo que o topónimo “Espichel” significa “falésia do abismo” ou “falésia do inferno (do mundo inferior, dos mortos)”, pela aglutinação de duas palavras hebraicas: shpi (alto escalvado, falésia) e sh’l (DFP, 245 e 251). Já Moisés Espírito Santo notou tal leitura (cf. DFP, 76) que, tendo plena confirmação material no terreno, deve ter designado todo o espaço que vai do Cabo ao fim da Arrábida pelo menos até ao século XII, como indiciam documentos dessa época (cf. Ventura, 2011: 53) e a tradução desse nome, para latim ou português, na designação duma praia situada na costa sul da região, a curta distância da “Pedra do Frade”: a “Praia do Inferno” (cf. Cardoso, 1994: 8). Não me parece, assim, que os termos “barbarium” ou “barbaricum” tivessem que ver com qualquer rudeza dos habitantes da região, como por muitos lados se tem escrito.

O termo parece ter sido, antes, uma adaptação à fonética das línguas grega e latina da voz semita que se usaria correntemente. Na base de “barbarion”, “barbaricum” e “barbarium” parece estar a aglutinação, mais uma vez, de termos hebraicos. Como é usual na toponímia antiga e tradicional, descrevem o terreno e/ou as suas funções, sem qualquer fantasia ou lirismo. Recordo que as designações do espaço são sempre lógicas, materiais, funcionais e/ou descritivas. Afiguram-se-me três hipóteses neste momento (DFP, 113):

         a) br (campo aberto, vazio, puro) + brg (passar, desaparecer, fugir);

         b) BR (id.) + BRK (orar, venerar, abençoar);

         c) br (id.) + br’ (desbravar, arrotear).

Ou seja, os termos usados na Antiguidade Clássica para nomear o Espichel e a Arrábida significariam “campo aberto/vazio [por onde] se passa”, “campo aberto/vazio, abençoado/sagrado, onde se reza” ou “campo aberto/vazio, desbravado/arroteado”.

Quanto a “Arrábida”, seria, como alguns autores já apontaram, apenas uma “cadeia de montes” (cf. Marques, 2009: 46) e pouco do que por aí se tem afirmado, com pouca sustentação material ou contextual.

Veja-se. Na mesma língua fenícia/púnica, onde se utilizou grande parte do vocabulário antigo do hebraico e do aramaico, há um nível material que se confirma nas palavras. Por um lado, temos HR, “monte ou serra”; por outro, RB, “grande”; e, por fim, DA, “esta” (DFP, 117, 128, 220). Logo, “serra grande esta”, HR RB DA… que poderia ser entendida ainda na sua função geográfica ou social de fronteira, HR BD, pois BD significa “separação” (DFP, 110), ou na sua função religiosa – provavelmente relacionada com os santuários fenícios-púnicos que os arqueólogos descobriram em Alferrara ou na serra do Risco, à vista de Abul (cf. Gomes, 2001), – como local onde permaneciam sacerdotes transmissores de oráculos, BD ou BAD (DFP, 110).

Há uma leitura aceitável do topónimo antigo “Cempsibriga” que não devo ignorar. É provável que um dos locais de vigia da região se situasse algures nas proximidades do castelo de Sesimbra, talvez no castro de que ainda subsistem vestígios apreciáveis num morro a nascente dessa construção medieval. Os “Cempsos” talvez fossem conhecidos assim pela vigilância que se exerceria, de forma privilegiada, a partir do seu território montanhoso e escarpado, o “Cempsicum Iugum” registado por Avieno (“Jugum” significa “cadeia montanhosa” ou “cabeço de uma montanha” (DLP, 371)). TZPIH em hebraico é um “posto de vigia” e TZPH significa na mesma língua “montar guarda / vigiar” (DFP, 234) (veja-se o ar de família com o verbo português “espiar”, que daí virá também…). TZPIH ZH seria uma maneira, dialectal, de dizer “esta vigia” (ou, em termos mais correntes, “esta atalaia”). “Cempsibriga” seria pois, em fenício ou púnico, a “muralha [de onde] se vigia”, pois “briga” nada tem que ver com o “celta” em Portugal, como alguns celtistas/germanistas muito propagaram, curiosamente sem nunca referirem fontes legíveis. Deriva do termo hebraico BRIG, que significa “muralha”, “cintura”, “travessa” (DFP, 113)…

Concluindo, embora sem dogmatismos: na Antiguidade, o território arrábido estaria sinalizado por vários marcos linguísticos, com capacidade descritiva, que acabaram por identificar o território:

         a) um campo aberto, desértico ou vazio de gentes, pouco povoado, local de passagem, que os ocupantes romanos viram como “terra estranha”, talvez porque fosse considerado, pelos próprios autóctones, como local sagrado, de oração;

         b) uma finisterra, entendida como fim do mundo e, provavelmente, como fronteira dos infernos abissais;

         c) uma serra grande, talvez sentida como fronteira-separação e onde existiriam sacerdotes/profetas que proferiam oráculos;

         d) e, por fim, um local de vigilância amuralhada.

*

A esta realidade mais ancestral sobrepôs-se outra que a confirmou, reinterpretando-a e modificando-a, sem a adulterar. Ao inferior (inferno, abismo marítimo) e superior (montanha), à vigia/vigilância e abertura/passagem/deserto, ao vazio/sagrado, sobrepuseram-se outras realidades simbólicas de ligação entre seres e território. Os eixos mantiveram-se, mas – como num “eterno retorno” (Nietzsche) – transfigurados.

O tempo – numa cronologia imemorial preservada pelas lendas, como fragmentos de um mito global – veio confirmar esta estrutura axial com rituais, legendas, construções e ocupações diversas.

Mapa Arrábida

Aos dois extremos do eixo atribuíram-se nomes iguais, comuns, indicando uma identidade e uma comunicação entre os dois pólos: “Memória”. O substantivo abstracto colou-se a construções religiosas (oratórios/ermidas) que remontam à Idade Média (sécs. XIII e XIV), diminutas na sua expressão material, mas imaterialmente enormes, dada a sua ligação às narrativas da aparição nesses locais de esculturas sagradas, aí fixadas após deslocações misteriosas. Em qualquer delas, temos esculturas de síntese (femininas e masculinas, adultas e infantes, marianas e crísticas) que sobem, ascendem do mundo inferior, tenebroso, do mar, até um lugar alto, superior, montanhoso, numa acção sagrada, revelada aos homens por fenómenos luminosos/estelares. Seja na lenda de Nossa Senhora da Pedra Mua ou na narrativa de Nossa Senhora da Arrábida, a descoberta/invenção exige dos seres humanos uma compreensão da luz e/ou do sonho e um movimento de estranhamento, de peregrinação, complementares. Ao Espichel vai-se por via terrestre, seca. À Arrábida chega-se por via marítima, húmida. (Parecem termos alquímicos ou indicações iniciáticas…) Ao planalto ocidental, em cujo extremo ficaram gravadas as pegadas de uma burrinha, vai-se e retorna-se. Ao monte oriental sobe-se, fica-se e muda-se de vida, numa “metanóia” integral, rumo à ascese.

De comum, permaneceu até aos nossos dias o ritual cíclico que todos os anos recorda os factos ou um voto imemorial: os círios. Os círios são um grupo (SHR, “grupo”) e uma acção de júbilo e convívio (SHR, “cantar”), concretizada no “canto” e na celebração cantada (SHIRH) (DFP, 248 e 252). Assim dizem as palavras vindas do fenício e/ou do púnico. Tal corresponde ao que os círios são, ainda hoje.

Não podemos contudo esquecer que SHR é, também, “umbigo” e “cordão umbilical” – que podem, como se sabe, ser vocábulos que designam o “axis mundi”. Disso talvez nos fale o outro eixo, fixo numa terra do meio, situado rigorosamente a meio da linha simbólica que vai da “Memória” à “Memória”. Nesta linha tão importante implantaram-se ao longo de mais de dois mil anos, em épocas diferentes, marcos religiosos tão significativos quanto um bétilo (pedra sagrada semita, mais tarde cristianizada) (perto da Roça do Casal do… Meio, cf. Serrão, 1994: 101 – 102), uma azóia sufi (ainda hoje recordada na toponímia e em vestígios materiais encontrados (cf. AA. VV., 2009: 172 – 181)) e uma ermida dedicada à Senhora da Pinha (mais tarde chamada de “El Carmen”). E acabou por crescer, arborescendo, deitando ramos em direcção ao sul, por Sesimbra, penetrando baía adentro, e ao norte/noroeste, nomeadamente até Alfarim.

Nada parece ter sido deixado ao acaso neste território sacralizado, unido pelo divino, que só as manigâncias políticas, ocorridas entre meados do século XVIII e a década de 70 do século XX, puderam dividir.

Recorde-se que no centro simbólico da linha está Cempsibriga, o tal lugar que pode e deve ter sido de vigia/vigilância. Desse local, situado algures no vale, entre o cabeço do castelo e o castro, traçou-se um caminho directo até ao oceano (o que não significa geometricamente direito) e nele se elevaram vários santuários/edifícios marcantes, num percurso simbólico, de (re)ligação.

O primeiro foi dedicado a São Sebastião – sede da irmandade leiga dos Terceiros Franciscanos, protecção da vila contra a peste, casa do “alter Christus” e avatar do “Deus dos Exércitos” (“Sabaoth”), na visão dos cripto-judeus. O segundo, igreja matriz, recebeu como orago Sant’ Iago peregrino, recordando a necessidade de purificação do ser humano, através do movimento e do estranhamento, e mostrando a jurisdição sobre a vila do freires espatários, mas também, metonimicamente, os dois “Filhos do Trovão” que quiseram ladear o Senhor no seu Reino. O terceiro, mais perto da praia, era a casa dos mareantes, do seu hospital e da sua confraria, capela dedicada ao Espírito Santo, a face feminina e bondosa de YHWH (“Shekinah”), e único lugar onde até hoje, em toda a região, se prestou culto legítimo ao Consolador. Por fim, outra construção colocada sob a protecção do filho de Zabedeu, dessa feita como guerreiro “mata-mouros”: uma fortaleza que defendia a vila das investidas da pirataria norte-africana.

Para o outro lado dessa linha longitudinal que liga o Espichel à Arrábida parte outro eixo. É eminentemente feminino, pois parte da capela de Sant’ Ana (cristianização da Grande Mãe) até Alfarim, terra da Concepção – como, afinal, o seu nome indica. ALP (que se pode ler “alf”) é o “clã”, enquanto HRY significa “conceber” (DFP, 101 e 128). O nome da sua padroeira cristã parece confirmá-lo: Nossa Senhora da Conceição, aquela que vence as forças ctonianas/demoníacas pisando uma serpente simbólica.

O vale de Sesimbra, entre o morro do castelo e o facho de Santana, é pois o eixo central de todo o território arrábido. Só no século XVI a mudança da povoação para a “Ribeira”, com consequente fundação de nova paróquia na década de 1530, parece ter deslocado aquilo que, provavelmente, práticas geomânticas de marcação do terreno ou de observação do espaço haviam distinguido/sacralizado há muito num alinhamento. Sem que algo se tenha perdido. Pelo contrário, creio ter acontecido um enriquecimento.

Nesse local, entre o mar e o campo (a SHD que deu em “Achada” e significa “campo” (DFP, 246)), há mais dois elementos que reforçam – e de que maneira… – a sacralidade desse espaço com ocupação humana milenar.

Vemos, por um lado, Sesimbra e os seus navegantes protegidos por “dois arcanjos” petrificados nos morros do “Arcanzil”, um a nascente, outro a poente da vila (Pitôrra & alii, 2011: 40 – 41). Os mensageiros/protectores duplos fazem lembrar as duas faces de Janus, deus das portas, das transições e das passagens, marcando a mudança do passado para o futuro, do baixo para o alto (DS, 530-531). Mas o termo, em si, pode vir do fenício-púnico HR KSL, significando “monte[s] [da] confiança” (DFP, 160), não sendo de excluir uma proveniência do latim “agger” (baluarte, elevação) (DLP, 43) ou do grego “árcho” (proeminência, grau elevado, chefe) (DE1, 296). Não deve também ficar na sombra o parentesco fonético e simbólico com os termos “arca”, “arco” e “arcano”.

Por outro, temos a lenda do achamento da imagem do Senhor Jesus das Chagas, protector dos pescadores sesimbrenses (e não só). Essa narrativa coloca Sesimbra na rota da cruz, mas não de uma cruz qualquer. Trata-se de um símbolo com duas faces, sintético, como todo o seu território semeado de marcos simbólicos que conciliam os opostos. Lembro que a cruz é, para G. K. Chesterton, “o símbolo do mistério e da saúde”: “[…] embora tenha no centro uma colisão e uma contradição, pode estender os seus quatro braços para sempre, sem alterar a forma. Porque tem um paradoxo, no centro, pode crescer sem mudar” (Chesterton, 1958: 55). É, também, uma via luminosa e de testemunho, de sangue e de redenção – “per crucem ad lucem”, tal como na árvore (DS, 68) em que o eixo primordial acabaria por se transformar – e, igualmente, na opinião de Guénon, um símbolo de totalização espacial e de união dos contrários (DS, 325). A cruz de Sesimbra, de onde pende um Cristo Morto esculpido no norte da Europa na primeira metade do século XVI (infelizmente maculado por um restauro bárbaro executado por curiosos sem ética artística), quando sai em procissão é dolorosa e florida, morte e ressurreição, paixão e aleluia.

O que mais interessa na lenda da invenção da imagem de Jesus crucificado é aquilo que tem sido menosprezado: o achamento do braço perdido na praia, como pedaço de lenha/madeira que só no fogo se revela, quando não é consumido pelo fogo. Tal como a Senhora do Cabo e a Senhora da Arrábida, saiu do mar, do abismo, do mundo inferior, vencendo-os para se dar a epifania. Recordo que o braço simboliza a força, o poder, o socorro prometido, a protecção, mas também a justiça (DS, 146 – 147), que é esta parte do corpo de Deus, em conjunto com a Sua mão, que dá a vitória ao povo de Israel (segundo as Escrituras). Mas o “braço”, se atentarmos no som da palavra, pode ser também BR ASH – “filho do fogo”, “nascido do fogo” (DFP, 106, 113) – ou BR’ ASH – “criação do fogo” (idem). Poderia o que era fogo ser queimado pelo lume?

Além disso, o braço é de madeira, um pedaço de lenha. Temos aqui ressonâncias de uma relíquia, verdadeira ou suposta, da Santa Cruz ou do Santo Lenho – a que ainda hoje existe em relicário guardado na matriz de Sesimbra, transportada sob o pálio no dia da festa magna, a qual se supõe ser única na diocese de Setúbal (cf. Monteiro, 2002: 22). É que a solenidade do Senhor Jesus das Chagas calha na festa cristã da “invenção (descoberta) da Santa Cruz” por Santa Helena no Monte Calvário, 4 de Maio. A “madeira” dessa imagem, que não arde, lembra por seu lado a “mater”, que em latim é “mãe”, “causa”, “fonte”, “tronco”, “origem” e “pátria” (DLP, 407). “Madeira” e “matéria” são uma e a mesma palavra. Pegando nestes termos e no nome do Senhor Jesus, poderemos até dizer que são uma imagem espelhada da Portugal, cujo símbolo maior, como se sabe, são as chagas que Ele ostenta no nome e na escultura.

chagas

Mas é preciso ir à procissão do Senhor Jesus das Chagas para reconhecer em Sesimbra o eixo religioso da região. O cortejo, com número muito significativo de fiéis, percorre quase em espiral as estreitas ruas da parte velha da vila durante mais de três horas. Nalgumas a enorme escultura quase nem cabe, mas lá vai passando e pisando o alecrim que as ornamenta como planta sagrada (a mesma com que os velhos de Alcabideche e da Caparica cobriram a primeira ermida do santuário da Pedra Mua), enquanto os devotos apanham e guardam ramitos da planta (que guardam como vestígios sagrados). No Largo da Marinha benzem-se os barcos e os pescadores – e a água sacralizada, benta, é agente de um ritual antigo de acalmação do mar, dessa potência imensa que representa as forças do abismo (DS, 623) e era cultuada como Neptuno na zona do Outão. É preciso dominar as ameaças com a cruz dupla, na sua morte e na sua ressurreição.

O estranho é que há muito o cortejo não é só de sesimbrenses, mas de toda a região. As Chagas não se deslocam a outros santuários, mas em compensação, surpreendidos ou não, vemos na procissão das Chagas os círios/confrarias de outros locais de culto ancestral com os seus estandartes. Prestam vassalagem espiritual ao seu suserano, visível no símbolo duplo da morte e da vida. Vêm do Espichel (e, através dele, de todas terras que aí vão ou foram), das Pedreiras (cuja população venera a Senhora de El Carmen), do do Senhor do Bonfim de Setúbal, da Atalaia.

Às Chagas, à sua madeira/lenho, à sua cruz da Quaresma e de Maio, da Paixão e da Invenção, da Dor e da Redenção (que é Ressurreição e Ascensão) – todos se rendem. Talvez porque Sesimbra e o seu vale sejam o eixo simbólico, arborescente, de todo um território que vai de Memória a Memória, da Concepção à Cruz e à Eternização – na Arrábida.

Dedico esta súmula, a desenvolver e aprofundar num trabalho futuro,

ao senhor António Reis Marques, investigador sesimbrense

que muito me tem ensinado. Vejo-o, também, como ex-voto

ao Senhor Jesus das Chagas (Ele sabe porquê).

 

Azeitão, parcela perdida do concelho de Sesimbra,

em 13 de Maio de 2013.

Ruy Ventura 

BIBLIOGRAFIA SUMÁRIA

1. Dicionários

Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain (1982) – Dictionnaire des Symboles. Édition revue et augmentée, Paris, Robert Laffont / Jupiter. [DS]

Espírito Santo, Moisés (s/d) – Dicionário Fenício – Português, contendo os glossários das línguas e dialectos falados pelos Fenícios e Cartagineses: cananita, acadiano, assírio e hebraico bíblico. 2ª edição, Lisboa, Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. [DFP]

Machado, José Pedro (1995) – Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Lisboa, Livros Horizonte. [DE]

S/A (2008) – Dicionário de Latim – Português. (3ª edição revista), Porto, Porto Editora. [DLP]

2. Outra bibliografia

AA. VV. (2009) – O tempo do Risco – Carta Arqueológica de Sesimbra. S/l, Câmara Municipal de Sesimbra.

Cardoso, João Luís (1994) – “O litoral sesimbrense da Arrábida. Resenha dos conhecimentos da sua evolução quaternária e das ocupações humanas correlativas”. Sesimbra Cultural, Sesimbra, nº. 4, Dezembro: 5 – 12.

Chesterton, Gilbert Keith (1958) – Ortodoxia. Porto, Livraria Tavares Martins.

Gomes, Mário Varela (2001) – “Divindades e santuários púnicos, ou de influência púnica, no sul de Portugal”. Os Púnicos no Extremo Ocidente, Lisboa, Universidade Aberta: 99 – 148.

Marques, Luís (2009) – Arrábida e a sua religiosidade popular. Lisboa, Assírio e Alvim.

Monteiro, Rafael (2002) – A Festa das Chagas, os painéis de Nuno Gonçalves e outros temas. S/l, Câmara Municipal de Sesimbra.

Pitôrra, Paulo (coord.) & alii (2001) – O que veio à rede… – Vocabulário, alcunhas e topónimos de Sesimbra. S/l, Câmara Municipal de Sesimbra.

Serrão, Eduardo da Cunha (1994) – Carta Arqueológica do Concelho de Sesimbra. Lisboa, Câmara Municipal de Sesimbra.

Ventura, Ruy (2011) – “Para uma carta toponímica da região de Aljezur”. Al-Rihana – Revista Cultural do Município de Aljezur, s/l, nº 5: 11 – 56.

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AGOSTINHO DA SILVA EM SESIMBRA, 7

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Agostinho da Silva.convite

Testemunhos sobre Agostinho da Silva no centenário do seu nascimento*

Quis a Câmara Municipal de Sesimbra associar-se às comemorações do centenário do nascimento de Agostinho da Silva.

Em boa hora o fez, porquanto, ele foi um grande amigo desta terra, onde teve casa e gostava de permanecer e contactar com a sua gente.

Talvez por ser um dos poucos sobreviventes dos amigos que teve em Sesimbra, merecesse a honra do convite para vir dar-vos o testemunho da convivência que com ele tive o privilégio de manter, durante muitos anos.

Todavia, será mais em homenagem à sua memória, que tanto venero, que aqui me encontro, pois as minhas pobres palavras pouco ou nada poderão acrescentar ao lustre do muito que, no decurso deste ano, se tem dito e escrito sobre essa singular figura que marcou o século XX português.

Na tentativa, talvez vã, de superar limitações, decidi trazer-vos algumas breves recordações de aspectos da sua vida, comigo partilhadas, principalmente os relacionados com Sesimbra, para depois salientar particularidades do seu pensamento e, por fim, do seu ideal de liberdade.

Durante a sua permanência no Brasil, Agostinho da Silva criou, ou ajudou a criar, estabelecimentos de ensino universitário em algumas da suas cidades.

Quando falava disso, recordava sempre as dificuldades que enfrentava com as respectivas autoridades, as quais alegavam a inexistência de edifícios com a dimensão necessária para a respectiva instalação e funcionamento.

Nada de mais errado, contestava ele. Ao princípio, e tal como acontecia na velha Grécia, basta apenas que haja um mestre disponível e alguns alunos interessados, pois o resto virá depois.

Num país como este, de bom clima, poderá ser ao ar livre, sob uma árvore frondosa, à beira de um rio ou no recanto de um parque, que poderão sentar-se os discípulos a volta do mestre, para escutarem os seus ensinamentos e, sobre eles, reflectirem e fazerem perguntas.

E foi de facto assim, em regime ambulatório, sem burocracias ou preocupações administrativas, que ele iniciou o funcionamento de pequenos pólos de ensino, que mais tarde se tornariam em verdadeiras universidades.

Aponto esta interessante faceta da sua vida para revelar a intenção que teve de criar, na nossa terra, uma universidade aberta ou um centro de estudos sesimbrenses que, a título experimental, começaria por ser um curso de verão, cuja temática seria a vida de Sesimbra, nas suas principais vertentes, para o que havia até esboçado o respectivo programa. Recorrendo à memória e a excertos de cartas que me escreveu a esse propósito, pareceu-me de interesse referir aqui a súmula dos temas a leccionar, que depois seriam compilados e desenvolvidos para a publicação, que também preconizava, de uma espécie de compêndio de cultura geral sesimbrense.

Obviamente que, de acordo com a sua maneira de ser e agir, seria tudo muito prático, e as conversas, como ele gostava de dizer em vez de lições, seriam todas ao ar livre e em lugares emblemáticos da vida do concelho.

Permito-me abrir um parêntesis para recordar, que foi passeando nas alamedas do Campo Grande, em Lisboa, que ele deu as primeiras explicações ao Dr. Mário Soares, como este já teve oportunidade de referir, com a admiração que tinha pelo Professor.

A primeira conversa seria na Fortaleza de Santiago. É importante, dizia ele, começar ali em frente ao mar que é a matriz de Sesimbra, onde já se pescava ainda antes de Portugal existir.

Poderemos então falar da importância da nossa estreita plataforma ou planalto continental que, por ser estreita, traz por consequência que num espaço limitado, junto à costa, viva um maior número de espécies e de indivíduos de cada espécie.

Isso explica, a bem conhecida variedade e riqueza piscícola sesimbrense. É também por isso que a pesca se pode fazer em embarcações de pequeno porte, como está patente no elevado índice artesanal que caracteriza a faina marítima local.

Associada a esta actividade andou sempre outra com ela relacionada: a produção de sal.

Haverá então lugar para recordarmos a época da chamada “guerra do sal”, esse difícil período da história de Sesimbra, entre os séculos XV e XVI, por Setúbal ter embargado o fornecimento de sal para a conservação do pescado em salmoura, então tão necessário para o consumo público como para a exportação.

E só a pesca, fulcro da economia, com o tipicismo da vida dos seus pescadores, a variedade dos seus barcos e artes de pesca, e todas as actividades correlativas, como a construção naval e a cordoaria, passando pelo pitoresco do que foi a antiga lota, o desembarque e transporte do peixe, constitui motivação mais que suficiente não só para merecer várias conversas mas também para a criação, que idealizara, de uma instituição que expressamente se dedicasse ao seu estudo, investigação e divulgação.

A segunda conversa seria no Castelo, onde o amigo Rafael Monteiro, com o poder da sua vasta cultura, dissertaria sobre a história da sua terra, desde a origem até aos nossos dias.

Julgamos que teria até oportunidade de esclarecer e desenvolver a sua tese, de não ser aquele o primitivo castelo, mas outro mais a nascente, no lugar da “Meia Velha” ou “Ameia Velha”, perto do chamado Vale da Vitória onde, segundo a tradição, D. Afonso Henriques venceu as tropas do rei mouro de Badajoz.

A seguir iríamos à Lagoa de Albufeira, onde seria abordada a importância ecológica daquela zona húmida que terá sido, no início do quaternário, o lugar onde o Tejo se lançava no oceano para, no séc. XV, segundo os antigos mapas, ou portulanos, mostrar-se como uma reentrância da costa, aberta ao mar e, mais tarde, tornar-se então lagoa, como a conhecemos, por efeito da erosão que formou o cordão de dunas, separando-a do mar.

Por último, demandaríamos o Cabo Espichel, a finisterra d’Arrábida, rico no seu património geológico e histórico-religioso, onde vários factores se conjugaram para, desde a antiguidade, ser lugar privilegiado no campo do sobrenatural.

A força mística do lugar, transmitida pela grandiosidade da paisagem, feita de rochedos, ventos agrestes e os abismos marítimos que fazem sentir a pequenez da nossa dimensão será uma proposição aliciante para a visita ao Cabo e ao seu santuário.

O programa era mais vasto e diversificado, pois propunha como que a descoberta de Sesimbra para os sesimbrenses, criando-lhes uma forte identidade e um maior espírito de apego à vida do concelho.

Por vários motivos adversos, mas principalmente pela doença que o abateu, esta ideia não se realizou. Dela releva porém, aliado ao excelente nível de conhecimentos, o seu amor a Sesimbra, que dizia, e deixou escrito, ser uma das terras de que mais gostava, tanto na sua dimensão física como na humana.

Agostinho da Silva considerava-se cristão, e deixou escrito que aquilo a que chamava civilização cristã não existia e, por isso, era preciso construí-la.

Vivia pobre e, para ele, isso implicava não ter coisas, e gracejava dizendo, não ter sequer gente, pois tentar ser gente já dava muito que fazer.

Não se dar a si próprio, mas estar sempre ao serviço dos outros, em inteira disponibilidade, era também o que dizia e praticava.

Não aceitava que o chamassem de filósofo, pois na verdade era mais por S. Francisco de Assis do que por Aristóteles.

O franciscanismo era o seu modelo. Lembro-me de lhe ter ouvido, que na “Declaração Universal dos Direitos do Homem” se esqueceram de acrescentar o direito à pobreza.

Esclarecia porém, não se tratar da pobreza involuntária, resultante de fatalismo ou das desigualdades sociais, mas da que era assumida pelo despojamento dos bens materiais, pela sobriedade do viver, do vestir e do comer.

E essa sua maneira de ser e de estar na vida implicava ainda um dever: o de que a comunidade em que estamos inseridos receba sempre algo de nós próprios, estando cada um mais ao seu serviço do que esperando que ela o sirva.

E acrescentava a necessidade de uma cultura de deveres cívicos, de uma cidadania responsável – que infelizmente é muito frágil entre nós – e também de um espírito de tolerância no sentido de que “possa cada um ser o que realmente é, respeitando e entendendo o que os outros são, sobretudo aqueles que estejam em minoria de opinião”.

Sublinhava também que a pobreza, de que fizera modo de vida, já S. Francisco, que lhe chamara santa, tinha proclamado as suas virtudes, uma das quais é a liberdade.

E escandalizava aqueles que não o compreendiam, quando fazia a apologia do ócio e da necessidade de libertar o homem da servidão do trabalho, dado que a questão do trabalho não está em produzir bens essenciais, alimentos, vestuário e abrigo, pois na realidade o que todos procuram é produzir dinheiro, com o objectivo de o multiplicar e alcançar sempre mais e mais dinheiro.

O homem de hoje não usufrui da liberdade que apregoa, ou que lhe apregoam, porquanto está cada vez mais enleado na teia de várias servidões, submetido a novas formas de escravidão.

Produzem-se hoje cada vez mais bens, não essenciais à vida, mas apenas necessários ao sistema de mercado, lembrando a propósito o que ouvira ao seu amigo, António José Saraiva: “só escapando à sociedade mercantil pode o homem possuir-se verdadeiramente a si próprio e contribuir para inverter o ciclo infernal da mercantilização da vida”.

Por isso, pretendia que, em vez de se perder tanto tempo a definir e discutir capitalismo e socialismo, melhor seria que todos se empenhassem em abolir um sistema de produção que se alicerça no trabalho involuntário, ou forçado, da maior parte dos homens.

Com asserções como estas, que hoje se diriam politicamente incorrectas, não admira que houvesse quem o apelidasse de utópico, visionário ou sonhador.

Que seria porém da vida, onde parece que os valores estão a desaparecer, se não houvesse sonhadores como Agostinho da Silva?

Cabe aqui a lembrança do poeta quando falava “dos que não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida”.

Um dia fiquei surpreendido ao vê-lo desembarcar ali no terminal das carreiras, vindo de Lisboa, e manifestei-lhe a minha surpresa porquanto, e segundo tinha sido amplamente noticiado, era suposto encontrar-se àquela hora num acto oficial, onde seria condecorado com a “Ordem da Liberdade”, conjuntamente com outras individualidades.

Disse-me então, com aquela bonomia que lhe era peculiar: “Fui sempre, tanto quanto se pode ser, um homem livre! Assim, aqui estou eu em Sesimbra a usufruir da minha liberdade, pois só renunciei à condecoração com o seu nome.

De vários quadrantes há quem tenha pretendido usar-me como bandeira da revolução de Abril, cujos rumos se estão desviando dos propósitos proclamados.

É quase sempre assim, com as revoluções, e já o mesmo tinha acontecido a quando da implantação da República e todos sabemos das consequências.

A liberdade é um bem essencial que, tal como a saúde, só a avaliamos bem quando a perdemos.

A prática da famosa trilogia da revolução francesa, Liberdade, Igualdade e Fraternidade, mais citada do que vivida, nunca foi dada aos homens senão parcelar e esporadicamente, e esses valores só fazem sentido na sua globalidade.

Vejamos o exemplo ainda recente das duas superpotências mundiais: os Estados Unidos d’América e a União Soviética.

Na América, há liberdade mas não há igualdade.

Na União Soviética havia igualdade mas não havia liberdade.

Tanto num caso, como no outro, foi esquecida a fraternidade, o espírito fraternal, próprio de irmãos, que poderia realmente estabelecer a harmonia entre os homens. E tudo porque, uma coisa tem falhado sempre: que o homem mude!

É bom que haja confronto de ideias, adversários e opositores, mas nunca inimigos dentro de uma comunidade nacional.

Tem sido sempre mais fácil mudar as instituições. Difícil, é mudar a natureza humana e isso ainda nenhuma doutrina ou revolução o conseguiu até hoje!”

António Reis Marques

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*Palestra proferida no Auditório Conde de Ferreira, em Sesimbra, em 17 de Setembro de 2006.

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